BRICS: o que é, quem faz parte e como o bloco afeta a economia brasileira
Entenda o que é o BRICS, quem são os 10 membros e os países parceiros, como funcionam o banco do bloco e a discussão sobre o dólar, e o que isso muda para a economia e o investidor brasileiro.

O BRICS é um grupo de grandes economias emergentes — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, mais Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia — que se reúne para coordenar posições em economia, comércio e governança global. Não é um mercado comum, não tem tarifa única nem aliança militar: é um fórum político com um braço financeiro próprio, o Novo Banco de Desenvolvimento, sediado em Xangai e presidido por uma brasileira. Para o Brasil, o bloco importa sobretudo por um motivo concreto: a China, maior parceira comercial do país, está dentro dele.
O tema voltou ao noticiário com a cúpula de Nova Délhi, nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, sob a presidência da Índia. Mas as manchetes costumam misturar coisas muito diferentes — “moeda do BRICS”, “fim do dólar”, “bloco anti-Ocidente”, “tarifa de Trump”. Este guia separa o que o BRICS realmente é do que se fala sobre ele, e explica por que isso interessa a quem acompanha câmbio, commodities e bolsa.
Resposta curta: o que é o BRICS
- o que é: um fórum de cooperação entre economias emergentes, com cúpulas anuais de chefes de Estado e presidência rotativa;
- quem faz parte: 10 membros plenos, além de um grupo de “países parceiros” criado em 2024;
- o que ele tem de concreto: o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e um fundo de socorro entre os membros, o Arranjo Contingente de Reservas;
- o que ele não é: não é zona de livre comércio, não tem moeda comum e não é aliança militar;
- por que importa para o Brasil: reúne a China (maior destino das exportações brasileiras) e grandes produtores de energia e alimentos, e pesa no debate sobre o uso do dólar no comércio internacional.
De sigla de banco de investimento a bloco de países
O BRICS nasceu como uma ideia de mercado financeiro, não de diplomacia. Em 2001, o economista Jim O’Neill, do banco americano Goldman Sachs, publicou o relatório “Building Better Global Economic BRICs”, que agrupava Brasil, Rússia, Índia e China sob a sigla BRIC — quatro economias grandes, populosas e em rápido crescimento que, segundo a tese, ganhariam peso crescente na economia mundial. Em 2003, outro estudo do banco, “Dreaming with BRICs: The Path to 2050”, popularizou de vez o termo entre investidores.
Os próprios países só adotaram a sigla anos depois. O primeiro encontro formal foi uma reunião de chanceleres em Nova York, em 2006, à margem da Assembleia Geral da ONU. A primeira cúpula de chefes de Estado aconteceu em 16 de junho de 2009, em Ecaterimburgo, na Rússia — em plena crise financeira global, quando as economias emergentes passaram a cobrar mais espaço em fóruns dominados pelos países ricos, como o FMI e o Banco Mundial. A África do Sul foi admitida entre 2010 e 2011, e o “S” final transformou o BRIC em BRICS.
Quem faz parte hoje: membros e países parceiros
Depois de mais de uma década com cinco integrantes, o bloco se expandiu rapidamente:
- 1º de janeiro de 2024: entram Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. A Arábia Saudita foi convidada na mesma leva, mas não formalizou a adesão e mantém uma posição indefinida;
- 6 de janeiro de 2025: a Indonésia se torna o 10º membro pleno.
Os 10 membros plenos hoje são, portanto: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia.
Na cúpula de Kazan, na Rússia, em outubro de 2024, o grupo criou uma segunda categoria: a de país parceiro. A partir de 2025, entraram nessa condição Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão, e o Vietnã se juntou a eles em junho de 2025. Parceiros participam de reuniões e podem apresentar propostas, mas não votam nem assinam os documentos do bloco. Mais de 30 países já manifestaram interesse em algum tipo de adesão.
