A história do iFood: do guia impresso de restaurantes à gigante que venceu a guerra do delivery

O iFood nasceu em 2011 como um guia impresso de cardápios. Hoje domina 40% do delivery latino-americano e vale dezenas de bilhões. Entenda a trajetória completa.

A história do iFood: do guia impresso de restaurantes à gigante que venceu a guerra do delivery

Em 2011, quatro sócios paulistanos imprimiam um catálogo de cardápios de restaurante e recebiam pedidos por telefone. O nome do negócio era Disk Cook. Quinze anos depois, a empresa que nasceu daquele catálogo — rebatizada ainda em 2011 — comanda 40% de todo o mercado de delivery por aplicativo da América Latina e processa mais de 1 bilhão de pedidos por ano. Esta é a história do iFood.

2011: um guia impresso de restaurantes chamado Disk Cook

Patrick Sigrist, Eduardo Baer, Guilherme Bonifácio e Felipe Fioravante criaram, em São Paulo, um catálogo impresso com cardápios de restaurantes parceiros. O pedido era feito por telefone, numa central própria.

O nome do negócio, no início, era Disk Cook. Ainda em 2011, os fundadores perceberam que o futuro do negócio dependia de migrar para a internet — e a empresa foi rebatizada como iFood.

O site e o aplicativo, porém, só sairiam do papel no ano seguinte, em 2012.

2013: a aposta da Movile num “startup de 20 pessoas”

Em 2013, o iFood recebeu um investimento que mudaria sua trajetória: a Movile, grupo brasileiro de tecnologia fundado por Fabricio Bloisi, apostou numa empresa que, à época, tinha cerca de 20 funcionários.

A Movile já era, então, o maior grupo de comércio móvel da América Latina — construído por Bloisi desde 1998, numa época em que o ecossistema de startups brasileiro tinha pouquíssimo capital e quase nenhuma atenção internacional.

Por trás da Movile estava a Prosus (então ainda sob a estrutura da sul-africana Naspers), que se tornaria, anos depois, a controladora direta do iFood.

A guerra do delivery: como o iFood bateu o Uber Eats no Brasil

A pandemia de 2020 foi o campo de batalha decisivo do setor de delivery na América Latina. Com restaurantes fechados e as pessoas em casa, o Uber Eats chegou a deter 33% do mercado de aplicativos de delivery na região naquele ano — seu pico histórico.

O iFood, porém, resistiu e cresceu mais rápido. Entre março de 2023 e fevereiro de 2024, a base de clientes saltou de 45 milhões para 60 milhões, e os pedidos mensais passaram de 38 milhões para 88 milhões.

O resultado da disputa, alguns anos depois, não deixa dúvida: o iFood hoje detém cerca de 40% do mercado de delivery por aplicativo na América Latina, contra 19% da PedidosYa, 17% da Rappi e apenas 7% do Uber Eats — uma queda brutal frente aos 33% que a gigante americana chegou a ter durante a pandemia.

Entregador de bicicleta com bag térmica vermelha do iFood e máscara de proteção durante a pandemia, atravessando rua com faixa de pedestre
A pandemia de 2020 foi o campo de batalha decisivo da guerra do delivery na América Latina — e o iFood saiu na frente.

2022: a Prosus assume o controle total do iFood

Em agosto de 2022, a Prosus comprou os 33,3% do iFood que ainda pertenciam à Just Eat Takeaway, sócia minoritária desde uma rodada de investimento anterior. O negócio, de até R$ 9,4 bilhões (R$ 7,8 bilhões à vista mais um adicional de até R$ 1,6 bilhão), definiu o valuation do iFood entre R$ 22,7 bilhões e R$ 27,3 bilhões.

A Just Eat vendeu sob pressão: a empresa vinha de queda de 7% nos pedidos no primeiro semestre de 2022 e precisava de caixa. Para a Prosus, foi o movimento que consolidou o controle total sobre o que já era, disparado, seu ativo mais valioso na América Latina.

Fabricio Bloisi: do investidor inicial a CEO global da Prosus

A trajetória de Fabricio Bloisi dentro da história do iFood é, em si, um capítulo à parte. Ele foi quem, em 2013, liderou o investimento inicial da Movile no iFood.

Em 2019, Bloisi assumiu como CEO do próprio iFood, período em que a empresa consolidou a liderança que tem hoje na América Latina.

Em julho de 2024, o ciclo se fechou de um jeito improvável: Bloisi foi nomeado CEO global da Prosus — a mesma controladora que, onze anos antes, havia apostado numa startup brasileira de 20 pessoas. De investidor a fundador de fato do sucesso do iFood, e depois ao comando de uma das maiores empresas de internet e investimentos do mundo.

