Agro aponta cinco frentes para o próximo presidente; desafios vão além do crédito
Crédito caro, seguro rural limitado, infraestrutura, insumos e acesso a mercados estão entre os desafios que a Abag quer colocar na agenda do próximo presidente. Veja o que os dados mostram e por que parte das soluções exige continuidade além de um mandato.

Crédito caro, cobertura limitada de seguro, gargalos de infraestrutura, dependência de insumos importados e acesso a mercados estão entre os desafios do agronegócio que a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) quer ver na agenda do próximo presidente. Em reportagem publicada em 9 de outubro, o G1 organizou as propostas da entidade em cinco frentes: financiamento e seguro rural; cadeias estratégicas; infraestrutura agroindustrial; comunicação e valorização da agroindústria; e inserção internacional e competitividade.
O diagnóstico não equivale a um programa de governo nem a compromissos assumidos por candidatos. Pesquisadores ouvidos pelo G1 destacam que os problemas são diferentes entre si e que parte das soluções depende de planejamento continuado, investimento privado e políticas que ultrapassam um único mandato. Para entender o peso do setor na economia brasileira, veja também como o Brasil se tornou um dos principais exportadores de produtos agropecuários.
1. Crédito rural e seguro: o custo aperta antes do plantio
O primeiro desafio é manter o acesso ao financiamento em um momento de endividamento elevado e de aumento dos pedidos de recuperação judicial no campo. Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro ouvido pelo G1, afirma que esses fatores contribuem para juros altos e maior seletividade dos bancos na concessão de crédito rural. Quando o financiamento fica mais caro ou difícil de obter, o produtor pode adiar investimentos em máquinas, tecnologia e insumos antes mesmo de iniciar a produção.
A proteção contra perdas também é restrita: segundo Serigati, apenas 3% da produção agropecuária está coberta por seguro rural. Isso deixa parte expressiva do setor exposta a eventos climáticos e amplia a importância de instrumentos de gestão de risco. A Lei 15.526/2026, publicada no Diário Oficial da União conforme reportado pelo G1, criou um novo marco regulatório para o seguro e tornou obrigatórias despesas com a subvenção ao prêmio. A mudança altera regras e orçamento, mas não significa que a cobertura já tenha aumentado nem resolve, por si só, o custo e o acesso às apólices.

2. Cadeias estratégicas e insumos importados
Fertilizantes estão entre as vulnerabilidades destacadas na reportagem. O Brasil importa cerca de 80% dos adubos químicos que consome, segundo os dados citados pelo G1. Essa dependência expõe produtores a oscilações de preço, conflitos em países fornecedores e problemas em rotas de transporte internacional.
O Plano Nacional de Fertilizantes busca ampliar a produção e reduzir riscos, mas seus resultados são de longo prazo e dependem de investimento, disponibilidade de matérias-primas e viabilidade econômica. No curto prazo, especialistas ouvidos pelo G1 defendem diversificar fornecedores. A Abag também pede mais fabricação de máquinas no país; os pesquisadores ponderam que, em alguns equipamentos, a dependência mais difícil de reduzir está em componentes como chips, e que nacionalizar toda a cadeia não é necessariamente viável.
3. Infraestrutura: armazenar, transportar e conectar
Armazenagem limitada e estradas em más condições elevam custos e podem levar a perdas de produtos. Os especialistas citados pelo G1 apontam ainda a necessidade de integrar rodovias, ferrovias e hidrovias, agilizar projetos sem abrir mão da análise ambiental e ampliar a conectividade no campo. São obras e serviços com financiamento, planejamento e licenciamento complexos — fatores que dificultam concluir mudanças estruturais no horizonte de um único mandato.
A conectividade também é parte da infraestrutura produtiva: máquinas conectadas, gestão de lavouras e serviços digitais dependem de acesso estável à internet. Dados do IBGE citados pelo G1 mostram que, em 2024, mais de 1,3 milhão de domicílios rurais não tinham acesso à internet, cerca de 15% do total. O número descreve domicílios, não propriedades ou trabalhadores, e ajuda a dimensionar uma lacuna que afeta a adoção de tecnologia.
