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SK Hynix supera Samsung: a empresa que alimenta a IA

Em junho de 2026, algo que parecia impossível aconteceu no mercado sul-coreano de tecnologia: a SK Hynix superou a Samsung em valor de mercado pela primeira vez em 25 anos. Suas ações acumularam alta de 340% no ano — e a razão é uma aposta feita silenciosamente uma década antes, quando poucos prestavam atenção em um tipo obscuro de memória chamado HBM.

Essa é a história de como uma empresa que quase faliu nos anos 2000 se tornou a peça mais crítica da infraestrutura de inteligência artificial do mundo.

De subsidiária da Hyundai à beira do colapso

A SK Hynix nasceu em 1983 como Hyundai Electronics, divisão de semicondutores do conglomerado Hyundai. A Coreia do Sul apostava pesado na indústria de chips como motor de desenvolvimento econômico — a mesma estratégia que havia transformado a Samsung em potência global.

Por anos, a Hyundai Electronics cresceu agressivamente, expandindo capacidade de produção e adquirindo concorrentes. Mas o excesso de investimento cobrou seu preço: no início dos anos 2000, com o setor de memória em crise global de preços, a empresa afundou em dívidas. Em 2002, estava tão fragilizada que chegou a negociar uma venda para a Micron, gigante americana de semicondutores.

A venda não aconteceu. A empresa — que havia passado por uma fusão com a LG Semicon em 1999 e se tornado simplesmente “Hynix” — entrou em regime de credores, com ações a preços de liquidação e incerteza sobre o próprio futuro.

A virada veio em 2012, quando o grupo SK — um dos maiores conglomerados da Coreia do Sul, com negócios em energia, telecomunicações e química — adquiriu o controle e rebatizou a empresa como SK Hynix. Foi o começo de uma nova fase.

A aposta que ninguém via: o nascimento do HBM

Com a estabilidade financeira restaurada, a SK Hynix passou a investir pesadamente em pesquisa e desenvolvimento. Em particular, em uma tecnologia que, na época, interessava a um público muito restrito: a memória HBM, ou High Bandwidth Memory.

A memória convencional — DRAM, usada em computadores e smartphones — funciona bem para a maioria das aplicações. Mas ela tem um gargalo: a quantidade de dados que consegue transferir por segundo é limitada pela arquitetura física dos chips.

O HBM resolve esse problema de forma radical. Em vez de chips planos, lado a lado, o HBM empilha as camadas de memória verticalmente, conectadas por canais minúsculos chamados TSV (Through-Silicon Vias). O resultado é uma densidade de transferência de dados muito superior à da memória convencional — com consumo de energia significativamente menor.

Quando o HBM foi lançado comercialmente pela SK Hynix em 2013, em parceria com a AMD, o mercado era pequeno: placas de vídeo de alto desempenho e alguns sistemas de computação científica. Não havia grande urgência.

Isso mudou completamente em 2022 e 2023, quando o ChatGPT colocou a inteligência artificial no centro da economia global.

A Nvidia e o mercado que ninguém esperava

Os processadores de IA da Nvidia — as GPUs da linha H100, H200 e B200 — precisam mover quantidades absurdas de dados por segundo para treinar e executar modelos de linguagem. Uma GPU H100, por exemplo, usa seis módulos HBM3 conectados diretamente ao chip, entregando largura de banda de 3,35 terabytes por segundo.

Sem HBM, não há GPU de IA. E sem GPU de IA, não há infraestrutura para o ChatGPT, o Gemini, o Copilot ou qualquer outro modelo de grande escala.

A demanda explodiu. E a Nvidia precisava de um fornecedor confiável, com capacidade de produção em escala industrial e tecnologia de ponta.

A SK Hynix estava pronta. Anos de investimento em HBM a colocaram em posição privilegiada: ela já tinha a tecnologia, o processo produtivo e a escala. Tornou-se o fornecedor principal da Nvidia e, rapidamente, passou a dominar o mercado global de HBM com 61% de participação.

O tropeço da Samsung

A Samsung não ficou de fora da corrida. Com recursos vastamente superiores e décadas de liderança no mercado de memória, parecia natural que a gigante coreana dominaria também o HBM.

Não foi o que aconteceu.

Em 2024, a Samsung desenvolveu chips HBM3e — a versão mais avançada da geração anterior — e os enviou para homologação na Nvidia. Os chips falharam nos testes de qualidade. A Nvidia rejeitou o fornecimento.

Os problemas eram técnicos: os chips da Samsung apresentavam aquecimento excessivo e consumo de energia acima das especificações exigidas para os servidores de IA. O retrabalho para correção levou meses, e a Samsung perdeu uma janela de mercado que a SK Hynix preencheu sozinha.

Enquanto a Samsung acumulava prejuízos e atrasos no segmento mais quente do setor, a SK Hynix já avançava para a próxima geração: o HBM4, cujas amostras foram enviadas à Nvidia ainda no primeiro semestre de 2026.

