Itambé é de quem? O dono da marca de leite mineira e a disputa que a levou à Lactalis
A Itambé pertence à francesa Lactalis desde 2019. Veja como a marca criada por cooperativas mineiras passou pela Vigor e virou alvo de disputa.

A Itambé pertence ao grupo francês Lactalis, o mesmo dono de Parmalat e Batavo no Brasil. A marca nasceu de cooperativas de produtores de leite de Minas Gerais, teve metade das ações vendida à Vigor, da J&F, em 2013, e foi parar nas mãos dos franceses depois de uma disputa de quase dois anos, encerrada em julho de 2019.
Quem é o dono da Itambé?
A dona é a Lactalis, grupo de laticínios com sede em Laval, na França. A conclusão da compra foi anunciada em 10 de julho de 2019, depois de uma negociação global com a mexicana Lala, segundo a IstoÉ Dinheiro. Com isso, a Lactalis passou a ter 100% do controle da empresa mineira. Os termos do acordo final não foram divulgados.
No Brasil, a Itambé divide o mesmo dono com marcas como Parmalat e Batavo. Na época, o diretor-presidente da Lactalis para a América Latina, Patrick Sauvageot, justificou a aposta no país: “O consumo per capita de produtos lácteos ainda é muito pequeno no Brasil”.

A Itambé é brasileira?
A marca é mineira; a dona é francesa. A Itambé foi criada pela Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (CCPR), uma central de cooperativas de produtores de leite. A origem está em uma crise de abastecimento de leite em Belo Horizonte: em 1948, lideranças de seis cooperativas do interior aceitaram o convite do governo de Minas para assumir a usina estatal que abastecia a capital, segundo reportagem do Compre Rural. Em maio de 1949, saiu o primeiro carregamento de garrafas de leite para as padarias da cidade.
A CCPR cresceu até reunir 31 cooperativas de Minas Gerais e Goiás, com 8,5 mil famílias de cooperados, segundo dados de 2017. A marca Itambé, criada pela central no início dos anos 1950, segundo a Exame, tornou-se uma das marcas mais conhecidas do país.
A situação lembra a de outras marcas que nasceram no Brasil e hoje têm dono estrangeiro, como a Elma Chips e a Pullman. Na direção oposta, a Piracanjuba, outra gigante do leite, continua com uma família goiana.
2013: a Vigor compra metade da Itambé
Em 2013, a CCPR vendeu 50% da Itambé à Vigor Alimentos, empresa de lácteos da J&F, holding dos irmãos Batista, também donos da JBS. O negócio foi de R$ 410 milhões, como noticiou a Exame, e avaliou a Itambé em R$ 820 milhões. Vigor e CCPR assinaram um acordo de acionistas com direito de preferência em caso de venda.
Essa cláusula seria decisiva quatro anos depois.
2017: a venda da Vigor e a reviravolta da CCPR
Em 3 de agosto de 2017, a mexicana Lala fechou acordo com os controladores da Vigor para comprar a empresa. O pacote incluía a fatia de 50% na Itambé. A CCPR, então, foi chamada a escolher: vender sua metade ou comprar a da Vigor nas mesmas condições. Em 20 de setembro de 2017, a cooperativa anunciou que exerceria o direito de preferência e compraria a outra metade.
O desfecho surpreendeu o mercado. Segundo a cronologia publicada pela Exame:
- 4 de dezembro de 2017: a CCPR deposita R$ 552 milhões, valor da oferta de R$ 700 milhões descontadas as dívidas, e fica com 100% da Itambé;
- 5 de dezembro de 2017: menos de 24 horas depois, a cooperativa anuncia a venda de 100% da Itambé à Lactalis. O valor não foi divulgado; a revista estimou cerca de R$ 1,9 bilhão;
- 15 de dezembro de 2017: a Vigor entra na Justiça contra a CCPR e contra a Lactalis;
- 29 de janeiro de 2018: o Cade aprova a compra pela Lactalis.

A briga na Justiça e o acordo de 2019
A disputa se arrastou entre tribunais e arbitragem. Em janeiro de 2018, o desembargador Cesar Ciampolini, do Tribunal de Justiça de São Paulo, validou a compra pela CCPR e a venda à Lactalis, mas determinou que os franceses não poderiam assumir a gestão até a decisão de um tribunal arbitral.
O impasse só terminou com uma negociação direta entre os grupos envolvidos. Em 10 de julho de 2019, a Lactalis anunciou que havia concluído a compra a partir de um acordo global com a Lala, que resolveu a transferência de 100% do controle da Itambé. Na mesma negociação, a Lala encerrou a parceria que mantinha com a Parmalat no México, segundo a IstoÉ Dinheiro.

Quem é a Lactalis?
A Lactalis foi fundada em 1933 por André Besnier, em Laval, onde fez seus primeiros queijos camembert. A empresa continua sob controle da família Besnier: segundo a Bloomberg, os três irmãos Jean-Michel, Emmanuel e Marie Besnier são os donos do grupo, e Emmanuel Besnier o comanda desde 2000.
É hoje um dos maiores grupos de laticínios do mundo: em 2021, chegou ao topo do ranking global do setor feito pelo Rabobank, também segundo a Bloomberg. Em 2025, ultrapassou a marca de 31 bilhões de euros em vendas, de acordo com a revista francesa LSA.
Em Minas Gerais, onde a Lactalis tem fábricas como as de Sete Lagoas, Pará de Minas e Uberlândia, o grupo anunciou em 2025 investimentos de cerca de R$ 500 milhões até 2027, segundo a Rádio Santa Cruz, de Pará de Minas.

Perguntas frequentes sobre a Itambé
Quem é o dono da Itambé?
O grupo francês Lactalis, que concluiu a compra de 100% da empresa em julho de 2019.
A Itambé é brasileira?
A marca nasceu em Minas Gerais, criada pela Cooperativa Central dos Produtores Rurais (CCPR). Desde 2019, pertence à Lactalis, da França.
A Itambé era da JBS?
Em parte. Entre 2013 e 2017, 50% da Itambé pertencia à Vigor, empresa de lácteos da J&F, holding que também controla a JBS. A outra metade era da CCPR.
Por que a venda da Itambé foi parar na Justiça?
Porque a CCPR exerceu o direito de comprar a metade da Vigor e, no dia seguinte, vendeu 100% da Itambé à Lactalis. A Vigor, que estava sendo comprada pela Lala, contestou as operações na Justiça. O caso só terminou com um acordo global entre Lactalis e Lala, em 2019.
Itambé, Parmalat e Batavo são da mesma empresa?
Sim. As três marcas pertencem ao grupo Lactalis no Brasil.
Imagem de capa: logotipo da Itambé. Wikimedia Commons, domínio público (logotipo apenas tipográfico). Marca registrada da empresa.