O que o BRICS não é (e por que isso importa)
Boa parte da confusão sobre o bloco vem de compará-lo com estruturas que ele não tem. Diferente do Mercosul ou da União Europeia, o BRICS:
- não é uma zona de livre comércio — não há redução automática de tarifas entre os membros nem tarifa externa comum;
- não tem moeda comum — e não há projeto formal aprovado para criar uma;
- não é aliança militar — não existe cláusula de defesa mútua, como na Otan;
- não tem tratado constitutivo nem secretariado permanente — funciona por cúpulas anuais, reuniões ministeriais e uma presidência que roda entre os membros a cada ano.
As decisões são tomadas por consenso, o que ajuda a explicar tanto a amplitude das declarações finais quanto a dificuldade de o grupo avançar em temas concretos. Com dez membros de regimes políticos, interesses e até rivalidades diferentes — Índia e China disputam fronteira, Irã e Emirados têm histórico de atrito no Golfo —, cada passo depende de todos concordarem. É um fórum de coordenação, e não um governo supranacional.
O braço financeiro: o Novo Banco de Desenvolvimento
O que o BRICS tem de mais concreto é o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês), criado em 15 de julho de 2014, na cúpula de Fortaleza, no Ceará. A ideia era ter uma alternativa ao Banco Mundial para financiar infraestrutura e projetos de desenvolvimento sustentável em países emergentes, sem as condicionalidades tradicionais das instituições de Washington.

Alguns números e fatos do banco:
- sede: Xangai, na China;
- capital: US$ 50 bilhões subscritos inicialmente, com possibilidade de chegar a US$ 100 bilhões — cada um dos cinco fundadores entrou com US$ 10 bilhões, o que dá a todos o mesmo peso, diferente do FMI e do Banco Mundial;
- comando: a ex-presidente Dilma Rousseff preside o banco desde 2023 e foi reconduzida por unanimidade em março de 2025 para um novo mandato de cinco anos, iniciado em julho de 2025;
- carteira: mais de US$ 40 bilhões em projetos aprovados, segundo balanço apresentado na cúpula de 2026, com o quadro de sócios ampliado de 5 para 11 países.
O segundo instrumento financeiro é o Arranjo Contingente de Reservas (ACR), um fundo de US$ 100 bilhões para socorrer membros em crise de balanço de pagamentos — uma espécie de “mini-FMI” entre os países do bloco. As cotas são desiguais: China com US$ 41 bilhões; Brasil, Rússia e Índia com US$ 18 bilhões cada; e África do Sul com US$ 5 bilhões. O mecanismo teve a estrutura operacional concluída e passou por testes, mas ainda não foi efetivamente acionado.
“Moeda do BRICS” e o fim do dólar: o que é real
Poucos temas geram tanta manchete exagerada quanto a suposta moeda do BRICS. O que existe de fato é mais modesto:
- uso de moedas locais: as declarações do bloco defendem, há anos, que o comércio e os investimentos entre os membros sejam liquidados nas próprias moedas nacionais (real, yuan, rupia etc.), reduzindo a dependência do dólar como intermediário;
- BRICS Pay: a iniciativa de um sistema de pagamentos transfronteiriço alternativo aos sistemas controlados pelo Ocidente é citada nas declarações, mas segue em discussão;
- moeda comum: não há proposta formal aprovada — e a diferença de tamanho, inflação e regime cambial entre os membros torna a ideia muito distante.
Um dado ilustra bem a distância entre discurso e prática: o próprio banco do BRICS continua predominantemente dolarizado, com o dólar respondendo por cerca de 60% de suas operações. A agenda de desdolarização é real como intenção política, mas avança devagar — e o dólar segue como a principal moeda do comércio e das reservas internacionais. Para entender por que a moeda americana tem tanto peso, vale ler também como funciona a dívida dos EUA e por que o mundo continua financiando Washington.
Qual o peso econômico do bloco
Com a expansão, o BRICS passou a reunir cerca de 30% da economia mundial e quase metade da população do planeta, segundo estimativas compiladas a partir de dados de organismos internacionais. O grupo também concentra uma parcela enorme da produção global de energia e alimentos: além de Rússia, Irã e Emirados — todos integrantes da OPEP+, que decide a oferta mundial de petróleo —, estão no bloco grandes exportadores agrícolas como Brasil e Indonésia e os dois maiores importadores de commodities do mundo, China e Índia.
