Itaipava é de quem? Walter Faria e a história da cervejaria 100% brasileira

A Itaipava é do Grupo Petrópolis, de Walter Faria. Veja como a cerveja nasceu na serra do Rio, as marcas do grupo, a Lava Jato e a recuperação judicial.

Logotipo da cerveja Itaipava sobre fundo vermelho
Logotipo da cerveja Itaipava, principal marca do Grupo Petrópolis. Imagem: Tiago1902/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

A Itaipava é do Grupo Petrópolis, que pertence ao empresário paulista Walter Faria. Ao contrário de Brahma, Skol e Heineken, a cerveja tem dono brasileiro: o grupo se apresenta como a única grande cervejaria do país com capital 100% nacional e a terceira maior do setor. A Itaipava nasceu em 1994, numa pequena fábrica na serra de Petrópolis (RJ), e foi comprada por Faria em 1998.

Neste guia, você vai entender como um ex-distribuidor de cerveja transformou uma marca regional em uma das mais vendidas do Brasil, que outras bebidas o grupo produz, como o dono foi parar na Operação Lava Jato e por que a empresa entrou em recuperação judicial em 2023.

Resposta rápida
Dono da Itaipava: Grupo Petrópolis, do empresário Walter Faria.
Origem: brasileira, criada em 1994 em Pedro do Rio, distrito de Petrópolis (RJ).
Compra por Walter Faria: 1998.
Tamanho: 8 fábricas em 6 estados, mais de 22 mil empregados e 20 marcas, segundo o grupo.
Situação: em recuperação judicial desde março de 2023, com plano aprovado pelos credores.

Quem é o dono da Itaipava?

A Itaipava é a principal marca do Grupo Petrópolis, fundado por Walter Faria. A empresa não tem ações na bolsa e diz ser “a única grande empresa do setor com capital 100% nacional”, segundo a página institucional do grupo. As concorrentes têm donos estrangeiros: a Ambev, das marcas Brahma, Skol e Antarctica, é controlada pela belga AB InBev, e a Heineken é holandesa.

Faria nasceu em Pedranópolis, no interior de São Paulo, e era o caçula de seis filhos. Segundo a história contada pela empresa, aos 9 anos ele já trabalhava com o pai, percorrendo colônias de café numa charrete para vender produtos de armarinho. A charrete, restaurada, fica hoje na recepção do escritório corporativo do grupo, em Boituva (SP).

A família passou depois pelos negócios de suínos, café e algodão, e a charrete deu lugar a uma frota de caminhões. Em 1990, Faria virou distribuidor da cerveja Schincariol, e sua frota chegou a responder por 65% da distribuição da marca, segundo a empresa.

Logotipo do Grupo Petrópolis, que se apresenta como a única grande cervejaria do país com capital 100% nacional.
Logotipo do Grupo Petrópolis, que se apresenta como a única grande cervejaria do país com capital 100% nacional. Imagem: Grupo Petrópolis/Wikimedia Commons, domínio público.

Como a Itaipava nasceu?

A Cervejaria Petrópolis foi inaugurada em 1994 no distrito de Pedro do Rio, em Petrópolis, à beira da BR-040, a estrada que liga o Rio de Janeiro a Juiz de Fora. A fábrica tinha capacidade de cerca de 100 mil hectolitros por ano e produzia uma só cerveja, a Itaipava, vendida no Rio de Janeiro. O nome é o mesmo de Itaipava, distrito vizinho na serra de Petrópolis.

A virada veio em 1998. Faria já conhecia a marca, mas, segundo o grupo, se surpreendeu com o sabor ao tomar uma Itaipava num restaurante da praia de Icaraí, em Niterói. Soube pelo garçom que a receita tinha sido refeita por um mestre cervejeiro alemão, Roland Reis. Foi até a fábrica e propôs comprá-la, com uma condição: Reis teria de continuar na empresa. Ele ficou, e a fábrica de Pedro do Rio, que fazia 100 mil hectolitros, hoje tem capacidade para mais de 6 milhões.

