A história da JBS: do açougue em Goiás à maior processadora de proteínas do mundo

A história completa da JBS: do pequeno açougue de 1953 ao "Joesley Day" que derrubou a bolsa, passando pelas aquisições da Swift e Pilgrim's Pride até a listagem na NYSE em 2025.

A história da JBS: do açougue em Goiás à maior processadora de proteínas do mundo

Poucas empresas brasileiras concentram tanta escala e tanto drama quanto a JBS: nasceu em 1953 como um pequeno açougue no interior de Goiás e hoje é a maior processadora de proteína animal do planeta, com operações em 20 países. Pelo caminho, a companhia protagonizou um dos episódios mais explosivos da história recente do mercado financeiro brasileiro — o “Joesley Day”, que derrubou o Ibovespa e quase pôs fim a um governo — e, quase uma década depois, se tornou a primeira gigante brasileira de carnes a ter ações negociadas na Bolsa de Nova York. Este é o histórico completo por trás da JBS.

1953: o açougue de Zé Mineiro em Anápolis

A história começa em 1953, em Anápolis, interior de Goiás, quando José Batista Sobrinho — conhecido como “Zé Mineiro” — abriu um pequeno açougue com capacidade para abater cinco cabeças de gado por dia. O primeiro grande salto veio com a construção de Brasília, no fim daquela década: o pequeno negócio passou a fornecer carne para os canteiros de obras da nova capital, ganhando escala pela primeira vez.

Em 1970, a aquisição de uma unidade em Formosa (GO) deu origem à marca Friboi, e a operação seguiu crescendo dentro do Brasil ao longo das décadas seguintes, sob comando da família Batista.

Foto histórica em preto e branco de José Batista Sobrinho, o Zé Mineiro, fundador da JBS, entregando um prêmio em 1973
José Batista Sobrinho, o “Zé Mineiro”, fundou a JBS em 1953 com um pequeno açougue em Anápolis (GO). Foto de 1973, poucos anos após a criação da marca Friboi.

Dos anos 1990 ao IPO: a virada internacional

A partir dos anos 1990, já com os filhos de Zé Mineiro à frente dos negócios, a empresa passou a mirar mercados internacionais. Em 1996, a aquisição de uma planta do grupo Anglo em Goiânia abriu caminho para as primeiras exportações relevantes. O marco seguinte veio em 2007: a JBS abriu capital na Bolsa de Valores de São Paulo, no que foi, à época, o maior IPO já registrado no mercado brasileiro.

O capital captado financiou uma sequência de aquisições que mudou de patamar a companhia:

  • Swift & Company (2007): por US$ 1,4 bilhão, a JBS entrou nos Estados Unidos comprando uma das maiores processadoras de carne bovina e suína do país.
  • Bertin (2009): a fusão com o grupo brasileiro Bertin tornou a JBS a maior produtora de carne bovina do mundo, além de abrir a porta para o setor de couro.
  • Pilgrim’s Pride (2009): por US$ 800 milhões, a JBS assumiu participação majoritária numa das maiores produtoras de frango do mundo, entrando de vez no segmento de aves.

O resultado dessa onda de aquisições foi uma companhia global, com atuação na América do Norte e do Sul, África, Europa, Rússia, China e Austrália — hoje somando mais de 250 unidades produtivas em cerca de 20 países e um portfólio com mais de 150 marcas.

2017: o “Joesley Day” que parou a bolsa brasileira

Em 17 de maio de 2017, veio à tona o episódio que ficaria conhecido como “Joesley Day”. Joesley Batista, um dos donos da JBS, havia gravado secretamente uma conversa com o então presidente Michel Temer como parte de um acordo de delação premiada firmado com o Ministério Público — a estratégia da família Batista para reduzir penas em investigações de corrupção e lavagem de dinheiro.

No áudio divulgado, Temer teria dado aval para a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, sobre irregularidades que envolviam aliados do governo — segundo a delação de Joesley, ao comentar sobre a boa relação entre os dois, Temer teria dito “tem que manter isso” em referência a Cunha. A revelação do áudio gerou uma crise política que colocou em xeque a permanência do próprio presidente e travou, naquele momento, a votação da reforma da Previdência então em curso no Congresso.

No pregão seguinte, o pânico tomou conta dos investidores: o Ibovespa chegou a cair mais de 10% no dia, acionando o circuit breaker da B3 — mecanismo que ficou quase 10 anos sem ser utilizado até aquele momento. Foi um dos dias mais voláteis da história recente do mercado brasileiro, e o nome do próprio dono da JBS batizou o episódio.

2025: a JBS chega à Bolsa de Nova York

Quase uma década depois do Joesley Day, a JBS deu um novo passo histórico: a dupla listagem em Nova York. O processo passou por aprovações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que autorizou o registro da JBS N.V. como emissora estrangeira e o programa de BDRs de Nível 2, e da própria B3. Acionistas minoritários aprovaram a proposta em assembleia extraordinária em 23 de maio de 2025, e a implementação ocorreu em 13 de junho daquele ano — data em que as ações da JBS estrearam oficialmente na New York Stock Exchange (NYSE).

O processo não foi isento de resistência: o BNDES, acionista da companhia e que vinha reduzindo sua participação ao longo dos anos, se posicionou contra a operação em alguns momentos. Ainda assim, a estrutura final manteve a JBS listada no Brasil via BDRs na B3, com as ações propriamente ditas passando a negociar também em Nova York — um movimento que buscava aproximar a companhia de índices americanos de maior peso, como o S&P 500.

