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Vale: de estatal de Vargas à maior mineradora das Américas

A maior mina de minério de ferro do mundo fica na Serra dos Carajás, no Pará. Com mais de 7,2 bilhões de toneladas de reservas — o suficiente para abastecer o planeta por décadas — ela pertence à Vale, a empresa que nasceu de um decreto de Getúlio Vargas em 1942, sobreviveu a uma privatização controversa em 1997, construiu um império global sob o comando de um executivo que a Harvard Business Review elegeu o quarto melhor CEO do mundo, e depois enfrentou duas das maiores tragédias da história da mineração brasileira — Mariana (2015) e Brumadinho (2019) — que mataram 291 pessoas e redefiniriam para sempre os padrões de segurança da indústria. Esta é a história da Vale.

1942: CVRD — o ferro de Vargas na Segunda Guerra Mundial

A história começa nos Acordos de Washington de 1942. Em plena Segunda Guerra Mundial, o Brasil negociou com Estados Unidos e Reino Unido uma compensação estratégica: em troca do uso das bases aéreas nordestinas pelos Aliados, o Brasil receberia financiamento para explorar o ferro de Itabira, em Minas Gerais.

Em 1º de junho de 1942, Getúlio Vargas assinou o decreto que criava a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). As reservas de ferro da região eram imensas — e estavam nas mãos do empresário americano Percival Farquhar, que Vargas havia encampado. A nova estatal teria como missão extrair esse ferro e exportá-lo para a indústria de guerra aliada.

No ano seguinte, em 1943, foi inaugurada a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) — ligando as minas de Itabira ao Porto de Vitória (ES) — a espinha dorsal logística que tornaria as exportações viáveis. A ferrovia, que hoje transporta mais de 100 milhões de toneladas por ano, foi a segunda grande criação da CVRD.

A era estatal: construindo o gigante (1942–1997)

Durante cinco décadas como estatal, a CVRD foi construída tijolo a tijolo por presidentes e engenheiros que pensavam em décadas, não em trimestres:

  • 1962: a empresa assinou contratos de 15 anos com 11 siderúrgicas japonesas — 5 milhões de toneladas anuais. O Japão estava reconstruindo sua indústria no pós-guerra e precisava de ferro. A CVRD era a fornecedora ideal.
  • 1966: inauguração do Porto de Tubarão (ES) — o maior porto exportador de minério do mundo por décadas.
  • 1970: a CVRD adquiriu participação majoritária na Mina de Carajás, no Pará. A descoberta das reservas de Carajás — inicialmente feita pela US Steel em cooperação com a empresa — revelou o maior depósito de ferro de alta qualidade do planeta.
  • 1974: a CVRD se tornou a maior exportadora mundial de minério de ferro — posição que mantém até hoje, mais de 50 anos depois.
  • 1985: início das operações do Projeto Grande Carajás, incluindo a Estrada de Ferro Carajás (EFC, 892 km) e o porto de Ponta da Madeira (MA).

1997: A privatização polêmica de R$ 3,3 bilhões

Em 6 de maio de 1997, sob o governo Fernando Henrique Cardoso, a CVRD foi ao leilão como parte do Programa Nacional de Desestatização. O vencedor foi o Consórcio Brasil, liderado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), de Benjamin Steinbruch. O preço pago: R$ 3,338 bilhões — equivalente a pouco mais de US$ 3 bilhões na época.

A privatização foi marcada por protestos intensos. Trabalhadores bloquearam o acesso à Bolsa do Rio de Janeiro no dia do leilão. Críticos argumentavam que o preço era subavaliado para uma empresa com as maiores reservas de ferro do mundo. O BNDES, ironicamente, financiou parte da aquisição — o Estado vendendo para si mesmo, via financiamento público ao comprador privado.

Os resultados imediatos silenciaram parte dos críticos: o lucro líquido da empresa saltou para R$ 1 bilhão em 1998 — o maior resultado de qualquer empresa privada brasileira naquele momento. A gestão privada, mais focada em eficiência, mostrou que havia gordura para cortar.