Fachada da cervejaria em Pedro do Rio, distrito de Petrópolis (RJ), onde a Itaipava nasceu em 1994, à beira da BR-040.
Fachada da cervejaria em Pedro do Rio, distrito de Petrópolis (RJ), onde a Itaipava nasceu em 1994, à beira da BR-040. Foto: MisterSanderson/Wikimedia Commons, domínio público.

Como surgiu o Grupo Petrópolis?

Em 1999, Faria comprou uma pequena fábrica em Boituva (SP), onde era produzida a cerveja Crystal, e nasceu o Grupo Petrópolis. Em 2002, Itaipava e Crystal passaram a ser vendidas em todo o país, e o grupo passou a usar o selo higiênico nas latas, que apresenta como uma de suas inovações.

Depois vieram as aquisições e as fábricas novas:

  • 2007: compra da fábrica de Teresópolis (RJ), que fazia as cervejas Lokal e Black Princess. No mesmo ano, foi lançada a Itaipava Premium.
  • 2008: fábrica de Rondonópolis (MT), com capacidade de 4,9 milhões de hectolitros.
  • 2011: compra da Maltería Oriental, no Uruguai, maltaria fundada em 1934 que hoje produz quase todo o malte usado pelo grupo.
  • 2013: primeira fábrica no Nordeste, em Alagoinhas (BA).
  • 2015: fábrica de Itapissuma (PE), com 7,3 milhões de hectolitros. Segundo o grupo, a participação da Itaipava no Nordeste dobrou nesse período.
  • 2020: fábrica de Uberaba (MG), a maior do grupo, com 11,4 milhões de hectolitros.
Entrevista diante de um painel da Itaipava durante visita à fábrica do grupo em Itapissuma (PE), em abril de 2014.
Entrevista diante de um painel da Itaipava durante visita à fábrica do grupo em Itapissuma (PE), em abril de 2014. Foto: Eduardo Braga/SEI-PE/Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

Quais marcas são do Grupo Petrópolis?

Além da Itaipava, o grupo produz as cervejas Petra, Black Princess, Crystal, Lokal, Cabaré e Cacildis. Também fabrica os energéticos TNT e Magneto, a bebida esportiva TNT Sport, os refrigerantes It!, a tônica e a água mineral Petra, a cachaça e as bebidas prontas Cabaré, a vodca Nordka e os drinques Crystal Ice, Blue Spirit Ice e Fest Drinks.

A marca mais antiga do portfólio é a Black Princess: segundo o grupo, a história dela começou em 1882, numa cervejaria de Teresópolis. Os produtos chegam a mais de 500 mil pontos de venda, levados por uma frota de 3 mil caminhões.

Garrafa de Itaipava Malzbier, uma das variações da marca.
Garrafa de Itaipava Malzbier, uma das variações da marca. Foto: Mike Peel/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

O energético TNT ficou conhecido também pelo esporte. Hoje, a bebida esportiva da marca é a oficial de clubes como Flamengo, Santos, Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Atlético-MG e Bahia, segundo o grupo.

Carro de corrida com a marca do energético TNT, um dos produtos do grupo, em foto de 2012.
Carro de corrida com a marca do energético TNT, um dos produtos do grupo, em foto de 2012. Foto: Vitor Conti/Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

Por que o dono da Itaipava foi preso na Lava Jato?

Em 5 de agosto de 2019, Walter Faria foi preso preventivamente por ordem da 13ª Vara Federal de Curitiba, na 62ª fase da Operação Lava Jato. Ele era investigado por lavagem de dinheiro num esquema de pagamento de propinas da empreiteira Odebrecht.

Segundo a denúncia do Ministério Público Federal, divulgada pelo Poder360, o grupo teria ajudado a Odebrecht a pagar propinas entre 2006 e 2014: a empreiteira mandava dinheiro para contas no exterior ligadas a Faria e, em troca, recebia reais em espécie no Brasil. O MPF contou 642 atos de lavagem, com cerca de R$ 1,1 bilhão. A denúncia é uma acusação formal, e não uma condenação.

Em 11 de dezembro de 2019, a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região concedeu habeas corpus a Faria. Para deixar a prisão, ele teve de pagar fiança de R$ 40 milhões e usar tornozeleira eletrônica, além de ficar proibido de sair do país sem autorização, segundo o TRF4.

