Em 25 de junho de 2026, a Polícia Federal expandiu sua investigação sobre o maior escândalo corporativo da história do Brasil: a fraude bilionária das Americanas. Nomes ligados ao grupo de controle da empresa — incluindo um dos mais famosos bilionários do país — voltaram ao centro das atenções. Para entender o peso dessa investigação, é preciso voltar quase cem anos no tempo, até 1929, quando três americanos decidiram abrir uma loja no Rio de Janeiro inspirados na mais simples das ideias: vender barato para o povo.
1929: três americanos e uma ideia simples
Em plena Grande Depressão mundial, quando o crash da Bolsa de Nova York havia devastado economias em todo o globo, três empresários americanos enxergaram uma oportunidade no Brasil. Adolpho Dott, Max Langlitz e Harold Ramberg trouxeram ao país o modelo das chamadas five and dime stores americanas — lojas como a famosa rede Woolworth’s, que vendiam produtos simples e baratos para o trabalhador comum. A ideia era clara: num momento de crise, as pessoas ainda precisam comprar. Bastava oferecer preço acessível.
Em 1929, os três sócios abriram a primeira unidade no Rio de Janeiro. O nome da empresa foi escolhido em homenagem à origem dos fundadores: Lojas Americanas. O modelo era simples — produtos de utilidade doméstica, papelaria, brinquedos, cosméticos e artigos do dia a dia, todos a preços que o trabalhador brasileiro podia pagar. A proposta ressoou imediatamente.
O timing, paradoxalmente, foi perfeito. Em períodos de recessão, o varejo de baixo custo tende a prosperar — as famílias que antes compravam em lojas de departamento mais sofisticadas migram para o varejista mais acessível. As Lojas Americanas cresceram no exato momento em que a maioria dos negócios encolhia.
O crescimento de um símbolo nacional
Ao longo das décadas seguintes, as Americanas se tornaram uma instituição genuinamente brasileira. Se você cresceu no Brasil nas décadas de 1950, 60, 70 ou 80, provavelmente tem uma memória afetiva daquela loja: o cheiro de produtos de plástico, as filas no caixa, os cadernos escolares empilhados em setembro, os brinquedos na vitrine no Natal.
A rede se expandiu por todo o país, chegando às capitais e às cidades do interior. As Americanas eram democráticas por definição: não eram para ricos, nem para pobres — eram para todos que precisassem de algo útil a um preço justo. Essa identidade de marca, construída ao longo de décadas, criou um ativo intangível poderoso: a confiança do consumidor brasileiro.
Nas décadas de 1970 e 1980, a empresa já era uma das maiores redes varejistas do país, com centenas de lojas espalhadas pelo Brasil. Foi nesse contexto de empresa consolidada, lucrativa e reconhecida que um novo grupo de acionistas entrou em cena — e mudaria para sempre o destino da rede.
O Grupo Garantia e a filosofia do “Sonho Grande”
No início dos anos 1980, o Banco Garantia — controlado pelos sócios Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira — adquiriu participação de controle nas Americanas. Os três já eram conhecidos no mundo financeiro pela filosofia que depois se tornaria o título de um best-seller: o “Sonho Grande”. A ideia era simples na teoria, brutal na prática: metas ambiciosas, cultura de meritocracia radical, corte implacável de custos e bônus agressivos para os melhores desempenhos.
Os três sócios já haviam aplicado esse modelo no Banco Garantia com sucesso. Nas Americanas, a lógica se repetiu: enxugamento de estrutura, redução de hierarquias, foco em eficiência operacional. A empresa saiu mais magra, mais lucrativa — e com uma cultura de gestão que priorizava resultados acima de tudo.
O mesmo trio, anos depois, usaria o mesmo método para fundir Brahma e Antarctica (criando a Ambev), para comprar a Anheuser-Busch (criando a AB InBev) e para adquirir o Burger King e a Kraft Heinz. Jorge Paulo Lemann se tornaria o homem mais rico do Brasil e um dos mais ricos do mundo. As Americanas eram parte desse portfólio — e carregavam a mesma cultura de pressão por resultados que marcou todas as empresas do grupo.

A aposta digital: Shoptime, Submarino e a criação da B2W
O fim dos anos 1990 trouxe a internet — e as Americanas decidiram apostar alto. Em 1999, a empresa lançou o Americanas.com, uma das primeiras grandes lojas virtuais do Brasil. O comércio eletrônico dava os primeiros passos por aqui, e a marca apostou que o varejo físico e o digital podiam coexistir sob o mesmo guarda-chuva.
