Exportações de calçados aos EUA recuam 22,8% em valor até agosto
Exportações brasileiras de calçados aos Estados Unidos recuaram 22,8% em valor de janeiro a agosto de 2026. Veja os dados, a projeção da Abicalçados para o setor e por que o impacto não chega automaticamente ao preço pago pelo consumidor brasileiro.

As exportações brasileiras de calçados para os Estados Unidos renderam US$ 120,5 milhões de janeiro a agosto de 2026, uma queda de 22,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em volume, foram enviados 7,38 milhões de pares, recuo menor, de 4,1%. Os dados, atribuídos à Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), foram divulgados pelo G1 em 10 de outubro e mostram que o valor exportado caiu mais do que a quantidade.
O quadro ocorre em meio às tarifas americanas, mas os números não permitem atribuir toda a retração a uma única causa. A composição dos produtos vendidos também mudou, e outros destinos importantes registraram queda. Para entender como uma tarifa pode afetar preços e quem arca diretamente com ela, veja o explicador sobre tarifas comerciais.
O recuo aparece no valor e no volume
No conjunto dos mercados, o Brasil exportou 62,45 milhões de pares nos oito primeiros meses de 2026, com receita de US$ 541,45 milhões. Na comparação anual, o volume caiu 7,5% e o valor, 16,8%, segundo os dados reportados pelo G1. Para os Estados Unidos, principal foco da notícia sobre o tarifaço, a queda foi de 4,1% em pares e 22,8% em receita.

Em agosto, o preço médio por par exportado aos Estados Unidos foi de US$ 17,20, 35,4% abaixo do registrado um ano antes. A Abicalçados relacionou parte da mudança ao mix exportado, com recuo de calçados de couro de maior valor. Isso ajuda a explicar por que a receita pode diminuir mais do que o número de pares: vender uma composição diferente de produtos muda o valor médio, sem que a quantidade tenha de cair na mesma proporção.
As tarifas não explicam sozinhas o desempenho
O mercado americano não foi o único destino com retração. De acordo com o G1, as exportações para a Argentina também recuaram no período. Essa diferença importa: a queda geral do setor reúne variações de demanda, preços, destinos e tipos de calçado, além dos efeitos das medidas comerciais dos Estados Unidos. Por isso, o recuo de 22,8% na receita enviada ao mercado americano não deve ser lido como uma estimativa isolada do custo das tarifas.
Redirecionar pares que deixem de ser vendidos aos Estados Unidos também não é automático. O mercado doméstico enfrenta a concorrência de calçados importados: o G1 informou que as importações brasileiras cresceram 9,6% em volume nos oito primeiros meses do ano, com China, Vietnã e Indonésia respondendo por cerca de 80% dos pares importados. Esse contexto não prova que os produtos exportados serão deslocados para o varejo brasileiro; mostra, porém, que fabricantes encontram um mercado com concorrência e dinâmica próprias.
Projeção de exportações e empregos é condicional
Diante do cenário, a Abicalçados revisou sua projeção para as exportações totais de calçados em 2026: agora estima queda de 7,1%, ante recuo de 3,6% na projeção anterior. A entidade também calcula que mais de 5 mil empregos diretos poderiam ser perdidos no segundo semestre caso as tarifas continuem. Trata-se de uma estimativa condicionada à permanência das medidas, não de um balanço de demissões já confirmadas.
Os dados de emprego disponíveis até julho ajudam a separar o alerta do que já ocorreu: o setor ainda acumulava saldo positivo de 1.740 vagas no ano, embora tenha fechado 387 postos naquele mês, segundo os números citados pelo G1. A projeção para o restante do semestre indica um risco acompanhado pela entidade, mas pode mudar conforme tarifas, encomendas e produção evoluam.
O consumidor brasileiro verá o efeito no preço?
Não há repasse automático das tarifas americanas para a etiqueta no Brasil. As cobranças discutidas incidem sobre produtos que entram nos Estados Unidos; o impacto imediato destacado pelo G1 é sobre empresas exportadoras, receita e atividade. No Brasil, efeitos sobre trabalhadores, fornecedores e preços podem surgir por caminhos indiretos, mas dependem de como empresas e mercados reagirem.
Em outras palavras, a queda das exportações não significa, por si só, que o calçado brasileiro ficará mais caro ou mais barato para quem compra no país. O que os dados permitem afirmar agora é mais específico: até agosto, o valor das vendas brasileiras de calçados aos Estados Unidos caiu mais do que o volume, e a indústria revisou para baixo sua expectativa de exportação para o ano.
O que acompanhar daqui para frente
- Novos dados de exportação: mostram se o recuo em valor e quantidade se aprofunda ou perde força nos próximos meses.
- Tarifas e encomendas dos EUA: a continuidade das medidas é uma condição expressa na projeção de emprego da Abicalçados.
- Emprego na indústria: o saldo efetivo das vagas deve ser acompanhado separadamente das estimativas para o segundo semestre.
- Vendas e importações no Brasil: ajudam a avaliar a concorrência e a eventual redistribuição da produção entre mercados, sem presumir repasse direto ao consumidor.
Perguntas frequentes
Quanto caíram as exportações de calçados brasileiros para os EUA?
De janeiro a agosto de 2026, a receita com as exportações aos Estados Unidos caiu 22,8%, para US$ 120,5 milhões. O volume recuou 4,1%, para 7,38 milhões de pares, segundo os dados atribuídos à Abicalçados e reportados pelo G1.
A queda foi causada apenas pelas tarifas americanas?
Não é possível afirmar isso com os dados citados. As tarifas são parte do contexto, mas composição dos produtos e desempenho de outros mercados também influenciam os resultados do setor.
O que significa o preço médio de US$ 17,20 por par?
É o valor médio reportado para os pares exportados aos Estados Unidos em agosto de 2026. Ficou 35,4% abaixo do ano anterior; segundo a Abicalçados, a mudança de mix e a menor participação de calçados de couro de maior valor ajudam a explicar a variação.
Há mais de 5 mil demissões confirmadas?
Não. A Abicalçados estimou possível perda de mais de 5 mil empregos diretos no segundo semestre se as tarifas continuarem. É uma projeção condicional, não um total de demissões já realizado.
O tarifaço vai aumentar o preço dos calçados no Brasil?
Não automaticamente. A tarifa americana incide sobre a entrada de produtos nos Estados Unidos. Eventuais efeitos no Brasil dependem de impactos indiretos na atividade, no emprego, na oferta e nas decisões das empresas.
Fontes
- G1 — Tarifaço dos EUA: quando os efeitos podem chegar ao seu bolso?, 10 de outubro de 2026. Dados setoriais atribuídos à Abicalçados e informações de comércio exterior citadas na reportagem.
- Abicalçados — entidade setorial citada como fonte das projeções.
- Comex Stat, do MDIC — consulta pública de estatísticas brasileiras de comércio exterior.
Leia também: Tarifas comerciais: quem paga a conta no fim?