Os números que explicam tudo

A consequência financeira foi imediata e brutal. As ações da SK Hynix acumularam alta superior a 340% em 2026. O valor de mercado da empresa ultrapassou o da Samsung Electronics — encerrando um período de 25 anos em que a Samsung era, sem discussão, a empresa mais valiosa da Coreia do Sul.

A distribuição atual do mercado de HBM conta a história com clareza:

  • SK Hynix: 61% de participação global
  • Micron: 21% (empresa americana, segundo fornecedor da Nvidia)
  • Samsung: 17% (em recuperação após as rejeições de 2024)

Além da memória, a SK Hynix mantém produção em DRAM convencional, memória NAND Flash para armazenamento e sensores de imagem para câmeras de smartphones e veículos. Mas é o HBM que transformou sua tese de valor.

O que vem pela frente

A corrida não terminou. A Samsung está investindo intensamente para corrigir os problemas técnicos e conquistar aprovação da Nvidia para o HBM4. A Micron vem crescendo sua fatia e é vista como alternativa estratégica para diversificação de fornecedores.

A SK Hynix, por sua vez, enfrenta o risco de ser excessivamente dependente de um único cliente e de um único produto. Se a demanda por GPUs de IA desacelerar — por recessão global, mudança de arquitetura ou regulação — o impacto nas suas receitas seria imediato.

Mas por ora, a lógica é outra: a demanda por infraestrutura de IA segue crescendo, a Nvidia continua expandindo sua linha de produtos, e o HBM é a única tecnologia de memória capaz de atender essa escala. A SK Hynix está no centro exato desse ecossistema — e o impacto já chega até o consumidor final: a Apple vem sinalizando reajustes no preço do iPhone justamente pelo custo crescente desses chips de memória.

Para o investidor brasileiro

A SK Hynix não é negociada diretamente na B3. Para exposição, o caminho é via conta em corretora internacional ou por ETFs de tecnologia asiática. O ticker na bolsa de Seul é 000660.KS.

Mas mesmo quem não investe diretamente no exterior pode usar essa história como lente de análise. O domínio da SK Hynix no HBM reforça a tese de investimento na Nvidia — que integra as 7 Magníficas que movem o mercado global e concentra a maior fatia do mercado de GPUs de IA e depende diretamente da qualidade e disponibilidade desse tipo de memória. Também explica por que a Samsung, apesar de sua escala, enfrenta uma crise de credibilidade em um dos segmentos de maior crescimento da última década.

A lição mais ampla: em tecnologia, a liderança não é garantida pela escala. É garantida por quem apostou na tecnologia certa, no momento certo — e soube executar.

Perguntas frequentes sobre a SK Hynix

O que é a SK Hynix?

A SK Hynix é uma fabricante sul-coreana de semicondutores fundada em 1983 como subsidiária da Hyundai. Hoje é o segundo maior produtor mundial de chips de memória DRAM e NAND Flash, e líder absoluta no mercado de HBM (High Bandwidth Memory), o tipo de memória usado nos processadores de inteligência artificial da Nvidia, Google e outros gigantes do setor.

O que é HBM e por que é importante para inteligência artificial?

HBM (High Bandwidth Memory) é um tipo de memória empilhada verticalmente em camadas, que entrega muito mais velocidade de processamento com menor consumo de energia do que memórias convencionais. Processadores de IA como o H100 e H200 da Nvidia precisam mover quantidades enormes de dados por segundo — e o HBM é a única tecnologia capaz de suprir essa demanda. Sem HBM, modelos como o ChatGPT ou o Gemini simplesmente não funcionariam na velocidade que funcionam.

Por que a SK Hynix superou a Samsung em valor de mercado?

A SK Hynix detém 61% do mercado global de HBM, contra 17% da Samsung e 21% da Micron. A Samsung tentou competir no segmento, mas seus chips HBM3e falharam nos testes de qualidade da Nvidia e foram barrados do mercado em 2024. Com isso, a SK Hynix se tornou o fornecedor preferencial para toda a cadeia de IA — e suas ações subiram mais de 340% em 2026, superando o valor de mercado da Samsung pela primeira vez em 25 anos.

A Samsung pode recuperar o mercado de HBM?

É uma das questões mais acompanhadas no setor de tecnologia. A Samsung está investindo pesadamente para corrigir os problemas de qualidade do HBM3e e entrar no mercado de HBM4. Mas a SK Hynix já enviou amostras de HBM4 para a Nvidia, o que indica que mantém a liderança na geração seguinte. A corrida é contínua, mas a Samsung acumulou uma desvantagem de pelo menos um ciclo tecnológico.

Como isso afeta investidores brasileiros?

Diretamente, a SK Hynix não é negociada na B3 — é preciso acessar via BDR ou conta internacional (ticker: 000660.KS na Bolsa de Seul). Mas o domínio da SK Hynix no mercado de HBM impacta toda a cadeia de IA: reforça a tese de investimento na Nvidia (principal cliente), pressiona a Samsung (concorrente), e sinaliza que a infraestrutura de IA depende cada vez mais de memória especializada — não apenas de chips gráficos.


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