Nos anos seguintes, a empresa fez aquisições estratégicas. Comprou o Shoptime, canal de vendas por TV, e o Submarino, site especializado em livros e eletrônicos que chegou a ser chamado de “o Amazon brasileiro”. Em 2006, as três operações digitais foram fundidas para criar a B2W Digital — listada na bolsa sob o ticker BTOW3 — que rapidamente se tornou a maior plataforma de e-commerce do Brasil.
Por mais de uma década, B2W e Americanas coexistiram como empresas separadas, com acionistas em comum mas operações distintas. Em 2021, as duas foram reunificadas, formando a Americanas S.A. sob o ticker AMER3. A lógica era criar uma empresa integrada, capaz de competir com Amazon e Shopee no Brasil.
No pico, a Americanas S.A. tinha mais de 3.700 lojas físicas, mais de 40 centros de distribuição, um marketplace com dezenas de milhares de sellers e uma das maiores bases de clientes do varejo brasileiro. Era uma empresa de mais de R$ 30 bilhões em valor de mercado.
A bomba de janeiro de 2023
Em 2 de janeiro de 2023, Sergio Rial — ex-CEO do Santander Brasil, um dos executivos mais respeitados do sistema financeiro nacional — assumiu o comando das Americanas. Dez dias depois, em 12 de janeiro, ele convocou uma reunião de emergência e anunciou ao mercado uma descoberta que ninguém esperava: a empresa tinha uma “inconsistência contábil” de R$ 20 bilhões em seus balanços.
O mercado travou. A ação AMER3 despencou 77% em um único pregão — uma das maiores quedas de um papel do Ibovespa em um único dia. R$ 10 bilhões em valor de mercado evaporaram em horas. Rial pediu demissão no mesmo dia, após apenas 10 dias como CEO.
Nos dias seguintes, o quadro foi ficando ainda mais sombrio. A inconsistência de R$ 20 bilhões foi revisada para R$ 43 bilhões. Em 19 de janeiro de 2023, as Americanas entraram com o pedido de recuperação judicial — o maior da história do Brasil, ultrapassando o da Oi Telecom. Credores incluíam os maiores bancos do país: Bradesco, Itaú, BTG, Santander, Caixa e outros.
O risco sacado: como esconder R$ 43 bilhões
Como era possível que uma empresa auditada, listada em bolsa, com décadas de história, escondesse R$ 43 bilhões em dívidas? A resposta está num instrumento financeiro chamado risco sacado.
O funcionamento é o seguinte: em vez de pagar um fornecedor diretamente, a empresa pede que um banco pague em seu lugar, antecipando o recurso ao fornecedor. A empresa, então, fica devendo ao banco — e não mais ao fornecedor. Até aí, é uma operação legítima e comum no mundo corporativo.
O problema das Americanas foi o registro contábil: a dívida com o banco deveria aparecer no balanço como dívida financeira. Em vez disso, os lançamentos mantinham o valor como “fornecedores” — passivo operacional, não financeiro. A diferença importa muito para analistas e investidores: uma empresa com R$ 43 bilhões em dívidas financeiras é muito mais arriscada do que uma com R$ 43 bilhões em contas a pagar a fornecedores. Ao ocultar essa classificação, a empresa apresentava uma situação financeira muito mais saudável do que a real.
Investigadores e auditores concluíram que esse manuseio contábil não foi um erro — foi sistemático, repetido ao longo de vários anos e deliberadamente estruturado para enganar o mercado. A questão que domina a investigação criminal até hoje é simples e ao mesmo tempo devastadora: quem sabia?
A recuperação judicial e o novo normal
A recuperação judicial das Americanas se tornou um processo complexo, com dezenas de credores, negociações que se estenderam por meses e decisões judiciais que moldaram o destino da empresa. O plano aprovado pelos credores previu uma reestruturação profunda: fechamento de lojas não lucrativas, renegociação de dívidas, injeção de capital e mudança na estrutura de controle.
A empresa sobreviveu como marca, mas com uma cicatriz permanente. Muitos fornecedores pequenos e médios que tinham créditos nas Americanas foram duramente prejudicados. Funcionários enfrentaram incerteza. E os investidores que tinham AMER3 em carteira viram seus investimentos praticamente ir a zero.
