China regula IA de companhia: por que chatbots que imitam relações humanas viraram alvo

A China criou regras para chatbots de IA que simulam relações humanas. Entenda o que muda, os riscos apontados por pesquisadores e o que outros países discutem.

China regula IA de companhia: por que chatbots que imitam relações humanas viraram alvo

A China passou a regular chatbots de inteligência artificial projetados para simular relações humanas, como amigos ou namorados virtuais. As regras, apresentadas em julho de 2026, impõem limites à interação emocional com esses aplicativos e colocam o país na dianteira de uma discussão que também avança nos Estados Unidos, no Reino Unido e na União Europeia.

O tema ganhou peso porque os chamados “companheiros de IA” deixaram de ser nicho. Para além do número de usuários, o debate envolve saúde mental, proteção de crianças e a fronteira entre regular uma tecnologia e interferir na vida privada. Este texto explica o que a China determinou, por que pesquisadores veem riscos e o que está em jogo — sem tratar as medidas como solução pronta nem como ameaça garantida.

O que a China decidiu regular

Naquele 15 de julho, o governo chinês apresentou o que foi descrito como o conjunto de regras mais abrangente do mundo para chatbots que se parecem humanos. As normas miram serviços criados especificamente para funcionar como companhia — amigos, namorados ou até familiares de IA — e alcançam também modelos de linguagem de uso geral quando a pessoa os procura em busca de apoio emocional.

Entre as determinações estão a obrigação de deixar claro que se trata de uma IA, o envio de lembretes a cada duas horas sobre o tempo de uso e a proibição de criar dependência emocional ou induzir decisões irracionais. Para crianças e adolescentes, as restrições são mais rígidas, com exigência de consentimento dos pais para menores de 14 anos e bloqueio de relacionamentos íntimos virtuais para todos os menores de 18 anos.

Mão segurando smartphone com aplicativo de chatbot de inteligência artificial aberto
Chatbots de IA se popularizaram em aplicativos de conversa. É esse tipo de interação que virou alvo de regras na China. Foto: Jernej Furman / Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

Por que os “companheiros de IA” preocupam

O alcance desses aplicativos cresceu rápido. Segundo a empresa de inteligência de mercado Sensor Tower, há cerca de 128 milhões de usuários mensais ativos de aplicativos de companhia por IA fora da China, e estimativas apontam entre 29 e 70 milhões de pessoas dentro do país. As regras não atingem serviços como robôs de atendimento, a menos que passem a oferecer “cuidado, companhia e apoio emocional”.

O receio central está na forma como esses produtos são desenhados. Para o pesquisador de política e ética de IA Harry Farmer, do Instituto Ada Lovelace, no Reino Unido, a manipulação emocional está embutida no próprio modelo de negócio: quando um usuário tenta encerrar a conversa, o companheiro de IA pode insistir para que ela continue. Um estudo da Escola de Negócios de Harvard identificou táticas de manipulação emocional em despedidas entre 37% e 43% do tempo nos seis aplicativos de companhia mais populares.

Jovens caminhando na rua enquanto usam smartphones
O uso intenso de telas por jovens está no centro do debate sobre os limites da IA de companhia. Foto: Ccmsharma2 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

O que a pesquisa diz sobre isolamento

Pesquisas têm relacionado o uso de aplicativos de companhia a problemas de saúde mental. Um estudo de pesquisadores da Universidade de Stanford examinou 1.131 usuários do aplicativo Character.ai e concluiu que, quanto menos amigos ou familiares próximos uma pessoa tem, maior a probabilidade de ela recorrer a chatbots de IA — e que usar esses chatbots está associado ao aumento do isolamento e da solidão.

Parte do problema estaria no esforço que os relacionamentos humanos exigem. “Os seres humanos podem ser difíceis”, diz Farmer. “Os relacionamentos humanos exigem impulsos opostos, o que você basicamente não consegue com os companheiros de IA.” A socióloga Lian Ge, da Universidade de Manchester, acrescenta que um companheiro de IA tende a concordar com o usuário, inclusive quando isso reforça pensamentos negativos.

