Atualizado em: 22 de junho de 2026
Em 1957, um casal de empreendedores abriu uma pequena loja de presentes em Franca, interior de São Paulo. Seis décadas depois, a empresa que nasceu dali — o Magazine Luiza — se tornaria a maior varejista digital do Brasil, com mais de 1.500 lojas, 100 mil funcionários e um dos casos mais comentados de ascensão e queda na Bolsa brasileira. A história do Magalu é inseparável da história de três mulheres: Luiza Trajano Donato, que fundou; Luiza Helena Trajano, que transformou; e o herdeiro Frederico Trajano, que digitalizou. E também da MGLU3, a ação que subiu 8.000% e depois caiu 90% — tudo em menos de dez anos.
1957: A Cristaleira e o começo em Franca
A história começa com um presente de casamento fora do comum. Em 1957, Luiza Trajano Donato e seu marido Pelegrino José Donato abriram uma pequena loja chamada A Cristaleira em Franca (SP), com um investimento inicial financiado por crédito bancário de Pelegrino. A loja vendia utensílios domésticos, cristais e presentes — produtos que, na época, o interior paulista mal conhecia.
O diferencial desde o início não era o produto, mas o atendimento. Luiza Trajano Donato era famosa por conhecer cada cliente pelo nome, por dar crédito para quem o banco não daria e por criar um ambiente de loja que parecia uma extensão da casa. Essa filosofia de “comércio com rosto humano” seria o DNA que atravessaria décadas e gerações da empresa.
Na década de 1970, a loja mudou de nome para Magazine Luiza e começou a diversificar: móveis, eletrodomésticos, eletrônicos. Em 1976, inaugurou sua segunda loja — o início de uma expansão que não pararia mais.
Luiza Helena Trajano: a sobrinha que transformou tudo
O grande salto da empresa veio de uma sobrinha de Luiza Trajano Donato: Luiza Helena Trajano. Ela entrou na empresa ainda jovem, aprendeu o negócio do chão de fábrica e foi assumindo cargos crescentes. Em 1991, tornou-se presidente do Magazine Luiza — e a empresa nunca mais foi a mesma.
Luiza Helena era uma executiva diferente do perfil típico do varejo brasileiro dos anos 1990. Ela apostou em três frentes que pareciam contra-intuitivas na época:
- Crédito próprio agressivo: enquanto os concorrentes dependiam do financiamento bancário, a Magalu criou suas próprias condições — e chegou a clientes que os bancos ignoravam, nas classes C e D do interior do Brasil
- Lojas sem estoque: em 1992, abriu o que chamou de “loja virtual” — pontos de venda onde o cliente escolhia pelo catálogo e recebia em casa. Antes da internet, o Magazine Luiza já praticava e-commerce
- Cultura como vantagem competitiva: implementou um modelo de gestão participativa, com funcionários chamados de “pessoas” e reuniões abertas onde qualquer um podia questionar a diretoria
Sob Luiza Helena, a empresa saiu do interior paulista para todo o Brasil. Em 1999, abriu capital na Bolsa (inicialmente com ações preferenciais). Em 2011, fez o IPO completo na Bovespa — e começou a chamar atenção dos investidores em bolsa.
A expansão: Lojas do Baú, Lojas Maia e o sonho nacional
Nas décadas de 1990 e 2000, a Magalu cresceu por expansão orgânica e por aquisições estratégicas. As mais relevantes:
- 2000: Aquisição das Lojas do Baú — entrada no mercado de São Paulo capital
- 2003: Aquisição das Lojas Maia — entrada no Nordeste do Brasil
- 2010: Aquisição das Lojas Baú — consolidação de São Paulo
- 2012: IPO completo (MGLU3) — R$ 870 milhões captados
Em 2015, a empresa tinha mais de 700 lojas em todo o Brasil — uma presença nacional que rivalizava com as gigantes do varejo físico. Mas o mercado digital estava mudando tudo, e a Magalu precisava de uma nova transformação.
Frederico Trajano e a aposta na digitalização (2016)
Em 2016, Luiza Helena passou o bastão para seu filho, Frederico Trajano. A escolha era arriscada: Frederico era engenheiro de computação por formação e estava convicto de que o Magazine Luiza precisava deixar de ser uma empresa de varejo para se tornar uma empresa de tecnologia que vende varejo.
Sua frase mais citada desse período resume a estratégia: “Não somos uma varejista que usa tecnologia. Somos uma empresa de tecnologia que faz varejo.”
