A história do Burger King no Brasil: do pecuarista que trouxe a marca ao fundo árabe que hoje controla a Zamp

O Burger King chegou ao Brasil em 2004 pelas mãos de um pecuarista paulista. Duas décadas depois, a operação virou a Zamp, dona também de Popeyes, Starbucks e Subway no país — e hoje é controlada por um fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos.

A história do Burger King no Brasil: do pecuarista que trouxe a marca ao fundo árabe que hoje controla a Zamp

Poucas empresas resumem tão bem a globalização do capital quanto a dona do Burger King no Brasil: a marca chegou ao país pelas mãos de um pecuarista paulista, passou ao controle dos mesmos bilionários brasileiros que compraram a rede no mundo todo, abandonou o próprio nome “Burger King Brasil” para virar Zamp — e hoje tem como maior acionista um fundo soberano de investimentos de Abu Dhabi. Pelo caminho, a empresa também engoliu rivais históricos do fast-food e do café, reunindo sob o mesmo teto marcas que competem entre si em qualquer outro país do mundo.

2004: um pecuarista traz o Burger King ao Brasil

O Burger King desembarcou oficialmente no Brasil em novembro de 2004, pelas mãos do empresário e pecuarista paulista Luiz Eduardo Batalha, que assumiu a master franquia da marca no país. As três primeiras lojas abriram em shopping centers de São Paulo, estrategicamente ao lado ou de frente para unidades do McDonald’s — rival que já dominava o mercado brasileiro de fast-food havia quase três décadas. Apesar da estreia, o crescimento nos primeiros anos foi lento: sem o mesmo poder de fogo publicitário e imobiliário do concorrente, o Burger King levou seis anos para sair do lugar, acumulando poucas dezenas de lojas espalhadas por um punhado de capitais.

Fachada iluminada do letreiro Burger King em uma loja de shopping center no Recife, com painéis de cardápio ao fundo
Uma das lojas da primeira leva de expansão do Burger King no Brasil, ainda no fim dos anos 2000 — período de crescimento lento antes da virada de 2010-2011.

2010-2011: os próprios donos da marca assumem a operação brasileira

A virada começou fora do Brasil. Em setembro de 2010, o fundo brasileiro 3G Capital — dos bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto “Beto” Sicupira — comprou o Burger King no mundo inteiro, numa das maiores aquisições já feitas por investidores brasileiros no exterior. Menos de um ano depois, em junho de 2011, a 3G se associou à gestora carioca Vinci Partners, do banqueiro Gilberto Sayão, para assumir também a master franquia da marca em solo brasileiro, criando a “BK Brasil”. Na prática, os mesmos brasileiros donos do Burger King no mundo passaram a controlar a operação do país — movimento que profissionalizou a gestão, acelerou a abertura de lojas e transformou a rede, enfim, numa concorrente de peso para o McDonald’s.

2017-2022: IPO, Popeyes e o fim do nome “Burger King Brasil”

Em 18 de dezembro de 2017, a BK Brasil estreou na B3 sob o ticker BKBR3, precificada a R$ 18 por ação, numa oferta que levantou R$ 2,2 bilhões — uma das maiores aberturas de capital do varejo brasileiro daquele ano. O capital da bolsa financiou a próxima etapa da estratégia: em 2018, a empresa trouxe ao Brasil a rede americana de frango frito Popeyes, um ano depois de a marca ser comprada globalmente pela Restaurant Brands International. Com duas bandeiras de fast-food sob o mesmo guarda-chuva, o nome “Burger King Brasil” já não fazia mais sentido — em 2022, a companhia se renomeou Zamp, um nome neutro o suficiente para abrigar qualquer marca que viesse a se juntar ao grupo depois.

Logo oficial do Burger King, adotado globalmente em 2020, com o pão em duas metades ao redor do nome da marca
O logo do Burger King foi redesenhado globalmente em 2020 — a mesma identidade visual usada hoje nas lojas brasileiras, já sob controle da Zamp.