Vista aérea do rompimento da barragem de Brumadinho, Minas Gerais, em janeiro de 2019
Vista aérea do rompimento da Barragem I da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), dois dias após o desastre de 25 de janeiro de 2019. Crédito: Vinícius Mendonça / Ibama — CC BY-SA 2.0

Roger Agnelli: o executivo que globalizou a Vale

Roger Agnelli assumiu a presidência da Vale em 2001 e conduziu a empresa por uma das décadas mais transformadoras de sua história. Em 2013, a Harvard Business Review o elegeu o 4º melhor CEO do mundo — atrás apenas de Steve Jobs, Jeff Bezos e Yun Jong-Yong (Samsung) — reconhecendo sua capacidade de transformar uma mineradora regional numa gigante global.

Sob Agnelli, a Vale fez uma série de aquisições que mudaram sua escala:

  • 2001: Ferteco (3ª maior produtora de ferro do Brasil)
  • 2005: Canico Resource (níquel canadense) — US$ 865 milhões
  • 2006: Aquisição da Inco (Canadá) — o maior negócio da era Agnelli

A aquisição da Inco foi épica. A Inco era a segunda maior produtora de níquel do mundo — e havia outros pretendentes. A Teck Cominco fez uma oferta hostil de US$ 16 bilhões (maio/2006). A Phelps Dodge propôs uma fusão de US$ 40 bilhões que reuniria Inco e Falconbridge (junho/2006). Agnelli venceu as duas disputas com uma oferta all-cash de US$ 17 bilhões, aprovada em outubro de 2006. O valor total com dívidas assumidas chegou a US$ 18,9 bilhões.

Com a Inco, a Vale entrou no mercado global de níquel em escala — um mineral que, décadas depois, se revelaria estratégico para a transição energética e as baterias de veículos elétricos.

Em novembro de 2007, a empresa abandonou o nome CVRD e adotou simplesmente Vale — um rebrand que simbolizava a virada de uma estatal brasileira para uma empresa global sem fronteiras.

O fim de Agnelli foi político. Em 2008, durante a crise financeira global, ele demitiu 2.000 funcionários — gerando conflito aberto com o presidente Lula, que considerava inaceitável que uma empresa antes estatal demitisse em crise. Em março de 2011, Agnelli foi retirado do cargo a pedido do governo federal.

2015: Mariana — o maior desastre ambiental da história brasileira

Em 5 de novembro de 2015, a barragem Fundão, da Samarco Mineração, rompeu em Bento Rodrigues, 35 km de Mariana (MG). A Samarco era uma joint venture 50% Vale + 50% BHP Billiton.

O volume de rejeitos liberados foi de aproximadamente 62 milhões de metros cúbicos — o maior desastre industrial da história brasileira até então. A lama de rejeitos de minério atingiu o Rio Doce horas depois e percorreu mais de 650 km até o oceano Atlântico, contaminando 230 municípios de Minas Gerais e Espírito Santo. 19 pessoas morreram. O Rio Doce — que em tupi significa “rio bom” — precisaria de anos para começar a se recuperar.

O impacto financeiro e jurídico foi imenso. Em junho de 2024, Vale, BHP e Samarco apresentaram uma nova proposta de acordo ao Tribunal Federal totalizando R$ 140 bilhões (R$ 82 bilhões em dinheiro + R$ 21 bilhões em obrigações ao longo de 20 anos) — a maior reparação ambiental da história do Brasil.

2019: Brumadinho — a tragédia que redefiniu a mineração

Quatro anos depois de Mariana, em 25 de janeiro de 2019, a Barragem I da Mina Córrego do Feijão, operada diretamente pela Vale em Brumadinho (MG), rompeu às 12h28. Desta vez, não havia intermediário: a responsabilidade era da Vale.

A barragem usava o método de alteamento a montante — técnica considerada de alto risco pela indústria e que, após Brumadinho, seria banida no Brasil. O volume de rejeitos foi de 12 milhões de metros cúbicos, mas a localização da barragem — imediatamente acima do refeitório da mina, onde centenas de trabalhadores almoçavam — tornou a tragédia ainda mais letal: 272 pessoas morreram, incluindo trabalhadores e moradores da região. Foi o pior acidente de trabalho da história do Brasil.

O mercado reagiu imediatamente: em 28 de janeiro, as ações da Vale despencaram 24% em um dia, eliminando R$ 71,3 bilhões (US$ 19 bilhões) em valor de mercado — o maior apagão de valor de mercado em um único pregão na história da bolsa brasileira.

