A história da CSN: a siderúrgica que disputou o controle com a Vale
A história completa da CSN: do decreto de Vargas em 1941 à privatização de 1993, a disputa pelo controle da Vale, a guerra judicial de 14 anos com a Usiminas, a briga de família pela Vicunha e a dívida bilionária de 2026.

Poucas empresas brasileiras têm uma história tão cheia de disputa societária quanto a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Nasceu de um decreto de Getúlio Vargas em plena Segunda Guerra Mundial, virou símbolo da industrialização do país em Volta Redonda (RJ), foi privatizada em 1993 e caiu nas mãos de um empresário, Benjamin Steinbruch, que usou a CSN como plataforma para tentar (e por um tempo conseguir) controlar também a Vale — a maior mineradora do país. De lá pra cá, a CSN colecionou uma batalha judicial de 14 anos contra a siderúrgica rival Usiminas, uma guerra de família pelo controle do grupo e, mais recentemente, uma dívida bilionária que colocou a empresa sob pressão em 2026. Este é o histórico completo por trás das quatro letras que dão nome a uma das siderúrgicas mais importantes da América Latina.
De decreto de Vargas a Volta Redonda: como nasceu a CSN (1941-1946)
A Companhia Siderúrgica Nacional nasceu em 9 de abril de 1941, quando o presidente Getúlio Vargas assinou o decreto que autorizava sua criação. A empresa foi fruto de um acordo diplomático entre Brasil e Estados Unidos, os chamados Acordos de Washington, que viabilizaram financiamento e tecnologia americana para erguer a primeira usina siderúrgica integrada de grande porte da América do Sul.
Os Acordos de Washington e a corrida contra o tempo da Segunda Guerra
A negociação começou em 1940, num momento em que o Brasil não produzia internamente boa parte dos laminados pesados de que precisava — trilhos, chapas, vigas — e dependia de importação. Com a Segunda Guerra Mundial reorganizando alianças e cadeias de suprimento, o governo Vargas aproveitou a janela geopolítica para negociar com os americanos a construção de uma siderúrgica nacional, como parte do projeto mais amplo de industrialização e redução da dependência econômica externa do país.
Volta Redonda, no interior do estado do Rio de Janeiro, foi escolhida para sediar a usina, batizada de Usina Presidente Vargas. A obra viraria, décadas depois, o centro econômico da cidade: ainda hoje a CSN responde por cerca de 25% dos empregos formais de Volta Redonda, com mais de 20 mil postos de trabalho diretos no grupo.

1946: o Alto-Forno 1 aceso sem Vargas na plateia
O Alto-Forno 1 foi aceso em 1º de outubro de 1946, marcando o início da operação da CSN como a primeira produtora integrada de aços planos do Brasil — um marco histórico para a industrialização nacional. Houve, porém, uma reviravolta política pelo caminho: Getúlio Vargas, o presidente que assinou o decreto de criação da empresa, havia deixado o poder em outubro de 1945, quase um ano antes da inauguração. Quem discursou na cerimônia foi seu sucessor, o general Eurico Gaspar Dutra.

Estatal símbolo da industrialização por quase cinco décadas
Da inauguração até o início dos anos 1990, a CSN operou como estatal, sendo tratada por sucessivos governos como vitrine do parque industrial brasileiro — ao lado de outras grandes estatais do setor de base, como a própria Vale do Rio Doce (então CVRD) e a Petrobras. Foi nesse período que a empresa consolidou sua posição como uma das maiores siderúrgicas integradas da América Latina, com capacidade para produzir desde a matéria-prima (minério de ferro, coque) até o aço laminado final.
1993: a privatização que entregou a CSN a Benjamin Steinbruch
A CSN foi uma das primeiras grandes estatais leiloadas dentro do Programa Nacional de Desestatização do governo Itamar Franco. O leilão, realizado em meio a forte tensão na então Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (BVRJ), foi vencido por US$ 1,05 bilhão por um consórcio formado pelos grupos privados Vicunha e Bamerindus e pela própria Vale do Rio Doce, ainda estatal na época.
