Guerra no Oriente Médio completa 6 meses: o impacto no petróleo, no dólar e nos alimentos
A guerra entre EUA/Israel e Irã completa seis meses e já afetou petróleo, dólar, ouro e alimentos no mundo todo. Entenda os números por trás do conflito e por que os ativos considerados "seguros" não se comportaram como sempre.

Neste 28 de agosto, a guerra entre Estados Unidos/Israel e o Irã completou seis meses — e seus efeitos já ultrapassaram, de longe, as fronteiras da região. Petróleo, combustíveis, dólar, ouro, títulos do governo americano, alimentos e fertilizantes: praticamente todo mercado relevante sentiu algum reflexo do conflito, mas nem sempre da forma que a lógica de “porto seguro” sugeriria. Entenda, em camadas, o que aconteceu desde o início da guerra e como interpretar os números sem exagero.
O fato e o contexto de fundo
O conflito começou em 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Desde então, as restrições à passagem de petróleo e outros produtos pelo Estreito de Ormuz — uma das principais rotas comerciais do mundo, por onde passa uma fatia relevante do petróleo exportado globalmente — provocaram forte impacto nos mercados de energia, que por sua vez se espalhou para outras classes de ativos.

Primeira camada: o choque no petróleo e nos combustíveis
A guerra afetou diretamente a produção de petróleo nos países do Golfo e reduziu fortemente o transporte de cargas pelo Estreito de Ormuz. O petróleo Brent chegou a ultrapassar US$ 120 por barril em abril — o pico mais agudo do conflito até agora. O impacto também chegou aos combustíveis derivados, como diesel e querosene de aviação: o diesel sofreu pressão ainda maior porque, além da redução das exportações do Golfo, ataques ucranianos a refinarias russas diminuíram a oferta de combustíveis no mercado internacional.
O combustível de aviação também foi afetado no início do conflito, mas o aumento da produção e das exportações das refinarias dos Estados Unidos ajudou a aliviar parte das preocupações com o abastecimento ao longo dos meses seguintes. Com a aproximação do inverno no Hemisfério Norte — quando a demanda por energia tende a subir —, novos problemas no Estreito de Ormuz ou na infraestrutura energética russa podem voltar a pressionar os combustíveis e a inflação global.
Segunda camada: dólar, ouro e títulos não foram os refúgios de sempre
Em momentos de crise, investidores costumam buscar ativos considerados mais seguros — dólar, ouro e títulos do governo americano — na tentativa de proteger patrimônio da volatilidade. Desta vez, porém, nenhum dos três teve um comportamento uniforme ou totalmente alinhado ao script tradicional.
- Dólar: acumula alta de cerca de 1,4% frente a uma cesta das principais moedas do mundo desde o início da guerra — um movimento moderado, longe de um salto típico de “fuga para a segurança”.
- Títulos do governo dos EUA: acumularam perda de cerca de 3,5%, somando variação de preço e rendimentos pagos — desempenho pressionado principalmente pela alta da inflação e pelas expectativas para os juros americanos, não pelo conflito em si.
- Ouro: teve a trajetória mais errática dos três. Caiu quase 25% entre o início da guerra e julho, mas subiu mais de 15% só neste mês de agosto, em meio a preocupações renovadas com o dólar.
Terceira camada: bolsas resistem, alimentos sobem, Golfo sofre
Bolsas globais: recorde puxado por inteligência artificial
Apesar do choque no setor de energia, as bolsas globais resistiram aos efeitos da guerra e continuaram avançando. O valor das empresas que compõem o índice mundial de ações da MSCI, que reúne mercados de 47 países, atingiu neste mês o recorde de US$ 105 trilhões — quase US$ 7 trilhões a mais, uma alta de 9%, desde o início da guerra. Um dos principais fatores por trás dessa resistência foi o forte volume de investimentos em empresas ligadas à inteligência artificial, que ajudou a compensar parte das perdas provocadas pela guerra em outros setores e regiões, especialmente nos mercados do Golfo.

