Azzas 2154 anuncia cisão: Arezzo e SOMA se separam menos de 2 anos após a fusão
A Azzas 2154, dona de Arezzo, Hering, Farm e Schutz, anunciou a cisão do grupo menos de dois anos após a fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma, em meio a uma briga societária entre os controladores e queda de 62,5% no lucro do 2º trimestre.

A Azzas 2154 — dona de marcas como Arezzo, Hering, Farm e Schutz — anunciou nesta quarta-feira (2) a cisão do grupo, informou o G1 Economia. A separação ocorre menos de dois anos depois da fusão entre a Arezzo&Co e o Grupo Soma, que em 2024 havia criado um dos maiores conglomerados de moda do país. A decisão vem no rastro de uma briga societária pública entre os dois grupos de controladores e de uma queda acentuada nos resultados da companhia combinada — entenda o que aconteceu e o que isso muda para quem acompanha o setor.
O fato que colocou a Azzas 2154 no radar
A Azzas 2154 nasceu em 2024 da fusão entre a Arezzo&Co (calçados, bolsas e acessórios, com marcas como Arezzo, Schutz e Reserva) e o Grupo Soma (vestuário, com grifes como Farm, Animale e Hering), formando uma companhia com mais de 30 marcas, cerca de 2 mil lojas e faturamento conjunto estimado em R$ 12 bilhões. Nesta quarta-feira (2), a empresa comunicou ao mercado que vai se dividir novamente: de um lado, a Arezzo&Co, liderada pelo bloco de Alexandre Birman, ficará com Arezzo, Schutz, Anacapri, Vans, Alexandre Birman, Carol Bassi, além de Hering e suas extensões; de outro, a SOMA, sob comando do bloco de Roberto Luiz Jatahy, ficará com Animale, NV, Maria Filó, Cris Barros, Reserva e extensões e Oficina Foxton. A Farm Rio e suas extensões passarão a uma sociedade própria, dividida entre 57,4% da Arezzo&Co e 42,6% da SOMA. As duas companhias resultantes serão listadas separadamente no Novo Mercado da B3, cada uma com estrutura própria de administração e governança — uma cisão, no jargão do mercado, é justamente essa divisão de uma empresa em duas ou mais companhias independentes.

O que muda na tese da companhia
A cisão não surge do nada — ela é o desfecho de um ano marcado por instabilidade na cúpula da Azzas 2154. Em maio de 2025, apenas nove meses após a fusão ser concluída, Guilherme Benchimol (fundador da XP) renunciou ao conselho de administração. Em junho, a empresa reestruturou o colegiado, com Nicola Calicchio Neto assumindo a presidência e Marcel Sapir a vice-presidência, no lugar de Pedro Parente e Anna Chaia; Rony Meisler, fundador da Reserva, também deixou seu cargo. Calicchio Neto, por sua vez, deixou a presidência do conselho um ano depois de assumi-la. O ponto mais crítico veio em maio de 2026, quando Jatahy processou Birman na Justiça para barrar mudanças internas promovidas por ele — pedido que foi acatado, mantendo Jatahy à frente das unidades de vestuário feminino e masculino. Em paralelo, os resultados da companhia pioraram: o lucro líquido recorrente caiu 62,5% no 2º trimestre de 2026 frente ao mesmo período de 2025, para R$ 106,5 milhões, depois de uma queda de 45,7% já registrada no 1º trimestre. Na prática, a tese original da fusão — ganhos de escala e complementaridade entre calçados/acessórios e vestuário — perde força diante de uma governança que não conseguiu se consolidar.
Como o mercado costuma ler esse tipo de evento
Cisões motivadas por conflito societário costumam ser lidas pelo mercado com cautela redobrada, diferente de separações planejadas para “destravar valor” (quando o argumento é que empresas menores e mais focadas seriam mais bem precificadas separadamente). Aqui, o histórico de embates públicos entre os blocos controladores, somado à queda de lucro, tende a pesar mais na análise do que o potencial benefício de cada marca operar de forma independente. O próprio site já cobriu o nascimento dessa história: a fusão de 2024 apagou o nome “Arezzo” como companhia aberta, substituído por “Azzas 2154” — um capítulo que agora ganha um desfecho inverso, com o nome Arezzo&Co voltando a existir como empresa listada (veja “Leia também” abaixo).