Por que o Grupo Petrópolis entrou em recuperação judicial?

No fim de março de 2023, o Grupo Petrópolis pediu recuperação judicial à 5ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, com dívidas estimadas em R$ 4,2 bilhões. A recuperação judicial é um processo em que a empresa ganha proteção da Justiça para renegociar o que deve com os credores sem ter os bens executados. O valor depois foi refeito para R$ 5,6 bilhões, segundo fonte ouvida pela Reuters.

Os credores aprovaram o plano de pagamento em assembleia em 11 de setembro de 2023, e a Justiça o homologou em 24 de outubro do mesmo ano. O plano prevê o pagamento parcelado das dívidas em prazos diferentes para cada tipo de credor. O processo continua sob acompanhamento: o administrador judicial publicou em julho de 2026 o 38º relatório mensal sobre as atividades da empresa, segundo a página da recuperação judicial.

Mesmo em recuperação, as fábricas seguiram funcionando. Hoje o grupo informa ter 8 fábricas em 6 estados, mais de 130 centros de distribuição, mais de 22 mil empregos diretos e capacidade de 50 milhões de hectolitros por ano.

Curiosidades sobre a Itaipava

  • Primeira arena com nome de marca: em 2013, o grupo comprou os direitos de nome do estádio da Fonte Nova, em Salvador, construído para a Copa do Mundo. Segundo a empresa, foi o primeiro contrato desse tipo para uma arena de futebol no país.
  • “Areia Quente”: o comercial de 2014, que mostrava até onde o consumidor ia por uma Itaipava gelada, consolidou a praia e o verão como território da marca.
  • Ajuda aos bares: no início da pandemia, em 2020, o grupo destinou mais de R$ 40 milhões a donos de bares e restaurantes fechados, pelo projeto GP Com VC.
  • Malte próprio: em 2018, o grupo lançou a Petra Origem, feita com um malte desenvolvido com a Embrapa.
Vista aérea da Itaipava Arena Fonte Nova, em Salvador, em março de 2013, ano em que o grupo comprou os direitos de nome do estádio.
Vista aérea da Itaipava Arena Fonte Nova, em Salvador, em março de 2013, ano em que o grupo comprou os direitos de nome do estádio. Foto: Portal da Copa/ME/Wikimedia Commons, CC BY 3.0 br.

Para comparar com as concorrentes, leia também as histórias da Ambev, da Heineken no Brasil, do Zé Delivery e da Dolly.

Perguntas frequentes sobre a Itaipava

Quem é o dono da Itaipava?

O Grupo Petrópolis, fundado pelo empresário paulista Walter Faria, que comprou a cervejaria em 1998.

A Itaipava é brasileira?

Sim. A marca nasceu em 1994 em Petrópolis (RJ), e o grupo dono dela se apresenta como a única grande cervejaria do país com capital 100% nacional.

A Itaipava é da Ambev?

Não. A Itaipava é do Grupo Petrópolis, concorrente da Ambev, que é dona de Brahma, Skol e Antarctica.

Quem é Walter Faria?

É o fundador do Grupo Petrópolis. Nascido em Pedranópolis (SP), foi distribuidor da Schincariol antes de comprar a fábrica da Itaipava.

Quais cervejas são do Grupo Petrópolis?

Itaipava, Petra, Black Princess, Crystal, Lokal, Cabaré e Cacildis, além de energéticos, refrigerantes, água e bebidas prontas.

Onde a Itaipava é fabricada?

O grupo tem oito fábricas em seis estados, entre elas Petrópolis e Teresópolis (RJ), Boituva (SP), Rondonópolis (MT), Alagoinhas (BA), Itapissuma (PE) e Uberaba (MG).

O Grupo Petrópolis faliu?

Não. O grupo pediu recuperação judicial em março de 2023, e o plano de pagamento foi aprovado pelos credores e homologado pela Justiça em outubro de 2023. As fábricas seguem funcionando.

Por que Walter Faria foi preso?

Ele foi preso em agosto de 2019, na Lava Jato, investigado por lavagem de dinheiro para a Odebrecht. Saiu em dezembro de 2019, após pagar fiança de R$ 40 milhões.

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