4. Comunicação e valorização da agroindústria
Outro eixo da Abag é melhorar a comunicação sobre a agroindústria no Brasil e no exterior. Um professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), ouvido pelo G1, avalia que o setor precisa valorizar seus pontos fortes, mas também demonstrar disposição para corrigir fragilidades. Isso não é apenas uma campanha de imagem: na avaliação dos especialistas ouvidos pelo G1, credibilidade depende de práticas e de diálogo com compradores, sociedade e parceiros comerciais.
5. Mercados externos, acordos e competitividade
Exportar não depende só de produzir em escala. A reportagem aponta barreiras tarifárias e sanitárias, concentração de vendas em poucos destinos e poucos acordos comerciais de longo prazo como pontos de atenção. Para ampliar ou preservar mercados, o Brasil precisa acompanhar regras dos compradores e participar de negociações com antecedência; empresas e associações também têm papel nessa articulação.
As respostas, porém, não são iguais para todos os produtos. Regras sanitárias, exigências ambientais e condições de acesso variam por mercado e cadeia. Por isso, acordos comerciais podem ajudar a dar previsibilidade, mas não substituem adaptação de produtores e empresas às normas de cada destino. A Abag apresenta essas frentes como reivindicações; a reportagem não as descreve como políticas já aprovadas ou promessas de candidatos.
O que pode caber em um mandato — e o que exige continuidade
Os pontos da agenda misturam medidas de horizontes diferentes. Regras de crédito, prioridades de orçamento e coordenação entre órgãos podem mudar em menos tempo. Já ampliar cobertura de seguro, reduzir a dependência de fertilizantes, construir infraestrutura e conectar áreas rurais requer financiamento, execução e avaliação ao longo de vários anos. Os pesquisadores ouvidos pelo G1 alertam que nem todos esses gargalos podem ser resolvidos por um único governo.
Também é importante separar o interesse de uma entidade setorial do interesse de toda a população. As propostas da Abag oferecem uma lista de temas para debate, mas escolhas públicas envolvem custos, prioridades fiscais, impactos ambientais, consumidores, trabalhadores e diferentes regiões. A reportagem reúne demandas e avaliações; não define qual combinação de políticas deve ser adotada.
Impacto prático para o investidor
- Crédito e seguro: acompanhe endividamento, recuperação judicial e cobertura de seguro; esses fatores afetam risco, custo de capital e capacidade de investimento das empresas do setor.
- Insumos: fertilizantes importados expõem produtores a câmbio, frete e choques externos, com efeitos distintos conforme cultura, safra e possibilidade de repasse.
- Logística: armazenagem e transporte influenciam perdas, custo de escoamento e margem dos negócios ligados a commodities.
- Política pública: diferencie anúncio, proposta de entidade, lei aprovada, orçamento e execução. O efeito econômico depende da implementação e pode levar tempo para aparecer nos resultados.
Perguntas frequentes
Quais são os cinco desafios do agronegócio para o próximo presidente?
Na organização apresentada pelo G1 a partir de propostas da Abag, são financiamento e seguro rural; cadeias estratégicas; infraestrutura agroindustrial; comunicação e valorização da agroindústria; e inserção internacional e competitividade.
Quanto da produção agropecuária tem seguro rural?
O pesquisador Felippe Serigati, da FGV Agro, afirmou ao G1 que apenas 3% da produção agropecuária está coberta por seguro rural. O percentual é o dado citado na reportagem publicada em 9 de outubro de 2026.
Por que a dependência de fertilizantes preocupa?
Porque o Brasil importa cerca de 80% dos adubos químicos que consome, segundo dados citados pelo G1. A dependência pode expor produtores a variações de preços, fornecedores e rotas internacionais.
Esses desafios podem ser resolvidos em um mandato?
Não necessariamente. Os pesquisadores ouvidos pelo G1 afirmam que gargalos como infraestrutura, conectividade e redução da dependência de insumos exigem planejamento e investimentos de longo prazo, inclusive da iniciativa privada.
As propostas da Abag são promessas dos candidatos?
Não. São frentes de política pública defendidas pela entidade e discutidas em reportagem do G1. O artigo não as atribui a candidatos nem as trata como compromissos eleitorais.
Fontes
- G1 — Do campo ao Planalto: os problemas que o agro quer ver resolvidos pelo próximo presidente, 9 de outubro de 2026.
- Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).
- IBGE — PNAD Contínua, fonte dos dados de acesso à internet rural citados na reportagem.
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