Alimentos e fertilizantes sob pressão
Os efeitos do conflito também chegaram à produção de alimentos. A redução dos embarques pelo Estreito de Ormuz afetou o comércio internacional de fertilizantes — produtos usados nas lavouras para fornecer nutrientes às plantas e aumentar a produtividade. Esse problema se somou aos efeitos do El Niño e às interrupções no transporte de grãos provocadas pela guerra na Ucrânia, numa combinação de fatores que aumentou a pressão sobre os preços dos alimentos. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), os preços globais da alimentação atingiram em julho o maior nível em mais de três anos. O JPMorgan estima que, mesmo sem considerar os efeitos da guerra, um El Niño forte poderia acrescentar cerca de 0,7 ponto percentual à inflação global dos alimentos no momento de maior impacto — problema que tende a pesar mais em países da Ásia, América Latina e África, onde as famílias gastam uma parcela maior da renda com alimentação.
Os países do Golfo pagam a conta mais alta
Os países produtores de petróleo e gás do Golfo estão entre os mais afetados economicamente pela guerra. As exportações da Arábia Saudita caíram 10% do primeiro para o segundo trimestre. No Catar, a consultoria Oxford Economics estima que a economia encolha quase 30% neste ano, em razão dos danos ao complexo de gás de Ras Laffan. As bolsas do Catar e dos Emirados Árabes Unidos caíram cerca de 14% no período, enquanto o mercado global de ações avançava. O mercado imobiliário de Dubai também sofreu forte impacto: segundo estimativa do JPMorgan, as vendas de imóveis caíram entre 70% e 80%.
Como interpretar sem exagero
O quadro dos seis meses de guerra não é o de uma crise generalizada, mas também não é o de um conflito “sem custo”. Ele é desigual: o choque foi concentrado em energia, alimentos e nas economias do Golfo, enquanto o resto do mundo financeiro — puxado pelo apetite por ações de tecnologia e inteligência artificial — absorveu boa parte do impacto sem travar. Ao mesmo tempo, o comportamento atípico de dólar, ouro e títulos americanos é um lembrete de que “ativo de refúgio” não é garantia automática em qualquer crise — o resultado depende de qual outro fator (inflação, juros, expectativas) está pesando mais naquele momento. O desfecho dos próximos meses depende, em grande parte, de dois fatores concretos: se o Estreito de Ormuz volta a operar sem restrições e como a demanda de inverno no Hemisfério Norte vai testar a oferta de energia já pressionada.
Conclusão
Seis meses de guerra no Oriente Médio deixaram um retrato misto: petróleo e combustíveis pressionados, alimentos mais caros, economias do Golfo em contração acentuada — mas bolsas globais em recorde e ativos de refúgio se comportando fora do padrão histórico. Entender essas camadas separadamente, em vez de tratar o conflito como uma única “crise” com um único efeito, ajuda a interpretar com mais precisão o que realmente está em jogo para o investidor e para o consumidor brasileiro nos próximos meses.
FAQ
Quando começou a guerra no Oriente Médio de 2026?
O conflito começou em 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã.
Por que o Estreito de Ormuz é tão importante para o petróleo?
É uma das principais rotas marítimas comerciais do mundo, por onde passa uma fatia relevante do petróleo exportado globalmente. Restrições à navegação por ali afetam diretamente a oferta global de petróleo e combustíveis derivados.
O ouro subiu ou caiu por causa da guerra?
Os dois: caiu quase 25% entre o início da guerra (fevereiro) e julho, mas subiu mais de 15% só em agosto, em meio a preocupações renovadas com o dólar — um comportamento atípico para um ativo tradicionalmente visto como refúgio.
Por que as bolsas globais subiram apesar da guerra?
O forte volume de investimentos em empresas ligadas à inteligência artificial sustentou o índice mundial MSCI, que atingiu recorde de US$ 105 trilhões neste mês — compensando as perdas concentradas em energia e nos mercados do Golfo.
Quais países foram mais afetados economicamente pela guerra?
Os países produtores de petróleo e gás do Golfo. As exportações da Arábia Saudita caíram 10% entre o primeiro e o segundo trimestre, a economia do Catar deve encolher quase 30% neste ano segundo a Oxford Economics, e o mercado imobiliário de Dubai teve queda de 70% a 80% nas vendas de imóveis.
Leia também: Estreito de Ormuz: por que a fala de Trump importa para petróleo, dólar, Petrobras e bolsa e Petrobras bate recorde de valor de mercado em meio à guerra no Irã.
Fonte: G1 — Guerra no Oriente Médio completa seis meses com impacto no petróleo, alimentos e mercados.