Fachada da New York Stock Exchange (NYSE) em Wall Street, Nova York, onde as ações da JBS passaram a ser negociadas a partir de junho de 2025
Em 13 de junho de 2025, a JBS se tornou a primeira grande processadora de carnes brasileira a ter ações negociadas na NYSE, mantendo também a listagem via BDRs na B3.

2026: recorde de receita, prejuízo pontual e troca de comando

A JBS segue em ritmo de crescimento mesmo sob pressão de custos. No segundo trimestre de 2026, a receita cresceu 14% na comparação anual, atingindo US$ 23,9 bilhões — recorde para o período na história do grupo. Ainda assim, a companhia registrou prejuízo líquido de US$ 102 milhões no trimestre, revertendo o lucro de US$ 528 milhões do mesmo período do ano anterior, atribuído a efeitos não recorrentes e à oferta ainda baixa de gado nos Estados Unidos, que pressiona as margens do negócio de carne bovina americana.

Sob a gestão do CEO global Gilberto Tomazoni, que deixa o comando, a receita da JBS cresceu 73% — de US$ 49,7 bilhões para US$ 86,2 bilhões —, com diversificação de proteínas, fortalecimento de marcas, avanço em biotecnologia, conquista de grau de investimento e a própria conclusão da listagem na NYSE. A partir de janeiro de 2027, Wesley Batista Filho — da terceira geração da família fundadora — assume como novo CEO global, à frente de uma operação com cerca de R$ 180 bilhões em receita, 282 mil funcionários e presença em 20 países.

Erros comuns sobre a história da JBS

  • Achar que Friboi e JBS são marcas diferentes e sem relação: Friboi é a marca de carne bovina no varejo brasileiro, nascida em 1970 — a JBS é o grupo controlador, hoje dono de mais de 150 marcas ao redor do mundo.
  • Confundir o “Joesley Day” com um problema exclusivo da JBS: o episódio de 2017 foi, antes de tudo, uma crise política nacional — a JBS foi o ponto de origem, mas o impacto de mercado (circuit breaker, queda do Ibovespa) atingiu a bolsa como um todo, não só as ações da própria companhia.
  • Achar que a JBS saiu da B3 ao listar na NYSE: a companhia manteve a listagem no Brasil via BDRs — a dupla listagem soma um mercado ao outro, não substitui.
  • Achar que o negócio de carnes é imune a ciclo: mesmo com receita recorde, a JBS reportou prejuízo pontual no 2T26 por causa da oferta de gado mais baixa nos EUA — o setor de proteína animal é sensível a ciclos de pecuária que fogem do controle direto da empresa.

Conclusão

Da capacidade de abater cinco cabeças de gado por dia em 1953 aos 282 mil funcionários e à presença em 20 países de hoje, a trajetória da JBS combina crescimento por aquisições agressivas (Swift, Bertin, Pilgrim’s Pride) com dois momentos que marcaram a história do mercado financeiro brasileiro: o “Joesley Day” de 2017, que expôs o lado mais turbulento do controle familiar da companhia, e a listagem na NYSE em 2025, que simboliza sua consolidação como player global. Para quem acompanha o mercado, a JBS é um lembrete de que crescimento em escala e governança corporativa nem sempre andam juntos — e de que até episódios de crise política extrema, como o de 2017, podem ficar gravados na história de uma única empresa.

FAQ

Quando a JBS foi fundada?

Em 1953, em Anápolis (GO), por José Batista Sobrinho, o “Zé Mineiro”, como um pequeno açougue com capacidade para abater cinco cabeças de gado por dia.

O que foi o “Joesley Day”?

Foi o episódio de 17 de maio de 2017 em que veio à tona uma gravação feita por Joesley Batista, dono da JBS, de uma conversa com o então presidente Michel Temer, como parte de um acordo de delação premiada. A revelação gerou uma crise política e derrubou o Ibovespa em mais de 10% no pregão seguinte, acionando o circuit breaker da B3 pela primeira vez em quase 10 anos.

Quando a JBS passou a ser negociada na Bolsa de Nova York?

Em 13 de junho de 2025, após aprovação da CVM, da B3 e dos acionistas minoritários em assembleia realizada em 23 de maio daquele ano. A companhia manteve, ao mesmo tempo, a listagem no Brasil via BDRs na B3.

Qual a diferença entre Friboi e JBS?

Friboi é uma marca de carne bovina do grupo, criada em 1970. JBS é o nome da holding controladora, hoje dona de mais de 150 marcas em todo o mundo — incluindo Friboi, Swift, Pilgrim’s Pride, entre outras.

Quem comanda a JBS hoje?

Gilberto Tomazoni encerra seu ciclo como CEO global após um período de forte crescimento (receita cresceu 73%). A partir de janeiro de 2027, assume Wesley Batista Filho, da terceira geração da família fundadora.

Leia também: Circuit breaker, after market e leilão: como funcionam e A história da CSN: a siderúrgica que disputou o controle com a Vale.

Fontes: Migalhas — de açougue a líder global multiproteínas, Metrópoles — 70 anos: como a JBS se tornou uma das maiores empresas do mundo, Suno — o que aconteceu no Joesley Day, JBS — dupla listagem aprovada em assembleia e Seu Dinheiro — o desafio de Wesley Batista Filho na liderança global da JBS.

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