2024: a Zamp compra dois rivais históricos, Starbucks e Subway

O ano de 2024 concentrou os movimentos mais agressivos da história recente da empresa. A Zamp assumiu a operação da Subway no Brasil e, meses depois, comprou também a operação brasileira da Starbucks — até então gerida pela SouthRock Capital, que havia pedido recuperação judicial em outubro de 2023 após acumular uma dívida de R$ 1,8 bilhão. A Zamp pagou R$ 101,8 milhões pela rede de cafeterias, concluindo o negócio em outubro de 2024. O resultado é um arranjo pouco comum no varejo mundial: a mesma empresa que administra o Burger King — arqui-rival histórico do Starbucks no imaginário do consumidor americano — passou a ser dona das duas marcas dentro de um único país, ao lado de Popeyes e Subway.

2024: o controle passa a um fundo soberano dos Emirados Árabes

Enquanto a Zamp diversificava seu portfólio de marcas, sua própria estrutura de controle também mudava de mãos. Em fevereiro de 2024, a Mubadala Investment Company — fundo soberano de investimentos de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos — comprou 58,3% do capital da companhia, tornando-se acionista majoritária. A operação fechou o círculo de uma história que começou com um pecuarista paulista, passou pelas mãos dos bilionários brasileiros que já eram donos da marca no mundo todo, e terminou sob o controle de um fundo estatal do Golfo Pérsico — o mesmo tipo de investidor que hoje financia estádios de futebol, clubes europeus e projetos de infraestrutura ao redor do planeta.

Interior de uma loja Burger King em São Paulo decorada em tons de rosa para uma ação promocional da marca Barbie, com um carro conversível cor-de-rosa em exposição
Ação promocional da Barbie dentro de uma loja Burger King em São Paulo, em 2023 — exemplo do tipo de parceria de marketing que passou a movimentar as lojas da marca no Brasil.

Hoje: prejuízo, virada e o novo mapa do fast-food brasileiro

A transição de controle não poupou a Zamp de um período turbulento. No segundo trimestre de 2025, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 73 milhões, mesmo com receita líquida de R$ 1,3 bilhão no período — alta de 16% sobre o ano anterior. O quadro começou a virar no fim do ano: no quarto trimestre de 2025, a Zamp voltou ao azul, com lucro líquido de R$ 31,4 milhões e Ebitda ajustado de R$ 186,5 milhões, salto de 72% na comparação anual. Ao final de 2025, o grupo somava 2.645 restaurantes no Brasil entre as quatro bandeiras — Burger King, Popeyes, Starbucks e Subway —, sendo 894 lojas próprias e 1.751 operadas por franqueados. Duas décadas depois da chegada tímida ao lado do McDonald’s, a empresa que um pecuarista trouxe ao país se tornou, sob comando de um fundo do Golfo, uma das maiores operadoras de restaurantes do Brasil — só que sem mais carregar o nome do próprio hambúrguer que a fez famosa.

Leia também: A história da Starbucks: da lojinha de grãos em Seattle à crise da SouthRock no Brasil, A história do Bob’s: o campeão de Wimbledon que trocou o tênis por uma sorveteria e criou o primeiro fast-food do Brasil, A história do McDonald’s no Brasil: como um franqueado da Argentina virou dono de toda a América Latina e A história do Habib’s: do médico que virou dono de rede de esfirras ao maior fast-food árabe do mundo.

Fontes: Wikipédia (português e inglês) — Zamp/Burger King Brasil; Exame, ABF, ISTOÉ Dinheiro, Forbes Brasil — chegada ao Brasil em 2004, entrada da 3G Capital e da Vinci Partners em 2010-2011; Terra, InfoMoney — IPO da BK Brasil na B3 em dezembro de 2017; PitchBook, Wikipédia — rebranding para Zamp em 2022, aquisição da Popeyes; Mercado&Consumo, Forbes Brasil, ConJur, Exame, EuQueroInvestir, Meio&Mensagem — crise da SouthRock e aquisição da Starbucks Brasil e da Subway pela Zamp em 2024; Wikipédia, PitchBook — compra de 58,3% do capital pela Mubadala Investment Company em fevereiro de 2024; Seu Dinheiro, Análise de Ações, Investidor10 — resultados financeiros do 2º e 4º trimestres de 2025 e número de restaurantes.

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