Riscos e limites da interpretação
A cisão ainda depende de aprovações societárias e regulatórias, e o desenho final de participação na sociedade que reunirá a Farm Rio (57,4%/42,6%) pode ser ajustado até a conclusão do processo. O litígio entre Jatahy e Birman também não está necessariamente encerrado com o anúncio da separação — divergências societárias desse tipo podem continuar gerando disputas mesmo depois que as empresas se tornam independentes. Além disso, o desempenho de cada marca isoladamente (Hering, Farm, Arezzo, Reserva) após a separação é uma incógnita: parte da queda de lucro da companhia combinada pode refletir fatores de mercado mais amplos, não só o desgaste da fusão.
O que observar nas próximas sessões
Vale acompanhar o cronograma de aprovação da reorganização societária, a reação das ações à medida que detalhes da separação forem divulgados, e como cada nova companhia (Arezzo&Co e SOMA) se posiciona perante o mercado depois de listada separadamente no Novo Mercado da B3. A definição final da estrutura societária da Farm Rio — hoje um acordo de 57,4%/42,6% entre as duas partes — também é um ponto a monitorar, assim como eventuais novos capítulos do litígio entre Jatahy e Birman.
Impacto prático para o investidor
- Cisões por conflito societário carregam mais incerteza que separações planejadas: o histórico de embates entre os controladores é um fator de risco adicional a monitorar até a conclusão da reorganização.
- Acompanhar os fundamentos de cada marca isoladamente será mais relevante do que o resultado combinado: com a separação, o desempenho de Hering, Farm, Arezzo e Reserva poderá ser avaliado de forma independente, sem o efeito de diluição cruzada dos resultados.
- Queda de lucro anterior à cisão é um sinal de alerta a acompanhar: a reversão (ou não) dessa tendência nos primeiros balanços de cada nova companhia será um teste importante da tese de separação.
- Processos societários em aberto podem gerar volatilidade adicional até que o litígio entre os blocos controladores tenha um desfecho mais claro.
FAQ
O que é a Azzas 2154?
É o grupo de moda formado em 2024 pela fusão entre a Arezzo&Co e o Grupo Soma, reunindo mais de 30 marcas, entre elas Arezzo, Schutz, Hering, Farm, Animale e Reserva.
O que foi anunciado em 2 de setembro de 2026?
A cisão (divisão) do grupo em duas empresas independentes: a Arezzo&Co, liderada pelo bloco de Alexandre Birman, e a SOMA, liderada pelo bloco de Roberto Luiz Jatahy — ambas a serem listadas separadamente no Novo Mercado da B3.
Qual bloco ficará com a Hering e a Farm?
A Hering e suas extensões ficam com a Arezzo&Co. A Farm Rio e suas extensões formarão uma sociedade própria, dividida entre 57,4% da Arezzo&Co e 42,6% da SOMA.
Por que a Azzas 2154 decidiu se dividir?
O anúncio vem após mais de um ano de instabilidade na governança — incluindo a saída de conselheiros, mudanças na presidência do conselho e um processo judicial de Jatahy contra Birman em maio de 2026 — somado a uma queda de 62,5% no lucro líquido recorrente do 2º trimestre de 2026 frente ao mesmo período de 2025.
Essa cisão está relacionada à história da Arezzo já publicada no site?
Sim. A fusão de 2024 havia apagado o nome “Arezzo” como companhia aberta, substituído por “Azzas 2154”. A cisão agora anunciada faz o nome Arezzo&Co voltar a existir como empresa listada separadamente.
Leia também: A história da Arezzo: da sapataria de família à fusão que apagou o nome e A história do O Boticário: de farmácia de manipulação em Curitiba à disputa acirrada com a Natura.