Foi esse leilão que colocou Benjamin Steinbruch — então à frente do grupo têxtil Vicunha, fundado por seu pai Mendel Steinbruch e pelo tio Eliezer Steinbruch — no comando da CSN. Ainda em 1993, Steinbruch assumiu a presidência do Conselho de Administração da companhia, posição que ocupa, com variações de título, até hoje.
A ousadia de 1997: como Steinbruch comprou o controle da Vale do Rio Doce
Quatro anos depois de assumir a CSN, Benjamin Steinbruch deu um passo ainda mais ambicioso: liderou o chamado Consórcio Brasil, que venceu o leilão de privatização da Vale do Rio Doce em 1997 — até hoje uma das privatizações mais lembradas (e mais contestadas) da história econômica brasileira.
A estrutura da Valepar e a saída de Steinbruch em 2001
Depois do leilão, o controle da Vale passou a ser exercido por uma holding chamada Valepar, com uma composição acionária que reunia vários dos grandes grupos vencedores: a Litel (que reunia fundos de pensão de estatais) com 43%, a própria CSN com 16,3%, a Bradespar com 17,4%, a japonesa Mitsui com 15%, o BNDESpar com 9,5% e o grupo Elétron com 0,03%.
Essa participação cruzada — CSN dentro do bloco de controle da Vale — durou até 2001, quando um acordo de acionistas promoveu o chamado “descruzamento”: as posições de CSN e Valepar foram separadas, e Benjamin Steinbruch deixou o bloco que controlava a Vale. Foi o fim de uma tentativa pouco comum no capitalismo brasileiro: um empresário controlando, ao mesmo tempo, uma siderúrgica e a maior mineradora do país — fornecedora, em tese, de matéria-prima para a própria CSN.
CSN x Usiminas: a tomada hostil que virou a batalha judicial mais longa do setor
Se a disputa pela Vale terminou em acordo, o confronto de Steinbruch com a siderúrgica rival Usiminas seguiu um caminho bem mais longo — e beligerante.
O ataque de 2011 e a chegada da Ternium
Em 2011, a CSN tentou uma tomada hostil da concorrente Usiminas, chegando a acumular cerca de 16% do capital da rival. No mesmo ano, porém, o grupo ítalo-argentino Ternium (do conglomerado Techint) comprou as participações que os grupos Votorantim e Camargo Corrêa detinham no bloco de controle da Usiminas — fechando a porta para a investida da CSN.
14 anos de Justiça: da derrota na CVM à indenização bilionária no STJ
A CSN argumentou que a compra da Ternium deveria ter disparado uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) obrigatória, com direito de tag along, aos demais acionistas — inclusive à própria CSN, pelo mesmo preço pago a Votorantim e Camargo Corrêa. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) foi acionada, mas decidiu contra a CSN, entendendo que não houve, tecnicamente, mudança de controle na Usiminas.
A CSN perdeu na primeira instância da Justiça e, depois, por unanimidade, na segunda instância. A guinada veio no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que determinou que a Ternium indenizasse a CSN em R$ 3,1 bilhões. Em paralelo, um acordo firmado em 2014 com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) obrigou a CSN a reduzir sua fatia na Usiminas para menos de 5%, para mitigar riscos concorrenciais entre as duas siderúrgicas rivais. Em 2025, a Justiça negou um novo recurso da CSN no caso, fechando mais um capítulo de uma briga que já dura mais de uma década.
A guerra de família: Steinbruch x primos pelo controle da Vicunha
Enquanto disputava Vale e Usiminas no mercado, Benjamin Steinbruch também travou uma batalha dentro de casa. O controle da CSN é exercido pelo grupo Vicunha (via Vicunha Aços e Rio Iaco Participações), fundado nos anos 1960 pelos irmãos Mendel Steinbruch — pai de Benjamin, Ricardo e Elisabeth — e Eliezer Steinbruch — pai de Léo e Clarice.
Um acordo de acionistas assinado em 1994, após a morte de Mendel em 1993, previa que os herdeiros das duas famílias — Vicunha Aços de um lado, o ramo de Eliezer de outro — teriam peso igual nas decisões do grupo, mesmo com participações acionárias diferentes. Na prática, porém, Benjamin Steinbruch concentrava as decisões, para desagrado dos primos. As divergências ficaram públicas após a morte de Eliezer, em 2008, e a disputa foi parar na Justiça a partir de 2018, quando a holding CFL Participações (representando Léo e Clarice) tentou romper o acordo de acionistas de quase 30 anos que dava a Benjamin o comando do grupo.
