A história da Localiza: de 6 Fuscas financiados à maior locadora da América Latina
Localiza começou em 1973 com 6 Fuscas usados em Belo Horizonte. Hoje soma mais de 677 mil veículos após a fusão com a Unidas. Entenda a trajetória completa.

Em 1973, três sócios em Belo Horizonte não tinham dinheiro para comprar nem um carro à vista. Financiaram seis Fuscas usados, abriram uma pequena loja de aluguel e passaram a dirigir, lavar e consertar os próprios veículos para economizar. Meio século depois, a empresa que eles fundaram é a maior locadora de veículos da América Latina, com mais de 677 mil carros na frota e presença em nove países. Esta é a história da Localiza — dos Fuscas financiados ao pregão da B3.
1973: seis Fuscas financiados em plena crise do petróleo
A Localiza foi fundada por Salim Mattar, Eugênio Pacelli Mattar e Antônio Cláudio Brandão Resende. O nome veio de um trocadilho simples: “localiza” um carro pra alugar.
O timing não podia ser pior no papel. O mundo vivia a primeira grande crise do petróleo, com combustível caro e escasso. Mesmo assim, os três sócios apostaram no negócio — sem capital próprio suficiente, precisaram financiar a frota inicial de seis Fuscas usados.
Não havia dinheiro para funcionários. Os próprios fundadores dirigiam os carros até o cliente, lavavam os veículos entre uma locação e outra e, em algumas fases mais apertadas, chegaram a dormir no escritório para tocar a operação.
Dos Fuscas às franquias: a expansão dos anos 1980
A estratégia de crescimento inicial foi simples de descrever e difícil de executar: expandir para cidades onde a concorrência ainda era fraca ou inexistente, em vez de brigar de frente nos grandes centros já disputados.
Funcionou. Em menos de uma década, a Localiza já era referência nacional no aluguel de carros.
Em 1985, a empresa deu um passo que mudaria sua trajetória de crescimento: começou a operar por franquias, licenciando as seis primeiras unidades fora da estrutura própria. O modelo permitiu multiplicar a presença geográfica sem precisar bancar sozinha o capital de cada nova loja.
2005: a primeira locadora a abrir capital na Bolsa
Em 23 de março de 2005, a Localiza se tornou a primeira empresa de aluguel de carros a abrir capital na bolsa brasileira. A estreia na então Bovespa deu à companhia acesso a um volume de capital que nenhuma concorrente do setor tinha à disposição até ali.
O IPO financiou anos seguidos de expansão de frota e de loja — e colocou a Localiza num patamar de governança e transparência que viraria vantagem competitiva estrutural diante de rivais menores e mais dependentes de dívida bancária.

Copa, Olimpíada e a parceria com a Hertz
Com o Brasil sediando a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada do Rio em 2016, a Localiza investiu pesado na modernização e ampliação da frota para atender ao pico de demanda de turistas e eventos.
Em dezembro de 2016, veio um movimento que ampliou o alcance da marca sem exigir uma expansão física fora do país: uma parceria estratégica de longo prazo com a Hertz, uma das maiores locadoras do mundo.
Pelo acordo, a marca combinada “Localiza Hertz” passou a ser usada no Brasil, enquanto a própria Hertz passou a utilizar a marca Localiza em aeroportos-chave dos Estados Unidos e da Europa que recebem viajantes brasileiros — uma forma inteligente de internacionalizar o reconhecimento da marca sem o custo de montar operação própria fora da América Latina.
A pandemia que testou (e fortaleceu) o modelo de negócio
2020 colocou à prova qualquer empresa dependente de deslocamento de pessoas. Com aeroportos vazios e viagens suspensas, o aluguel de carros foi um dos setores mais afetados pela pandemia no mundo inteiro.
A Localiza precisou reduzir o ritmo de venda de veículos usados para não deixar a frota de locação desguarnecida — o que, por outro lado, aumentou a idade média dos carros em operação e pressionou custos de manutenção no curto prazo.
Mas o mesmo período revelou a força estrutural do negócio de seminovos: com a produção de carros novos travada pela falta de chips e insumos, o preço dos usados disparou. Em 2020, veículos seminovos já respondiam por 83% de todas as vendas de carros no Brasil — e a Localiza, que já vendia seus próprios carros usados havia décadas através da rede própria, estava posicionada exatamente onde a demanda migrou.
2022: a fusão com a Unidas cria a maior locadora da América Latina
Em julho de 2022, depois de mais de um ano de análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a Localiza concluiu a fusão com a Unidas — até então sua principal concorrente direta no mercado brasileiro.
A combinação criou a maior empresa do setor na América Latina, com mais de 470 mil veículos, cerca de 12 milhões de clientes e valor de mercado próximo de R$ 50 bilhões na época da conclusão. Como parte das exigências do Cade para aprovar o negócio, uma parcela dos ativos de locação e de seminovos da Unidas foi repassada à Ouro Verde, evitando concentração excessiva em algumas praças.

