A história do Outback no Brasil: a Austrália inventada por americanos que virou a joia mais rentável de um fundo brasileiro
O Outback Steakhouse nasceu de um tema "australiano" inventado por quatro sócios americanos inspirados no filme Crocodilo Dundee. No Brasil desde 1997, virou o mercado mais rentável da marca fora dos EUA — tão lucrativo que, em 2024, um fundo brasileiro comprou o controle da operação e a rebatizou Bold Hospitality Company.

Atualizado em: 12 de setembro de 2026
O Outback Steakhouse nasceu de um tema completamente inventado: quatro sócios americanos que nunca tinham posto os pés na Austrália decidiram vestir seus restaurantes de “cultura australiana” só porque o filme “Crocodilo Dundee” fazia sucesso nos cinemas. Quase quatro décadas depois, essa Austrália de mentirinha se tornou, no Brasil, um negócio tão lucrativo que passou a valer mais que muita empresa “de verdade” — tanto que, em 2024, um fundo de investimento brasileiro comprou o controle da operação e trocou até o nome da dona da marca no país.
1988: quatro americanos inventam uma Austrália que não existe
O Outback Steakhouse abriu as portas em 15 de março de 1988, em Tampa, na Flórida, fundado por Bob Basham, Chris T. Sullivan, Tim Gannon e Trudy Cooper. Nenhum dos quatro era australiano ou tinha qualquer ligação com o país — a ambientação “outback” (termo que designa o interior remoto da Austrália) foi escolhida porque o filme “Crocodilo Dundee” (1986) fazia sucesso de bilheteria nos Estados Unidos na época. O prato mais famoso da casa reforça a brincadeira: a “Bloomin’ Onion”, uma cebola cortada em pétalas e frita por inteiro, não é um prato australiano nem costuma ser vendida em restaurantes na Austrália fora da própria rede — é uma invenção americana com sotaque australiano de fachada, assim como as populares “Aussie Cheese Fries”.
1997: a “Casinha” da Barra da Tijuca chega para ficar
O Outback chegou ao Brasil em 1997, com a primeira unidade na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro — restaurante que o público carioca logo apelidou de “Casinha”, por causa da arquitetura de rancho que destoava dos shoppings ao redor. Diferente da maioria dos concorrentes de fast-food e casual dining já contados por aqui, que chegaram ao país via master franquia entregue a um empresário local, o Outback nunca funcionou como franquia clássica no Brasil: a operação sempre foi tocada em regime de sociedade direta com a própria dona da marca nos Estados Unidos, a Bloomin’ Brands, com lojas próprias em vez de unidades franqueadas espalhadas por donos independentes.

2015-2020: o Brasil vira laboratório de novas marcas
Em vez de só replicar o cardápio americano, a operação brasileira passou a criar e testar conceitos próprios. Em 2015, a Bloomin’ Brands trouxe ao país a Abbraccio, rede de cozinha italiana inspirada na americana Carrabba’s Italian Grill, mas construída com identidade e cardápio pensados especificamente para o consumidor brasileiro. Anos depois, em plena pandemia, surgiu a Aussie Grill, marca 100% virtual — sem loja física própria, operando só por delivery a partir de cozinhas compartilhadas em São Paulo — testando o formato ghost kitchen num momento em que o público evitava sair de casa. As duas marcas nunca chegaram ao tamanho do Outback, mas mostram como o Brasil deixou de ser só um mercado consumidor e passou a ser também um laboratório de novos formatos para o grupo americano.

O mercado mais rentável fora dos Estados Unidos
Décadas depois da chegada tímida à Barra da Tijuca, o Brasil se tornou o segundo maior mercado do Outback no mundo, atrás só dos próprios Estados Unidos — e um dos mais lucrativos de toda a operação global da Bloomin’ Brands, respondendo por cerca de 15% da receita total do grupo. Um dado ilustra bem esse peso: o Distrito Federal, sozinho, já foi apontado pela própria companhia como o terceiro maior mercado da marca no mundo, atrás só de estados americanos populosos. Até 2024, a operação brasileira somava cerca de 200 unidades — 174 do próprio Outback, 17 da Abbraccio e 2 da Aussie Grill —, faturando mais de R$ 3 bilhões por ano com um Ebitda próximo de R$ 300 milhões, tudo em lojas próprias, sem nenhuma unidade franqueada.
Novembro de 2024: um fundo brasileiro compra a joia da coroa
Foi justamente essa rentabilidade que atraiu o comprador. Em 8 de novembro de 2024, a gestora brasileira Vinci Partners fechou a compra de 67% do capital da operação brasileira do Outback, Abbraccio e Aussie Grill, num negócio avaliado em R$ 2,057 bilhões — múltiplo de 6,5 vezes o Ebitda da companhia. A americana Bloomin’ Brands manteve os 33% restantes, mas com uma cláusula que aponta para o futuro: um put option que garante à americana o direito de vender essa fatia remanescente à própria Vinci em 2028, por um valor ainda não divulgado. Na prática, a Bloomin’ Brands abriu a porta para, dali a poucos anos, sair de vez do país que virou seu mercado mais rentável fora de casa.

2025-2026: nasce a Bold Hospitality Company
Sete meses depois da compra, em junho de 2025, a empresa controladora das marcas no Brasil trocou de nome: de “Bloomin’ Brands do Brasil” para Bold Hospitality Company (BHC), batismo que marca a virada de página sob controle majoritário da Vinci. Os planos declarados pela nova gestão são ambiciosos — quase dobrar o número de unidades no país nos próximos anos, saindo de cerca de 200 para mais de 300 ou 400 lojas, com 15 novas aberturas previstas só em 2025, incluindo a chegada a Manaus. A meta de faturamento para 2025 é de R$ 3,2 bilhões. Quatro décadas depois de quatro americanos inventarem uma Austrália de mentirinha inspirados num filme de cinema, o negócio virou realidade demais para continuar 100% americano: hoje sua fatia mais valiosa pertence a um fundo brasileiro, com a porta aberta para, em poucos anos, virar uma empresa brasileira de ponta a ponta.
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Fontes: Wikipédia (português e inglês) — fundação do Outback Steakhouse em 1988, tema australiano inspirado em “Crocodilo Dundee”; Mercado&Consumo, site institucional Outback Brasil, Revista USE — chegada ao Brasil em 1997, primeira loja na Barra da Tijuca (“Casinha”), modelo de sociedade direta sem franquia; Exame, Outback Brasil (releases oficiais) — lançamento da Abbraccio (2015) e da Aussie Grill (formato virtual); Correio Braziliense, InfoMoney — Brasil como 2º maior mercado global e Distrito Federal como 3º maior mercado da marca; Brazil Journal, Poder360, Exame Insight, ANR Brasil, Administradores.com, Revista Oeste — compra de 67% do capital pela Vinci Partners em novembro de 2024 (R$ 2,057 bilhões, múltiplo de 6,5x Ebitda, put option de 2028 para a Bloomin’ Brands); Mercado&Consumo, Saipos, InvestNews — rebatismo para Bold Hospitality Company em junho de 2025 e planos de expansão para 2025-2026.
