A história da StoneCo: o aporte raro de Warren Buffett e a crise que derrubou a ação 93%
A história completa da StoneCo: da fundação em 2012 ao investimento raro de Warren Buffett no IPO, passando pela crise da "trava bancária" que derrubou a ação 93% até a recuperação recente.

A StoneCo é uma das poucas empresas do mundo em que Warren Buffett — que quase nunca participa de IPOs — decidiu entrar logo na estreia em bolsa. Nascida em 2012 como uma startup de maquininhas de cartão, a Stone se tornou queridinha do mercado após o IPO na Nasdaq em 2018, viu sua ação subir para perto de US$ 100 no início de 2021 — e, poucos meses depois, assistiu ao papel desabar mais de 90% em pouco mais de um ano, derrubada por uma crise regulatória que paralisou parte do seu negócio de crédito. Esta é a história completa da fintech que passou pelo raro selo de aprovação de Buffett, por uma quase quebra reputacional e por uma recuperação ainda em curso.
2012: dois cariocas contra a assimetria dos grandes bancos
A Stone nasceu em 2012, fundada pelos cariocas André Street e Eduardo Pontes — dupla que já não era estreante no setor: em 2009, os dois haviam vendido a Braspag, outra empresa de meios de pagamento que fundaram juntos, para o Grupo Silvio Santos por R$ 25 milhões. Inconformados com a assimetria de forças entre os grandes bancos e os pequenos varejistas brasileiros, decidiram criar uma nova empresa de tecnologia, adquirência e maquininhas de cartão, com a proposta de dar ao pequeno empreendedor uma experiência melhor do que a oferecida pelos bancos tradicionais.
O crescimento foi rápido: em menos de cinco anos, a Stone já atendia mais de 200 mil clientes, com expansão anual de cerca de 90%.
2018: o IPO que atraiu Warren Buffett
Em 25 de outubro de 2018, a Stone estreou na Nasdaq, levantando US$ 1,22 bilhão na venda de 50,7 milhões de ações — mais de R$ 1 bilhão à época, por menos de 20% do capital da empresa. O que chamou atenção do mercado, porém, não foi só o tamanho da oferta: entre os investidores da oferta estava a Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, que assumiu uma participação de 11,3% na companhia — algo raro para um investidor conhecido justamente por evitar IPOs e apostas em empresas de tecnologia ainda sem histórico longo de lucros. A chinesa Ant Financial (afiliada do grupo Alibaba) também entrou, com US$ 100 milhões em ações.

Fevereiro de 2021: o auge — e o início da queda
A ação da Stone (STNE) atingiu sua máxima histórica em 17 de fevereiro de 2021, negociada a US$ 95,12. Dali em diante, porém, começou uma das quedas mais dramáticas do mercado financeiro brasileiro-americano dos últimos anos.
A crise da “trava bancária”
Em 7 de junho de 2021, entrou em vigor no Brasil um novo sistema de registro de recebíveis de cartão — a chamada “trava bancária”, mecanismo que usa os recebíveis futuros de cartão como garantia de operações de crédito. A migração para o novo sistema foi turbulenta: as registradoras de recebíveis apresentaram falhas de funcionamento, abrindo espaço para o que analistas descreveram como “comportamento oportunista” de alguns participantes do mercado, que deixaram de liquidar pagamentos segundo as prioridades esperadas pelo sistema.
A Stone, que vinha expandindo agressivamente sua carteira de crédito usando recebíveis como garantia, precisou pausar as concessões de crédito entre abril e junho de 2021, revisar para baixo suas expectativas de recuperação de valores em atraso e conviver com inadimplência maior do que o previsto.
O tombo: de US$ 95 a US$ 6,81
O mercado reagiu com dureza. Em 17 de outubro de 2021, após um trimestre fraco, a ação desabou mais 30% em uma única sessão — acumulando perda de quase 75% só naquele ano. A sangria continuou ao longo de 2022: em 12 de maio daquele ano, a Stone atingiu sua mínima histórica, US$ 6,81 — uma queda acumulada de cerca de 93% frente à máxima de fevereiro de 2021. A Berkshire Hathaway de Buffett foi reduzindo e, entre o primeiro trimestre de 2021 e o quarto de 2023, zerou por completo sua posição na companhia.
2023: troca de comando
Em meio à travessia da crise, a Stone também trocou de liderança: Thiago Piau, CEO desde os primeiros anos da companhia, deixou o cargo e passou a integrar o Conselho de Administração. Pedro Zinner assumiu como novo CEO até 31 de março de 2023, com a missão de reconstruir a confiança do mercado e reequilibrar o apetite por crescimento com a disciplina de risco que faltou durante a crise de 2021.