Esse peso, porém, é muito concentrado: a China sozinha responde pela maior parte do PIB do grupo. Por isso, analistas costumam lembrar que o BRICS é, na prática, um bloco com um centro de gravidade chinês — o que explica tanto seu poder de atração quanto as cautelas de membros como a Índia.
O que o BRICS significa para o Brasil
O canal mais concreto é o comércio com a China, que é a maior parceira comercial do Brasil desde 2009. Em 2025, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), a corrente de comércio entre os dois países bateu recorde de US$ 171 bilhões, alta de 8,2% sobre 2024:
- exportações brasileiras para a China: cerca de US$ 100 bilhões, puxadas por soja, carne bovina, açúcar e celulose;
- importações vindas da China: cerca de US$ 70,9 bilhões;
- participação: a China representou 27,2% de toda a corrente de comércio do Brasil com o mundo (US$ 629 bilhões);
- comparação: com os Estados Unidos, segundo maior parceiro, as trocas somaram US$ 83 bilhões.

O Brasil também teve papel institucional de destaque recente: exerceu a presidência rotativa do bloco em 2025 e sediou a 17ª cúpula, no Rio de Janeiro, em 6 e 7 de julho daquele ano. E a presidência do banco do BRICS está nas mãos de uma brasileira. Ao mesmo tempo, o país mantém os Estados Unidos e a Europa como parceiros relevantes em comércio, investimento e mercado financeiro — o que obriga a diplomacia brasileira a um equilíbrio constante entre os dois lados.
A tensão com os Estados Unidos
O equilíbrio ficou mais delicado a partir de 2025. Em 6 de julho daquele ano, no primeiro dia da cúpula do Rio, depois de o bloco divulgar uma declaração criticando o aumento de tarifas no comércio mundial, o presidente americano Donald Trump afirmou que qualquer país que se alinhasse ao que chamou de “políticas antiamericanas do BRICS” pagaria uma tarifa adicional de 10%, “sem exceções”. Ele não detalhou quais políticas seriam essas. O episódio mostrou que a agenda do bloco — especialmente o discurso sobre o dólar — passou a ter custo diplomático e comercial real.
Para entender a mecânica por trás dessas ameaças, o site já explicou quem paga a conta das tarifas comerciais e como sanções econômicas mexem com os mercados — tema sensível para um bloco que inclui Rússia e Irã, dois dos países mais sancionados do mundo.
A cúpula de 2026 em Nova Délhi
A Índia assumiu a presidência do bloco em 1º de janeiro de 2026, com o tema “construir resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade”, e sediou a 18ª cúpula em Nova Délhi, em 12 e 13 de setembro. Os principais pontos:
- presença: quase todos os chefes de Estado compareceram, incluindo Xi Jinping e Vladimir Putin; as ausências foram o presidente Lula, em meio à campanha eleitoral no Brasil, e o líder dos Emirados Árabes Unidos;
- declaração conjunta: os 10 membros aprovaram um comunicado de cerca de 140 parágrafos, cobrindo governança global, comércio, clima, tecnologia e segurança internacional, e defendendo o uso de moedas nacionais no comércio e nos investimentos;
- China e Índia: uma longa reunião bilateral entre Narendra Modi e Xi Jinping reforçou a reaproximação entre os dois maiores membros do bloco, cuja rivalidade historicamente travava decisões;
- finanças: balanço do NDB com mais de US$ 40 bilhões em projetos e ampliação do quadro de sócios; o Arranjo Contingente de Reservas segue estruturado, mas não operacional.