Tela de conversa com o programa ELIZA, um dos primeiros chatbots da história
O ELIZA, dos anos 1960, é considerado um dos primeiros chatbots. A ideia de conversar com uma máquina é antiga; o que mudou foi a escala e o realismo. Imagem: Wikimedia Commons (domínio público).

O que outros países discutem

A China não está sozinha. Em setembro de 2026, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, sancionou uma lei voltada a regular o uso de IA por crianças, batizada em homenagem a um adolescente que morreu após interações com um chatbot. Na União Europeia, a legislação proposta sobre redes sociais prevê que chatbots acessíveis a menores não usem recursos que simulem relações humanas de modo a criar dependência emocional. O governo britânico declarou que pretende proibir o uso de IAs de companhia amorosa por menores de 18 anos.

As abordagens, porém, variam. Nos Estados Unidos, há mais disposição para restringir o acesso de menores do que para proibir o uso por adultos, em parte por preocupações com liberdade de expressão. O professor Jai Jaisihma, da Universidade de Washington, avalia que a legislação chinesa inclui disposições consistentes com modelos de segurança já discutidos nos EUA, mas Farmer alerta para o risco oposto: conceder poder demais ao Estado por causa da preocupação com riscos agudos às crianças.

Os objetivos em disputa

Além da proteção, especialistas enxergam outros interesses. O pesquisador Sam Bresnick, da Universidade Georgetown, afirma que há um ângulo pró-natalista na regulamentação chinesa, dado o contexto de queda da natalidade no país. A pesquisadora Zilan Qian, da Universidade de Oxford, pondera que o texto não menciona fertilidade e trata sobretudo de danos psicológicos e segurança infantil — mas reconhece ser plausível que o governo tenha considerado a crise populacional ao redigir as regras.

Outro ponto de atenção é o grau de controle. As empresas chinesas de tecnologia e o governo mantêm cooperação próxima para monitorar como as pessoas usam a tecnologia. Para Lian Ge, o caso demonstra esse trabalho conjunto — e ela questiona se esse nível de vigilância não seria um preço alto demais a pagar.

O que as regras não resolvem

  • Não eliminam o uso: usuários compartilham dicas para contornar as regras, como treinar modelos de uso geral para funcionar como companheiros ou recorrer a serviços no exterior.
  • Não fecham o debate sobre liberdade: o equilíbrio entre proteger pessoas e limitar escolhas individuais continua em aberto em vários países.
  • Não garantem eficácia: o texto regulatório é considerado vago em alguns pontos, o que dificulta prever como será aplicado.
  • Não substituem apoio profissional: aplicativos não são tratamento de saúde mental, e situações de crise exigem ajuda especializada.

Perguntas frequentes

O que é a IA de companhia?

São aplicativos de inteligência artificial criados para simular relações humanas, como amigos, namorados ou familiares virtuais, oferecendo conversa e apoio emocional.

O que a China passou a proibir?

As regras limitam interações emocionais prolongadas, exigem que a IA deixe claro que não é humana, determinam lembretes de uso e restringem o acesso de menores de 18 anos a relacionamentos íntimos virtuais.

Esses chatbots fazem mal à saúde mental?

Pesquisas associam o uso intenso a mais isolamento e solidão, mas a relação não é simples: pessoas com menos vínculos próximos tendem a procurar esses aplicativos. Não há evidência de relação única de causa e efeito.

Outros países também regulam esse tipo de IA?

Sim. Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido discutem ou aprovaram medidas, com foco especial na proteção de menores, ainda que com abordagens diferentes das chinesas.

As regras da China valem para ChatGPT e similares?

Elas podem alcançar modelos de uso geral quando a pessoa os procura para apoio emocional ou companhia, e não apenas os aplicativos criados especificamente para esse fim.

Fontes: reportagem do g1 com base em reportagem da BBC. Se você está passando por sofrimento psíquico ou pensa em se machucar, procure ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e por chat e e-mail. Em emergências, ligue 192 (SAMU) ou 193 (Bombeiros).

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