Em 2021, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) confirmou, por decisão unânime de cinco desembargadores, a manutenção do controle nas mãos de Benjamin Steinbruch. Depois de anos de disputa judicial, um desfecho posterior garantiu a Léo e Clarice Steinbruch participação direta na CSN — encerrando o capítulo mais pessoal da história de controle acionário da companhia.
CSN Mineração: a diversificação que virou a joia da coroa
Apesar de ter nascido siderúrgica, a CSN sempre precisou de minério de ferro para abastecer seus altos-fornos — e, ao longo das décadas, construiu uma operação de mineração própria robusta o suficiente para virar um negócio à parte. Em 2015, a companhia unificou seus ativos de mineração com os da Namisa, criando a CSN Mineração na configuração que existe hoje, embora a atividade de extração de minério do grupo tenha um histórico de mais de 100 anos.
Em 18 de fevereiro de 2021, a CSN Mineração abriu capital na B3 (ticker CMIN3), no Nível 2 de governança corporativa, numa oferta que movimentou bilhões de reais. A CSN manteve o controle da nova empresa, com participação em torno de 77% após o IPO. Hoje, a CSN Mineração é considerada a segunda maior exportadora de minério de ferro do Brasil, com mais de 3 bilhões de toneladas em reservas certificadas — a principal delas na mina de Casa de Pedra, em Congonhas (MG), operada pelo grupo desde que a jazida foi nacionalizada e incorporada à CSN em 1946, o mesmo ano da inauguração da usina de Volta Redonda.

2026: a dívida bilionária e a corrida pela desalavancagem
A CSN chega a 2026 enfrentando um dos momentos financeiros mais delicados de sua fase privada. Ao fim de 2025, a dívida líquida do grupo somava R$ 41,2 bilhões, com alavancagem de 3,47 vezes o Ebitda — primeira alta depois de três trimestres seguidos de queda —, acima da meta da própria companhia de operar perto de 3 vezes ou abaixo disso. No segundo trimestre de 2026, a dívida líquida consolidada do grupo já havia subido para R$ 42,13 bilhões, e a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 773 milhões no período.
Para enfrentar vencimentos de R$ 9,4 bilhões só em 2026 (com pico de R$ 11,7 bilhões previsto para 2028, majoritariamente em dívida em dólar), a CSN contratou um empréstimo-ponte de até US$ 1,5 bilhão com garantia em ativos da CSN Cimentos, articulado por um pool de bancos internacionais (Morgan Stanley, Citi, Deutsche Bank, BNP Paribas e HSBC), a juros de 14% a 15% ao ano. Em paralelo, a companhia estruturou um plano de venda de ativos com meta de captar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões ao longo de 2026 — incluindo a venda do controle da CSN Cimentos e a entrada de sócios minoritários em sua plataforma de infraestrutura e logística —, com conclusão prevista para o terceiro trimestre do ano.
Do lado operacional, a mineração seguiu como o ponto mais forte do grupo: a CSN Mineração embarcou 11,8 milhões de toneladas de minério de ferro só no segundo trimestre de 2026, acima das projeções de bancos como Morgan Stanley, Goldman Sachs e JPMorgan — mesmo com o mercado reagindo mal à queda do preço do minério, à valorização do real e à pressão de custos e frete sobre a ação CMIN3.
Erros comuns sobre a história da CSN
- Achar que CSN é só siderurgia: desde a criação da CSN Mineração (2015, IPO em 2021), a companhia opera dois negócios com ações separadas na B3 — CSNA3 (o grupo, incluindo siderurgia) e CMIN3 (a mineração) — com desempenhos que podem divergir no mesmo trimestre.
- Confundir a disputa pela Vale com a disputa pela Usiminas: são episódios diferentes. O envolvimento com a Vale (1997-2001) terminou em acordo de descruzamento societário; o confronto com a Usiminas (2011-2025) foi uma tomada hostil fracassada seguida de 14 anos de batalha judicial.