Como o BRICS pode afetar o investidor brasileiro
O BRICS não mexe no mercado da mesma forma que uma decisão do Copom ou do Fed, mas influencia alguns canais que o investidor brasileiro sente no dia a dia:
- commodities e exportadoras: a demanda chinesa por soja, minério, carne e celulose afeta diretamente a receita de empresas exportadoras listadas na B3 e a entrada de dólares no país;
- câmbio: mais exportação para a China significa mais dólares entrando, o que tende a aliviar o real — e tensões comerciais com os EUA podem ter o efeito contrário;
- risco geopolítico: ameaças de tarifas ou sanções ligadas ao bloco podem aumentar a volatilidade de ativos brasileiros, mesmo sem efeito econômico imediato;
- energia: com grandes produtores de petróleo entre os membros, decisões e tensões envolvendo o bloco também passam pelo preço do barril — e, daí, pela Petrobras e pela inflação.
Como ler notícias sobre o BRICS
Antes de reagir a uma manchete sobre o bloco, vale fazer algumas perguntas:
- a notícia trata de uma decisão aprovada por todos os membros ou de uma proposta ou declaração de um único país?
- há mudança concreta — um acordo, um financiamento, um sistema em funcionamento — ou apenas intenção política?
- “moeda do BRICS” se refere a uma moeda comum (que não existe) ou ao uso de moedas locais no comércio bilateral (que já acontece em escala limitada)?
- a reação de outros países, especialmente dos EUA, envolve medidas efetivas ou só retórica?
- o tema afeta diretamente o comércio do Brasil com a China, o preço de commodities ou o câmbio?
Esse filtro ajuda a separar o que é simbólico do que realmente muda a vida de exportadores, investidores e consumidores.
Conclusão
O BRICS começou como uma sigla criada por um banco americano para vender uma tese de investimento e virou, duas décadas depois, um fórum de dez países com banco próprio, fundo de reservas e ambição de influenciar as regras da economia mundial. Mas continua sendo um grupo heterogêneo, que decide por consenso, sem moeda comum nem livre comércio entre os membros — e cujas declarações costumam ir muito além do que o bloco consegue de fato entregar.
Para o Brasil, o valor concreto do BRICS passa menos pelos discursos e mais pelo comércio com a China, pelo acesso a financiamento do NDB e pelo espaço diplomático entre as grandes potências. Entender essa diferença ajuda a ler com mais calma cada nova cúpula, cada ameaça de tarifa e cada manchete sobre o “fim do dólar”.
FAQ
1) O que significa a sigla BRICS?
São as iniciais em inglês dos cinco membros originais: Brazil (Brasil), Russia (Rússia), India (Índia), China e South Africa (África do Sul). O termo “BRIC” foi criado em 2001 pelo economista Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e o “S” foi acrescentado com a entrada da África do Sul, entre 2010 e 2011.
2) Quais países fazem parte do BRICS hoje?
São 10 membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia. Além deles, há países parceiros, que participam das reuniões mas não votam, como Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã.
3) O BRICS tem uma moeda própria?
Não. Não existe moeda comum nem proposta formal aprovada para criá-la. O que o bloco defende é o uso das moedas nacionais dos membros no comércio e nos investimentos entre eles, além de discutir um sistema de pagamentos próprio, o BRICS Pay, que ainda não está em funcionamento pleno.
4) O que é o banco do BRICS?
É o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), criado em 2014 na cúpula de Fortaleza e sediado em Xangai. Financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em países emergentes, tem capital inicial de US$ 50 bilhões dividido igualmente entre os fundadores e é presidido pela brasileira Dilma Rousseff, reconduzida em 2025 para mais cinco anos.
5) Como o BRICS afeta a economia brasileira?
Principalmente pelo comércio com a China, maior parceira comercial do Brasil, que comprou cerca de US$ 100 bilhões em produtos brasileiros em 2025. O bloco também influencia o câmbio, o preço de commodities e o risco geopolítico percebido por investidores — como mostrou a ameaça de tarifa adicional de 10% feita pelos EUA a países alinhados ao BRICS em 2025.
Fontes sugeridas: BRICS — Wikipédia, países parceiros do BRICS (presidência brasileira), recondução de Dilma Rousseff no NDB (Agência Brasil), comércio Brasil-China em 2025 (Poder360/CEBC) e ameaça de tarifa de 10% ao BRICS (CNN Brasil).
