Em 2003, a Academia de Hollywood distribuiu pares de Havaianas personalizados para os indicados ao Oscar. No mesmo ano, a Vogue Paris estampou a sandália em suas páginas. Isso não era algo que alguém esperava de um chinelo criado para durar, não para aparecer. Essa é talvez a maior virada de marca da história do consumo brasileiro: como um produto de R$ 10 — desenhado para o trabalhador e o mercado popular — se tornou item de desejo global, vendido em boutiques de Paris e Tóquio, e exportado para mais de 100 países.
1962: a inspiração japonesa e o nascimento da “legítima”
A Havaianas foi lançada em 1962 pela São Paulo Alpargatas, empresa têxtil fundada por escoceses em 1907. O produto era inspirado nas zori, sandálias tradicionais japonesas feitas de palha de arroz — adaptadas para a realidade brasileira com sola de borracha e tiras em “Y”. O nome foi escolhido para evocar o clima tropical: Havaianas, como as ilhas do Havaí.
A proposta era radicalmente simples: um calçado barato, durável, fácil de lavar e acessível para qualquer trabalhador. O preço era equivalente a hoje menos de R$ 5. Em poucos anos, a sandália estava em feiras livres, canteiros de obras, praias e quintais de todo o Brasil.

O slogan “Havaianas — as legítimas” surgiu nos anos 1970 para combater as imitações que proliferavam no mercado. Era, ao mesmo tempo, um posicionamento de autenticidade e um sinal de que a marca havia se tornado cultura. Mas havia um problema crescente: a sandália estava sendo associada unicamente à pobreza. Gente de classe média não usava. Era “chinelo de pobre”.
A crise dos anos 1990 e a maior virada de marca do Brasil
No início dos anos 1990, a Alpargatas estava em crise. As vendas de Havaianas caíam, a marca estava envelhecida e o produto havia perdido prestígio. A empresa contratou a agência de publicidade Almap BBDO para uma tarefa aparentemente impossível: reposicionar um chinelo de R$ 10 como item desejável sem perder o público original.
A estratégia foi ousada e funcionou em três frentes:
- Novas cores e modelos: além do clássico branco com solado azul, foram lançadas versões coloridas, estampadas e com tiras reversíveis — pequenas variações com grande impacto visual
- Campanhas com celebridades: atores e músicos brasileiros passaram a aparecer usando Havaianas em situações sofisticadas. A mensagem: qualquer um pode usar, mas quem quer é quem tem estilo
- Pontos de venda premium: a sandália passou a ocupar espaço em lojas de moda e aeroportos, não apenas em mercados populares
Em 1998, o lançamento da versão com a bandeirinha do Brasil coincidiu com a Copa do Mundo e se tornou o maior sucesso comercial da marca até então. A sandália deixou de ser associada à classe trabalhadora e passou a ser associada ao Brasil — e ao Brasil que o mundo queria conhecer.
A conquista do mundo: de Paris a Tóquio
Nos anos 2000, a Alpargatas tomou uma decisão estratégica contraintuitiva: exportar as Havaianas para mercados premium, não como produto barato, mas como item de moda. A sandália foi posicionada em boutiques internacionais, revistas como Vogue e Elle, e eventos de alto perfil.

Marcos da expansão internacional:
- 2003: presença no Oscar e na Vogue Paris — dois eventos que consolidaram o status fashion da marca
- 2007: abertura da primeira flagship store em São Paulo, no Shopping Iguatemi
- 2010s: lojas próprias em Nova York, Barcelona, Lisboa e Tóquio
- Hoje: presença em mais de 100 países, com receita de exportação representando parcela crescente do faturamento
A operação internacional foi estruturada com uma lógica clara: no Brasil, vende-se volume. No exterior, vende-se marca. Uma Havaianas em uma loja de Paris custa o equivalente a R$ 200 — 20 vezes o preço de uma versão básica no Brasil. Essa dualidade de preço e posicionamento é uma das estratégias de marca mais sofisticadas do varejo global.
Quem está por trás das Havaianas — os bastidores corporativos
As Havaianas são produzidas pela Alpargatas S.A., empresa de capital aberto na B3 (código ALPA3/ALPA4). A trajetória de controle acionário da empresa é ela mesma uma história de negócios:
- Até 2015: controlada pelo Grupo Camargo Corrêa, um dos maiores conglomerados da construção civil brasileira
- 2015–2017: adquirida pelo Grupo J&F (holding controladora da JBS), em meio às investigações da Operação Lava Jato
- A partir de 2017: a Itaúsa — holding de investimentos do grupo Itaú — assumiu o controle da Alpargatas, tornando-se a principal acionista
Hoje, as Havaianas representam cerca de 80% da receita líquida da Alpargatas. A empresa também detém outras marcas de calçados (Mizuno no Brasil, Osklen), mas é a sandália de borracha que move o negócio. Em 2025, a Alpargatas registrou receita bruta de aproximadamente R$ 4,5 bilhões.
Havaianas em 2026: sustentabilidade, inclusão e novos mercados
Em resposta às pressões ambientais e às novas demandas do consumidor global, a Alpargatas vem incorporando sustentabilidade à estratégia das Havaianas:
- Uso crescente de borracha reciclada e matérias-primas de menor impacto ambiental
- Embalagens com menos plástico e materiais recicláveis
- Linhas em parceria com designers indígenas e comunidades tradicionais brasileiras
- Coleções temáticas de diversidade e inclusão, com parte dos lucros destinada a ONGs
No front corporativo, o desafio de 2026 é equilibrar a expansão internacional (ainda há mercados europeus e asiáticos com baixa penetração) com a recuperação de margens no Brasil, pressionadas por câmbio e custos de matéria-prima.
Havaianas em números — o que poucos sabem
- 200 milhões de pares produzidos por ano em média
- 100+ países de presença comercial
- A fábrica principal fica em Campina Grande (PB), maior polo produtor de calçados do Nordeste
- Já houve edição com cristais Swarovski, vendida por mais de R$ 500
- A Academia do Oscar recebeu pares personalizados em 2003
- Em 2021, a marca patrocinou o Carnaval do Rio de forma digital pela primeira vez
- A coleção mais cara já produzida foi estimada em US$ 10.000 o par, para colecionadores
FAQ
Conclusão
Poucas marcas no mundo conseguiram fazer o que as Havaianas fizeram: manter o vínculo com a origem popular enquanto conquistavam as vitrines mais exclusivas do planeta. O segredo não foi abandonar quem usava o produto desde sempre — foi convencer o mundo de que usar o mesmo produto que o Brasil inteiro usa é, na verdade, um símbolo de bom gosto. É brasilidade como estilo de vida. E essa é uma narrativa que o mundo continuou comprando — par a par, em mais de 100 países.
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