O Comitê Gestor do Fundo do Plano Rio Grande (FUNRIGS) autorizou, na terça-feira (23/06), o financiamento de R$ 191,8 milhões para pagar proprietários de imóveis localizados em áreas de alto risco de arraste no Vale do Taquari — zonas que foram destruídas ou gravemente comprometidas pelas enchentes de 2023 e 2024. A medida é parte da Fase 1 do Plano de Requalificação Urbanística (PIR), publicado no Diário Oficial do Estado desta edição.
A notícia levanta uma pergunta que afeta milhões de brasileiros que vivem às margens de rios, em baixadas ou em encostas: o que acontece com quem mora em área de risco de inundação?
O que são as AEIRs e quem está dentro delas
As Áreas de Especial Interesse para Requalificação Urbanística (AEIRs) são zonas mapeadas pelo governo a partir de estudos técnicos do Serviço Geológico do Brasil (CPRM). No Vale do Taquari, essas áreas correspondem a imóveis localizados nas margens ou nas chamadas “zonas de arraste” do Rio Taquari — regiões onde o fluxo da enxurrada destrói tudo em seu caminho.
Os municípios incluídos no PIR são: Estrela, Muçum, Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Roca Sales, Encantado, Colinas, Lajeado e Venâncio Aires. Todos foram fortemente atingidos pelas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul nos últimos dois anos.
Como funciona o programa de compensação do RS
A lógica do PIR é simples: em vez de reconstruir em um local que vai inundar novamente, o Estado paga para as famílias saírem definitivamente. A compensação funciona assim:
- Desocupação permanente: o proprietário recebe uma compensação financeira e cede o imóvel ao Estado
- Limpeza e monitoramento: a área desocupada é limpa e fiscalizada para evitar reocupação
- Requalificação: o terreno é transformado em área verde, parque ou corredor ecológico — uso que convive com a inundação sem causar danos
Os R$ 191,8 milhões autorizado pelo FUNRIGS cobrem apenas a Fase 1 — as compensações financeiras. As fases seguintes de limpeza e requalificação urbanística têm orçamentos separados. Os recursos vêm do Plano Rio Grande, o programa de reconstrução pós-enchentes financiado com recursos federais e estaduais.
Como saber se seu imóvel está em área de risco
Não é preciso esperar uma tragédia para descobrir. Existem ferramentas públicas gratuitas:
- CPRM — Serviço Geológico do Brasil: disponibiliza mapas de suscetibilidade a deslizamentos, inundações e enxurradas por município. É a base técnica usada pela Defesa Civil
- Defesa Civil Municipal: cada prefeitura tem um setor que pode informar se o endereço está em zona de risco mapeada. Em muitas cidades do RS, esse mapeamento foi atualizado após as enchentes de 2024
- Plano Diretor: o zoneamento do município define quais áreas são consideradas de proteção ambiental ou risco — e restringe usos habitacionais
- Sistema Alerta RS: o portal da Defesa Civil do RS mantém informações sobre municípios em alerta e áreas monitoradas
O que acontece com o valor do imóvel em área de risco
Ser classificado em área de risco tem consequências práticas e financeiras severas para o proprietário:
- Desvalorização: imóveis mapeados como risco alto ou muito alto perdem valor de mercado de forma significativa — e muitas vezes deixam de ter compradores no mercado formal
- Seguro negado: seguradoras costumam negar cobertura contra enchentes ou cobrar prêmios muito elevados para imóveis em áreas de risco mapeadas
- Financiamento impossível: bancos, especialmente a Caixa Econômica Federal, restringem ou negam crédito habitacional (FGTS, MCMV) para imóveis em zonas de risco
- Uso ilegal: nas AEIRs mais críticas, a habitação permanente pode ser proibida por lei municipal, tornando o imóvel legalmente inabitável — mesmo que estruturalmente de pé
O que o investidor imobiliário precisa saber
O evento do Vale do Taquari reforça um alerta crescente para quem investe em imóveis físicos ou em Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) de tijolo: o risco climático é um risco financeiro.
Carteiras imobiliárias no Sul do Brasil precisam considerar a exposição a bacias hidrográficas vulneráveis. Imóveis próximos a rios, em planícies aluviais ou em encostas sem contenção adequada estão sujeitos a:
- Perda parcial ou total em eventos extremos
- Restrições de uso futuras à medida que o mapeamento de risco é atualizado
- Dificuldade de venda ou refinanciamento
- Aumento no custo de seguro patrimonial
A tendência global é de que mapeamentos de risco climático sejam cada vez mais usados por bancos e fundos para precificação de ativos imobiliários — o que foi chamado de “repricing climático” nos mercados mais avançados.
Perguntas frequentes sobre imóvel em área de risco
O que é uma área de risco de inundação?
É uma zona mapeada oficialmente pelo Serviço Geológico do Brasil ou pela Defesa Civil onde há risco confirmado de alagamento, enxurrada ou deslizamento. Quando o risco é alto ou muito alto, o imóvel pode ser objeto de restrição de uso ou desapropriação — como ocorre nas AEIRs do Vale do Taquari.
Como saber se meu imóvel está em área de risco?
Consulte o mapa de riscos no site do CPRM (cprm.gov.br), a Defesa Civil do seu município, ou o Plano Diretor da prefeitura. Em cidades do RS afetadas pelas enchentes de 2024, o mapeamento foi revisado e publicado pela Defesa Civil estadual.
O Estado é obrigado a me indenizar se moro em área de risco?
Não automaticamente. O programa PIR do RS é voluntário: o Estado oferece compensação e o proprietário decide se aceita. Fora de programas específicos, a indenização exige desapropriação formal ou decisão judicial. Morar em área de risco mapeada não garante direito automático a ressarcimento.
O que acontece com o valor do meu imóvel se ele for classificado como área de risco?
Tende a cair de forma expressiva. Seguradoras podem negar cobertura, bancos restringem financiamentos e o mercado informal passa a ser a única saída para venda — o que reduz ainda mais o preço. Em casos extremos, a habitação permanente pode ser proibida por lei.
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