Ozempic e Mounjaro: a bolsa tem vencedores e perdedores

A corrida pelos remédios para emagrecer como Ozempic e Mounjaro cria valorizações de +500% e quedas de até 99% na bolsa. Entenda os riscos de investir em biotech.

Ozempic e Mounjaro: a bolsa tem vencedores e perdedores

A corrida pelos remédios para emagrecer da classe GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, criou uma das divisões mais extremas entre vencedores e perdedores que o mercado de biotecnologia já viu. Enquanto gigantes farmacêuticas e algumas biotechs menores acumulam valorizações expressivas, empresas que apostaram na tese errada perderam quase todo o valor de mercado em poucos anos — às vezes em um único pregão.

Para o investidor brasileiro com acesso a ações internacionais, o setor é tentador pelo tamanho do mercado potencial, mas também é um estudo de caso sobre o risco concentrado de apostar em biotecnologia em fase de testes clínicos.

Os vencedores da corrida do emagrecimento

Novo Nordisk, desenvolvedora do Ozempic e do Wegovy, e Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, são as gigantes que abriram o mercado de medicamentos para obesidade baseados em GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon, hormônio que regula apetite e saciedade). A Eli Lilly reforçou sua posição no setor com a aquisição da AtaiBeckley por US$ 2,8 bilhões em dinheiro, acordo que pode chegar a mais US$ 1 bilhão condicionado ao cumprimento de metas futuras de desenvolvimento.

Entre as biotechs menores, a Viking Therapeutics (VKTX) se destaca como uma das histórias de maior sucesso: a ação acumula valorização superior a 500% nos últimos cinco anos, impulsionada pelo desenvolvimento do VK2735, um agonista duplo GLP-1/GIP atualmente em fase 3 de testes clínicos — a etapa final antes de um possível pedido de aprovação regulatória.

Os perdedores: quando a tese não confirma

Do outro lado, a Skye Bioscience (SKYE) ilustra o risco do setor: a empresa perdeu cerca de 99% do seu valor de mercado em cinco anos. O golpe mais recente veio quando seu candidato a medicamento, o nimacimab, não atingiu o objetivo principal do estudo clínico quando testado isoladamente — resultado que derrubou as ações da empresa em 60% em um único pregão.

Comparativo entre empresas vencedoras e perdedoras na corrida dos remédios para emagrecer GLP-1: Viking Therapeutics com alta de 500% e Skye Bioscience com queda de 99%
O contraste entre Viking Therapeutics e Skye Bioscience ilustra a volatilidade do setor de biotecnologia. Arte: Dicionário News, com dados da Exame Invest.

Por que biotecnologia é um setor de risco tão concentrado

Os números por trás desses casos ajudam a explicar por que o setor é tão volátil. Levantamento da BIO (Biotechnology Innovation Organization) cobrindo o período de 2011 a 2020 mostra que, em média, apenas 8 de cada 100 medicamentos que entram em testes clínicos chegam efetivamente ao mercado. A fase mais crítica é a Fase II, o maior ponto de eliminação de candidatos: de 52 medicamentos que chegam a essa fase, apenas 15 avançam para a Fase III.

Isso significa que investir em uma biotech antes da aprovação final do medicamento é, na prática, apostar no resultado de um teste clínico específico. Quando o resultado é positivo, como no caso da Viking Therapeutics, o retorno pode ser expressivo. Quando é negativo, como no caso da Skye Bioscience, a perda pode ser quase total — e rápida.

A onda de consolidação no setor

O tamanho do mercado potencial de medicamentos para obesidade também está impulsionando fusões e aquisições. Segundo o estrategista Jared Holz, do banco Mizuho, o setor de biotecnologia deve registrar mais de 30 transações acima de US$ 1 bilhão nos próximos períodos — grandes farmacêuticas buscando comprar biotechs menores com candidatos promissores em vez de desenvolver tudo internamente, como fez a Eli Lilly com a AtaiBeckley.

Como o investidor brasileiro pode ter exposição a esse mercado

Ações de empresas como Eli Lilly e Novo Nordisk não são negociadas diretamente na B3, mas o investidor brasileiro pode acessar esse tipo de tese de investimento por meio de BDRs (quando disponíveis para a empresa específica), ETFs internacionais focados no setor de saúde ou biotecnologia, ou por corretoras com acesso direto a bolsas americanas. Cada um desses caminhos tem custos, tributação e níveis de diversificação diferentes, e vale pesquisar com atenção antes de escolher.

Leitura prática para quem considera investir no setor

  • biotechs em fase de testes clínicos (antes da aprovação final do medicamento) são investimentos de altíssimo risco, mesmo quando a tese parece promissora;
  • diversificação importa mais nesse setor do que na maioria: apostar em uma única biotech pré-aprovação é mais parecido com uma opção binária do que com um investimento tradicional;
  • ETFs setoriais de biotecnologia ou saúde reduzem a exposição a um resultado clínico único, ao custo de diluir o retorno se uma aposta específica der certo;
  • gigantes farmacêuticas já estabelecidas, como Eli Lilly e Novo Nordisk, têm perfil de risco bem diferente das biotechs menores, mesmo estando no mesmo setor;
  • acompanhe as fases de teste clínico de qualquer biotech antes de investir — a Fase II é historicamente o momento de maior risco de notícia negativa.

Conclusão

A corrida pelos remédios para emagrecer expôs, em poucos anos, o melhor e o pior do investimento em biotecnologia: valorizações de mais de 500% ao lado de quebras de quase 100% do valor de mercado, às vezes definidas por um único resultado de teste clínico. É um mercado real e enorme — mas também um lembrete de que, em biotecnologia early-stage, a linha entre vencedor e perdedor pode ser um único anúncio de resultado clínico.

Para quem se interessa pelo setor sem querer apostar tudo em uma única tese, a lição prática é clara: entender em que fase de teste está o medicamento, diversificar entre várias apostas ou ETFs setoriais, e nunca tratar uma biotech pré-aprovação como um investimento de risco moderado.

FAQ

O que são medicamentos GLP-1?

São medicamentos baseados no hormônio GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon), que regula apetite e saciedade. Ozempic, Wegovy (Novo Nordisk) e Mounjaro (Eli Lilly) são os exemplos mais conhecidos, originalmente desenvolvidos para diabetes e hoje amplamente usados para emagrecimento.

Por que a Viking Therapeutics valorizou tanto?

A ação (VKTX) acumula alta superior a 500% em cinco anos, impulsionada pelo avanço do candidato VK2735, um agonista duplo GLP-1/GIP, para a fase 3 de testes clínicos — a etapa final antes de um possível pedido de aprovação.

Por que a Skye Bioscience perdeu quase todo o valor?

A empresa (SKYE) perdeu cerca de 99% do valor de mercado em cinco anos, com o golpe mais recente vindo do candidato nimacimab, que não atingiu o objetivo principal do estudo clínico quando testado isoladamente, derrubando as ações em 60% num único pregão.

Quantos medicamentos em teste clínico chegam ao mercado?

Segundo levantamento da BIO (2011-2020), apenas 8 de cada 100 medicamentos que entram em testes clínicos chegam ao mercado. A Fase II é o maior ponto de eliminação de candidatos.

Como investir em empresas como Eli Lilly ou Novo Nordisk a partir do Brasil?

Por meio de BDRs (quando disponíveis para a empresa), ETFs internacionais do setor de saúde/biotecnologia, ou corretoras com acesso a bolsas americanas. Cada opção tem custo, tributação e nível de diversificação diferentes.

Fonte: Exame Invest.

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