Além do delivery de comida: fintech, farmácia e mercado

Nos últimos anos, o iFood deixou de depender só da entrega de comida. No ano fiscal encerrado em março de 2026, o delivery de comida já representava 67% da receita da empresa — ante praticamente 100% poucos anos antes —, com as novas categorias somando os outros 33%.

O braço de fintech do iFood gerou R$ 2,5 bilhões em receita nesse mesmo período, mais que dobrando na comparação anual. O programa iFood Benefícios, por sua vez, já movimenta R$ 1 bilhão em recargas por mês. Entregas de farmácia também têm crescido em ritmo acelerado, puxadas por uma base de usuários que já confia no aplicativo para muito mais do que jantar.

iFood hoje: os números

No ano fiscal encerrado em março de 2026, a receita do iFood superou R$ 10 bilhões, alta de 36% em relação ao ano anterior. O Ebitda somou R$ 2,2 bilhões, crescimento de 40%.

A operação soma mais de 500 mil entregadores cadastrados, cerca de 400 mil estabelecimentos parceiros e presença em 1.500 cidades brasileiras — números que ajudam a explicar por que “ifodar” virou verbo no vocabulário informal do brasileiro.

Logotipo oficial do iFood, aplicativo de delivery fundado em 2011 em São Paulo
A marca iFood hoje: líder de delivery na América Latina, sob controle da Prosus.

Os novos desafiantes: 99 e Keeta

A liderança do iFood não significa ausência de concorrência. Em 2026, dois novos entrantes têm chamado atenção do mercado: a 99 (do grupo chinês Didi) e a Keeta, também de capital chinês, ambas expandindo agressivamente no delivery brasileiro.

O padrão histórico do setor sugere que a resposta do iFood deve continuar vindo por dois caminhos: reforçar a fidelização via programas como o Benefícios e acelerar a diversificação para categorias além da comida — terreno em que a escala já consolidada da empresa é uma vantagem difícil de replicar rapidamente.

Por que a história do iFood importa para o investidor

  • Efeito de rede: quanto mais restaurantes e entregadores num mercado, melhor a experiência do consumidor — e mais difícil fica para um concorrente novo replicar a mesma densidade de oferta.
  • Diversificação de receita: a migração de “app de comida” para “super-app” (fintech, farmácia, mercado) reduz a dependência de um único negócio e abre múltiplas frentes de crescimento.
  • Vantagem de escala consolidada cedo: vencer a guerra do delivery durante a pandemia — o momento de maior disputa do setor — deu ao iFood uma dianteira que rivais como o Uber Eats não conseguiram recuperar anos depois.
  • Risco regulatório e trabalhista: a dependência de centenas de milhares de entregadores autônomos mantém o modelo sob observação constante de reguladores e do debate público sobre direitos trabalhistas na economia de aplicativos.

Conclusão

Poucas empresas brasileiras ilustram tão bem o poder de pivotar rápido quanto o iFood: de catálogo impresso com pedidos por telefone a super-app avaliado em dezenas de bilhões de reais, em pouco mais de uma década. A vitória na guerra do delivery contra rivais globais bem mais capitalizados — vencida com execução local e investimento paciente da Movile e da Prosus — é hoje um dos casos de referência de empreendedorismo digital no Brasil.

FAQ

Quando o iFood foi fundado?

Em 2011, em São Paulo, como Disk Cook — um catálogo impresso de cardápios com pedidos por telefone. Ainda em 2011 a empresa foi rebatizada como iFood; o site e o aplicativo só foram lançados em 2012.

Quem é o dono do iFood hoje?

A Prosus, subsidiária de investimentos internacionais do grupo Naspers, detém o controle total desde agosto de 2022, quando comprou a fatia restante que pertencia à Just Eat Takeaway.

O iFood é uma empresa brasileira?

Foi fundado e é operado no Brasil, com sede em São Paulo, mas seu controle acionário pertence à Prosus, empresa holandesa/sul-africana.

O iFood ainda é só um app de entrega de comida?

Não. No ano fiscal encerrado em março de 2026, o delivery de comida já representava 67% da receita, com o restante vindo de fintech, farmácia, mercado e outras categorias novas.

Quem é Fabricio Bloisi?

O empresário brasileiro que, via Movile, liderou o investimento inicial no iFood em 2013, assumiu como CEO do iFood em 2019 e, em julho de 2024, tornou-se CEO global da Prosus, a controladora do iFood.

Fontes: Exame, iFood Institucional, iFood — aquisição pela Prosus, Brazil Journal e Wikipédia — Fabricio Bloisi.

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