Para o mercado financeiro brasileiro, o caso Americanas foi um divisor de águas: revelou fragilidades nos processos de auditoria, nas análises de crédito dos bancos e na supervisão exercida pelos conselhos de administração de grandes empresas. Mudanças regulatórias e práticas de governança foram debatidas em razão do escândalo.
A investigação da Polícia Federal em 2026
Desde 2023, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigam responsabilidades criminais pelo escândalo. As investigações apontam para um esquema que teria envolvido não apenas a área contábil e financeira da empresa, mas possivelmente membros da alta direção com conhecimento das operações irregulares.
Em junho de 2026, a investigação chegou a um novo patamar. Nomes ligados ao grupo de controle histórico das Americanas — incluindo Carlos Alberto Sicupira, um dos três bilionários que controlaram a empresa por quatro décadas, e outras pessoas próximas ao círculo de grandes acionistas — passaram a figurar no escopo das diligências da PF.
As investigações buscam determinar se o conhecimento do esquema de risco sacado se estendia além dos executivos operacionais e chegava até os acionistas controladores e membros do conselho. Provar isso exige documentação densa, análise de e-mails, atas de reuniões e depoimentos — um trabalho que, por sua complexidade, se estende por anos.
Qualquer condenação, se vier, terá peso simbólico enorme: representaria a primeira vez que bilionários do alto empresariado brasileiro enfrentariam consequências criminais por um escândalo corporativo de proporções históricas.
O que resta das Americanas
Em 2026, as Lojas Americanas ainda existem. Há lojas abertas em shoppings e ruas comerciais por todo o Brasil. O site ainda funciona. Mas a empresa que ressurgiu da recuperação judicial é profundamente diferente da que entrou em colapso em janeiro de 2023.
A marca — construída em 97 anos de história, de 1929 até hoje — resiste. O consumidor brasileiro ainda reconhece a fachada vermelha. Mas a AMER3 já não é o que era: o ticker que um dia representou uma das maiores empresas de varejo da América Latina hoje carrega o peso de um dos maiores fracassos corporativos do país.
A história das Americanas é, em última análise, a história de uma contradição: uma empresa fundada na simplicidade — vender barato, servir o povo — que foi destruída pela complexidade de um esquema financeiro sofisticado que enriqueceu poucos e prejudicou muitos. De 1929 a 2026, de três americanos no Rio de Janeiro à Polícia Federal batendo à porta dos maiores bilionários do país.
Perguntas frequentes sobre as Americanas
O que foi o escândalo contábil das Americanas em 2023?
Em janeiro de 2023, o CEO Sergio Rial anunciou, após apenas 10 dias no cargo, uma “inconsistência contábil” de R$ 20 bilhões nas contas da empresa — valor revisado para R$ 43 bilhões. A fraude envolvia o ocultamento de dívidas bancárias classificadas como contas a pagar a fornecedores, mecanismo conhecido como “risco sacado”. Foi o maior escândalo corporativo da história do Brasil.
O que é risco sacado e como foi usado na fraude das Americanas?
Risco sacado é uma operação em que um banco antecipa o pagamento a fornecedores no lugar de uma empresa. O problema nas Americanas foi que a empresa registrava essa dívida bancária como “fornecedores” (passivo operacional), e não como “dívida financeira” — ocultando bilhões em alavancagem dos balanços e enganando investidores e analistas por anos.
Quem controlava as Americanas antes da fraude?
Desde o início dos anos 1980, os maiores acionistas das Americanas eram Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira — os três sócios do antigo Banco Garantia e fundadores da 3G Capital. O trio também controla a Ambev e a AB InBev. Juntos, eram responsáveis pela filosofia de gestão da empresa.
As Americanas ainda existem em 2026?
Sim. Após a recuperação judicial aprovada em 2023, as Americanas continuam operando com lojas físicas em diversas cidades e o e-commerce ativo. A estrutura acionária mudou significativamente, com credores assumindo participação na empresa. A ação AMER3, porém, sofreu perdas catastróficas.
O que a Polícia Federal está investigando nas Americanas em 2026?
A PF e o MPF investigam se ex-executivos e membros do conselho das Americanas tinham conhecimento da fraude contábil ou participaram dela. Em junho de 2026, a investigação avançou sobre grandes acionistas e figuras próximas ao grupo de controle, apurando responsabilidades pelo prejuízo de dezenas de bilhões de reais causado a investidores, bancos e fornecedores.
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