As consequências foram profundas:

  • O CEO Fabio Schvartsman deixou o cargo e foi posteriormente indiciado por homicídio doloso
  • 16 executivos da Vale e da auditora TÜV SÜD foram indiciados
  • A Vale foi multada em R$ 250 milhões pelas autoridades ambientais
  • Tribunais determinaram o fechamento de outras 8 barragens
  • O Brasil baniu definitivamente o método de alteamento a montante em barragens de mineração
  • Em 2021, a Vale firmou acordo com o governo de Minas Gerais estimado em R$ 37,68 bilhões para reparação dos danos

Reestruturação e o futuro: níquel, cobre e a aposta na transição energética

Após Brumadinho, a Vale passou por uma reestruturação profunda. O foco em segurança de barragens tornou-se prioridade absoluta: mais de 30 barragens foram desativadas ou descaracterizadas no programa pós-2019.

Em outubro de 2024, Gustavo Pimenta assumiu a presidência da Vale — o quinto CEO em sete anos, reflexo da instabilidade pós-tragédia.

A aposta estratégica mais importante: a Vale Base Metals, subsidiária criada em 2023 para gerir as operações de níquel, cobre e cobalto — os metais essenciais para baterias de veículos elétricos. Em maio de 2022, a Vale já havia assinado contrato de longo prazo com a Tesla para fornecimento de níquel de baixo carbono para baterias. A transição energética, que ameaça reduzir a demanda de carvão e petróleo, pode aumentar muito a demanda de níquel e cobre — e a Vale quer estar posicionada.

O desafio permanece: aproximadamente 65% das exportações de minério de ferro vão para a China. Qualquer desaceleração da construção civil chinesa — o principal consumidor de aço do mundo — impacta diretamente a receita da Vale. Em 2024, a receita foi de US$ 38 bilhões, contra o pico de US$ 53,89 bilhões em 2021.

Mina de Carajás: o maior ativo do planeta

A Mina de Carajás, no Pará, é o maior ativo da Vale e, possivelmente, a maior jazida de minério de ferro de alta qualidade do mundo. Com reservas estimadas em mais de 7,2 bilhões de toneladas — ferro com teor médio de 66%, excepcionalmente alto —, a mina garante décadas de operação. Em 2025, a Vale implementou caminhões autônomos com inteligência artificial em Carajás, reduzindo acidentes e custos operacionais.

Além do ferro, Carajás contém ouro, manganês, bauxita, cobre e níquel. É literalmente um continente mineral concentrado numa única área do interior do Pará — e é de lá que vem grande parte da riqueza que a Vale distribui em dividendos para seus acionistas.

VALE3: o que o investidor precisa saber

A Vale (VALE3) é uma das ações mais negociadas da bolsa brasileira e uma das preferidas por investidores que buscam exposição a commodities. Alguns dados relevantes:

  • Receita 2024: US$ 38,05 bilhões
  • Dividend yield histórico: entre 8% e 15% ao ano nos anos de preços de minério altos
  • Risco China: 65% das exportações de ferro vão para a China — qualquer crise imobiliária chinesa afeta diretamente a empresa
  • Risco de barragem: o histórico de Mariana e Brumadinho cria passivo jurídico permanente e pressão regulatória constante
  • Oportunidade níquel/cobre: a Vale Base Metals pode se tornar um driver de crescimento com a transição energética

FAQ

Conclusão

A história da Vale é uma das histórias mais fascinantes — e mais dolorosas — do capitalismo brasileiro. Em 80 anos, ela passou de ferramenta de guerra de um presidente autoritário a gigante global listada em Nova York, de empresa-símbolo da industrialização nacional a empresa-símbolo dos piores desastres da mineração moderna, de estatal protegida a alvo polêmico de privatização, de líder de mercado sob pressão da China a empresa em transição para os minerais da descarbonização. Em cada capítulo, o ferro de Carajás foi o ativo que garantiu a sobrevivência — e a expansão. O próximo capítulo será escrito em níquel, cobre e cobalto, nas baterias dos carros elétricos que um dia poderão alimentar o mundo com metais extraídos das montanhas do Pará.


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