- Achar que a CSN sempre foi controlada só por Benjamin Steinbruch: o controle é do grupo familiar Vicunha como um todo, dividido historicamente entre os ramos de Mendel e Eliezer Steinbruch — com disputa judicial própria entre os primos, resolvida separadamente da briga com Vale e Usiminas.
- Pensar que Getúlio Vargas inaugurou a usina que ele mesmo criou: Vargas assinou o decreto de criação em 1941, mas foi afastado do poder em outubro de 1945 — quem discursou na inauguração de outubro de 1946 foi seu sucessor, o presidente Eurico Gaspar Dutra.
Conclusão
A CSN nasceu como projeto de Estado, virou ativo privado nas mãos de um empresário com apetite de expansão fora do seu próprio setor, disputou (e perdeu) o controle continuado da maior mineradora do país, travou uma das brigas judiciais mais longas do mercado brasileiro contra uma concorrente direta e, por dentro, ainda precisou resolver uma disputa de herança para manter o controle familiar unificado. Hoje, em 2026, a empresa enfrenta um capítulo mais prosaico, mas igualmente decisivo: uma dívida bilionária que testa a capacidade do grupo de se desalavancar sem perder os ativos que levou décadas para construir — da usina de Volta Redonda à mina de Casa de Pedra.
FAQ
1) Quando a CSN foi fundada?
A CSN foi criada por decreto do presidente Getúlio Vargas em 9 de abril de 1941, mas só entrou em operação em 1º de outubro de 1946, quando o Alto-Forno 1 foi aceso em Volta Redonda (RJ).
2) Quem é o dono da CSN hoje?
O controle é exercido pelo grupo Vicunha, da família Steinbruch, com Benjamin Steinbruch como presidente do Conselho de Administração desde a privatização de 1993. O controle familiar é dividido historicamente entre os ramos descendentes dos irmãos Mendel e Eliezer Steinbruch.
3) A CSN ainda tem participação na Vale?
Não. A CSN fez parte do bloco de controle da Vale entre 1997 e 2001, através da holding Valepar, mas as posições foram descruzadas por acordo de acionistas em 2001 — desde então, a CSN não integra mais o controle da mineradora.
4) O que aconteceu na disputa entre CSN e Usiminas?
Em 2011, a CSN tentou uma tomada hostil da Usiminas e chegou a deter cerca de 16% do capital da rival, mas o grupo Ternium comprou o bloco de controle antes. A CSN entrou na Justiça alegando direito a OPA e tag along, perdeu nas instâncias iniciais, mas obteve indenização de R$ 3,1 bilhões da Ternium em decisão do STJ, além de um acordo com o CADE em 2014 que a obrigou a reduzir sua fatia na Usiminas para menos de 5%.
5) CSN e CSN Mineração são a mesma ação na bolsa?
Não. CSN (CSNA3) é a holding que inclui a siderurgia e outros negócios do grupo; CSN Mineração (CMIN3) é a subsidiária focada em minério de ferro, com IPO próprio em fevereiro de 2021 e ações negociadas separadamente na B3.
6) Por que a CSN está com tanta dívida em 2026?
A dívida líquida do grupo chegou a R$ 42,13 bilhões no segundo trimestre de 2026, pressionada por vencimentos concentrados, custo financeiro elevado e resultado do trimestre negativo (prejuízo de R$ 773 milhões). A companhia contratou um empréstimo-ponte de até US$ 1,5 bilhão e montou um plano de venda de ativos para captar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões ao longo do ano.
Leia também: A história da Vale: de estatal de Vargas à maior mineradora das Américas e A história da Gerdau: da fábrica de pregos ao gigante do aço.
Fontes: Infomet — a criação da CSN, Wikipedia — Companhia Siderúrgica Nacional, Brazil Journal — caso CSN x Ternium/Usiminas, Seu Dinheiro — desfecho do caso Usiminas (2025), ADVFN — disputa familiar pela Vicunha, Toro Investimentos — CSN Mineração e o IPO de 2021, InvestNews — dívida e plano de desalavancagem da CSN em 2026 e Correio da Manhã — prejuízo do 2T26.