As mudanças foram radicais e rápidas:
- 2016: Criação do Magalu Labs — time de tecnologia interno, com 1.500 engenheiros hoje
- 2018: Lançamento do SuperApp — app que integrava compras, crédito e serviços
- 2019: Abertura do marketplace para lojistas terceiros — o ponto de inflexão
- 2020: Aquisição de empresas de logística, fintech e tecnologia — mais de 20 aquisições no período 2018-2021
O marketplace transformou a Magalu: de uma empresa que vendia seus próprios produtos, ela passou a ser uma plataforma onde qualquer lojista podia vender. O GMV (volume bruto de mercadorias) disparou — e com ele, o preço da ação.
MGLU3: a ação que subiu 8.000% e caiu 90%
A história da MGLU3 é um dos capítulos mais dramáticos da Bolsa brasileira nos últimos anos. Em 2015, as ações valiam menos de R$ 1,00 (ajustado por desdobramentos). Em fevereiro de 2021, chegaram a R$ 27,00 — uma valorização de mais de 8.000% em seis anos. Luiza Helena Trajano se tornou a mulher mais rica do Brasil.
O mercado apostava que a Magalu seria o equivalente brasileiro da Amazon. A empresa vendia esse sonho com dados: crescimento de 100% ao ano no e-commerce, marketplace acelerando, aquisições mostrando expansão agressiva. Fintechs, seguros, logística — a Magalu parecia estar em todo lugar.
Depois veio a reversão. Entre 2021 e 2023, as ações caíram de R$ 27 para menos de R$ 2 — uma perda de 93% do valor de mercado. Os motivos foram:
- Aumento dos juros: com a Selic subindo de 2% para 13,75%, empresas de crescimento (como a Magalu) são castigadas — o valor presente dos lucros futuros cai
- Competição brutal: Shopee (singaporense) e Amazon investiram pesadamente no Brasil, com logística mais barata e preços mais agressivos
- Rentabilidade questionada: crescer com prejuízo não era mais tolerado pelo mercado em 2022-2023
- Aquisições caras: muitas das aquisições foram feitas a preços altos e entregaram menos sinergia do que o esperado
Em 2024 e 2025, as ações se recuperaram parcialmente — entre R$ 10 e R$ 15 — à medida que a empresa ajustou a estratégia, cortou custos e voltou a reportar margens melhores. Mas o patamar de R$ 27 permanece distante.
O desafio do marketplace: Amazon, Shopee e Mercado Livre
O marketplace que impulsionou a Magalu também trouxe seu maior desafio. Quando o modelo de plataforma aberta se popularizou no Brasil, todos os grandes entraram: Mercado Livre (já dominante), Amazon (com logística própria), Shopee (com preços agressivos vindos da Ásia) e até o Americanas (antes de sua crise de 2023).
Diferente da Amazon, cujo seller marketplace é uma parte de um negócio que inclui AWS (computação em nuvem) e Prime (streaming), a Magalu depende quase integralmente do varejo. A concorrência com players que têm subsídios cruzados de outros negócios é estruturalmente difícil.
A resposta estratégica da Magalu inclui:
- Foco no lojista pequeno e médio brasileiro (que a Shopee não atende localmente)
- Logística própria (Magalu Entregas) nas regiões onde a empresa tem vantagem geográfica
- Serviços financeiros para os sellers do marketplace (crédito, maquininha, conta digital)
- Parceria com lojas físicas de bairro para ponto de entrega e retirada
Magalu hoje: escala, aquisições e o projeto de consolidação
Em 2025, o Magazine Luiza opera com mais de 1.500 lojas físicas em todo o Brasil, um e-commerce com mais de 30 milhões de clientes ativos e um marketplace com mais de 300 mil sellers. A empresa é uma das cinco maiores empregadoras privadas do país, com mais de 100 mil funcionários.
Luiza Helena Trajano continua ativa como presidente do Conselho de Administração e como uma das vozes mais influentes do empresariado brasileiro — reconhecida por iniciativas como o Grupo Mulheres do Brasil e por posicionamentos públicos frequentes sobre política e economia. Frederico segue como CEO.
O desafio para os próximos anos é provar que uma empresa de varejo físico + digital pode ser rentável de forma sustentável num mercado com competidores que operam com prejuízo subsidiado por outros negócios. Não é uma batalha simples — mas a Magalu já sobreviveu a crises maiores em sua história de quase 70 anos.
FAQ
Conclusão
A história do Magazine Luiza é a história do varejo brasileiro em miniatura: a superação do interior paulista, a construção de uma marca com DNA familiar, a adaptação para a era digital e a tentativa de sobreviver num mercado cada vez mais dominado por gigantes globais. Três gerações de líderes, cada uma enfrentando o desafio do seu tempo — e uma empresa que, apesar dos tropeços na Bolsa, segue sendo uma das marcas mais reconhecidas e confiadas do Brasil. O próximo capítulo depende de uma equação difícil: crescer de forma rentável num mercado com concorrentes que ainda podem operar no prejuízo. Mas se há algo que a história da Magalu ensina, é que subestimar essa empresa costuma ser um erro.
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