A Localiza hoje: os números de 2026
No segundo trimestre de 2026, a Localiza reportou lucro líquido de R$ 1,003 bilhão — alta de 30,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita líquida somou R$ 12,33 bilhões, crescimento de 24,5% na comparação anual.
A frota total encerrou o trimestre em 677,2 mil veículos, 7% maior que um ano antes. A rede de lojas de seminovos, um dos pilares que sustentaram a empresa durante a pandemia, chegou a 269 unidades — 25 a mais que no mesmo período de 2025.
Hoje listada na B3 sob o ticker RENT3 e presente no Ibovespa, a Localiza é negociada como uma das principais empresas do setor de mobilidade da América Latina — um caminho e tanto para quem começou com seis carros financiados.

Por que a história da Localiza importa para o investidor
- Vantagem de escala: quanto maior a frota, menor o custo médio de compra, manutenção e revenda de cada veículo — uma barreira de entrada que fica mais difícil de superar a cada ano.
- Negócio parcialmente contracíclico: a rede de seminovos deu à empresa uma fonte de receita que se comportou de forma diferente do núcleo de locação durante a pandemia, suavizando o impacto do choque.
- Consolidação de mercado: a fusão com a Unidas eliminou a principal concorrente direta e criou uma posição de liderança difícil de contestar no curto e médio prazo.
- Capital aberto desde cedo: ser pioneira em abrir capital, em 2005, deu à Localiza duas décadas de vantagem de acesso a capital mais barato sobre rivais que dependeram mais de dívida bancária.
Conclusão
A trajetória da Localiza é, antes de tudo, uma lição sobre como executar bem uma ideia simples por muito tempo. Alugar carros não é um negócio complexo — mas fazer isso em escala, com disciplina financeira e paciência para consolidar um setor fragmentado, é o que separou a Localiza de dezenas de locadoras regionais que nunca saíram do mercado local.
Dos seis Fuscas financiados em 1973 aos 677 mil veículos de 2026, a empresa nunca deixou de ser, no fundo, o mesmo negócio: colocar o cliente certo dentro do carro certo, no momento certo.
FAQ
Quando a Localiza foi fundada?
Em 1973, em Belo Horizonte, por Salim Mattar, Eugênio Pacelli Mattar e Antônio Cláudio Brandão Resende, com uma frota inicial de seis Fuscas usados e financiados.
A Localiza e a Hertz são a mesma empresa?
Não. São empresas independentes que, desde dezembro de 2016, mantêm uma parceria estratégica de marca: a Localiza usa “Localiza Hertz” no Brasil, e a Hertz usa a marca Localiza em aeroportos dos EUA e da Europa voltados a viajantes brasileiros.
Quando a Localiza abriu capital na bolsa?
Em 23 de março de 2005, tornando-se a primeira locadora de veículos a ter ações negociadas na bolsa brasileira.
O que mudou com a fusão entre Localiza e Unidas?
Concluída em julho de 2022, a fusão criou a maior locadora de veículos da América Latina, com mais de 470 mil veículos e cerca de 12 milhões de clientes na época — consolidando as duas maiores concorrentes diretas do mercado brasileiro em uma única empresa.
Qual o tamanho da frota da Localiza hoje?
Ao final do segundo trimestre de 2026, a frota total somava 677,2 mil veículos, 7% a mais que no mesmo período do ano anterior.
Fontes: Gazeta do Povo, Wikipédia — Salim Mattar, Mercado & Eventos — fusão com a Unidas, LexLatin, InfoMoney — resultados 2T26 e BPMoney — resultados 2T26.