2026: recuperação com foco em caixa e retorno ao acionista
Cinco anos depois do pico da crise, a Stone segue em recuperação — mais cautelosa do que a fase de crescimento acelerado pré-2021. No segundo trimestre de 2026, a receita somou US$ 3,59 bilhões, ligeiramente abaixo da expectativa de mercado (US$ 3,67 bilhões), enquanto o lucro por ação ajustado (US$ 2,40) veio em linha com o esperado. O volume total de pagamentos processado (TPV) cresceu 4% na comparação anual — primeiro sinal claro de que os esforços de retenção de clientes vêm surtindo efeito.
A companhia tem priorizado devolver capital ao acionista: entre recompras agressivas de ações e um dividendo especial, o retorno combinado somou cerca de 39% só no primeiro semestre de 2026. A gestão atual descreve a estratégia como equilibrar crescimento com cautela — sobretudo na frente de crédito, onde a empresa enxerga espaço para voltar a crescer, mas sem repetir o apetite que precedeu a crise de 2021.
Erros comuns sobre a história da StoneCo
- Achar que Warren Buffett continua investido na Stone: a Berkshire Hathaway zerou completamente sua posição entre o 1T21 e o 4T23 — não há mais vínculo societário entre os dois.
- Confundir “trava bancária” com um problema exclusivo da Stone: a mudança no sistema de registro de recebíveis, em junho de 2021, afetou o setor inteiro de meios de pagamento (inclusive PagSeguro e outras fintechs) — a Stone só foi a mais exposta por ter uma operação de crédito grande apoiada nesses recebíveis.
- Achar que a queda de 93% significa que o modelo de negócio quebrou: a queda refletiu sobretudo um susto regulatório e de crédito, não o fim da operação de maquininhas — a companhia seguiu operando e hoje foca em geração de caixa e retorno ao acionista.
- Confundir Stone com StoneCo Ltd. como entidades diferentes: StoneCo Ltd. é a holding listada na Nasdaq (ticker STNE); “Stone” é a marca comercial usada no Brasil.
Conclusão
A trajetória da Stone é um estudo de caso raro sobre como um selo de aprovação como o de Warren Buffett não protege uma empresa de riscos regulatórios e operacionais fora do seu controle direto. A companhia foi de queridinha do mercado — com aporte do investidor mais respeitado do mundo — a uma queda de 93% em pouco mais de um ano, para depois reconstruir sua credibilidade sob nova liderança, priorizando disciplina de crédito e devolução de capital ao acionista. Para o investidor, a história da Stone é um lembrete de que mudanças regulatórias no setor financeiro — como a trava bancária de 2021 — podem ter efeito tão devastador sobre uma ação quanto um erro de gestão.
FAQ
Quando a Stone foi fundada?
Em 2012, por André Street e Eduardo Pontes, dupla que já havia fundado outras empresas de meios de pagamento, como a Braspag.
Warren Buffett ainda investe na StoneCo?
Não. A Berkshire Hathaway entrou com 11,3% do capital no IPO de 2018, mas zerou completamente a posição entre o primeiro trimestre de 2021 e o quarto trimestre de 2023.
O que foi a crise da “trava bancária” que derrubou a ação da Stone?
Foi a migração, em junho de 2021, para um novo sistema de registro de recebíveis de cartão no Brasil. Falhas no novo sistema forçaram a Stone a pausar concessões de crédito e lidar com inadimplência maior que o esperado, derrubando a ação de perto de US$ 95 (fevereiro de 2021) para uma mínima de US$ 6,81 (maio de 2022) — queda de cerca de 93%.
A crise da trava bancária afetou só a Stone?
Não. Afetou o setor de meios de pagamento como um todo, incluindo concorrentes como PagSeguro. A Stone foi a mais impactada por ter uma operação de crédito de maior escala apoiada nesses recebíveis.
Como está a StoneCo hoje?
Em recuperação: no 2º trimestre de 2026, o volume de pagamentos processado cresceu 4% na comparação anual, e a companhia devolveu cerca de 39% de retorno combinado ao acionista (recompras + dividendo especial) só no primeiro semestre do ano, com estratégia mais cautelosa de expansão do crédito.
Leia também: XP: a história da corretora que virou gigante e Circuit breaker, after market e leilão: como funcionam.
Fontes: Wikipédia — Stone (fintech), GuruFocus — Warren Buffett assume 11% de participação na StoneCo, EQL — entenda o que levou as ações da Stone a despencarem, Seu Dinheiro — ações da Stone desabam 30% após balanço do 3T21, Startups — Thiago Piau deixa cargo de CEO da Stone e Seeking Alpha — resultados da StoneCo em 2026.
