A história da Vivara: do ateliê de um imigrante romeno à joalheria batizada com o nome de uma ilha italiana

David Kaufman abriu um pequeno ateliê de joias no centro de São Paulo em 1962. Seis décadas depois, a Vivara é a maior rede de joalherias do Brasil, negociada na B3 — e batizada com o nome de uma ilha italiana escolhida só pelo som.

A história da Vivara: do ateliê de um imigrante romeno à joalheria batizada com o nome de uma ilha italiana

Atualizado em: 11 de setembro de 2026

O nome que hoje estampa mais de 300 lojas em shoppings de todo o país não veio de um sobrenome de família nem de uma homenagem ao Brasil — veio do som de uma pequena ilha vulcânica no litoral da Itália, escolhida décadas depois de a empresa já existir. Entre esse detalhe curioso e o pregão da B3, a Vivara percorreu um caminho que começou num ateliê de fundo de loja no centro de São Paulo, passou pela decisão de fabricar suas próprias joias em vez de só revendê-las, e chegou a uma marca de entrada de preço pensada para conquistar clientes ainda na adolescência.

1962: o imigrante romeno que cortava diamantes na Rua 7 de Abril

A história começa com David Kaufman, imigrante judeu de origem romena que chegou ao Brasil no período pós-Segunda Guerra Mundial trazendo consigo gerações de tradição familiar em joalheria. Em 1962, ele abriu um pequeno ateliê na Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo, onde lapidava diamantes com precisão artesanal e desenvolvia peças sob encomenda para clientes da região. A proposta era simples e ambiciosa ao mesmo tempo: oferecer joias com a mesma excelência de acabamento dos antigos mestres ourives europeus, mas produzidas ali mesmo, no Brasil. O pequeno negócio de joias em ouro 18 quilates ainda não tinha o nome pelo qual seria conhecido no futuro — por quase uma década e meia, foi só o ateliê de David Kaufman.

Foto histórica em preto e branco de um ourives lapidando um diamante com ferramentas manuais sobre uma bancada de trabalho
Foto de arquivo (Amsterdã, 1932) ilustra a tradição artesanal de lapidação de diamantes que trouxe a família Kaufman ao ramo de joias no Brasil.

Década de 1970: o filho assume e batiza a marca com o nome de uma ilha italiana

Em meados da década de 1970, Nelson Kaufman, filho de David, assumiu o comando do ateliê e conduziu sua profissionalização. Foi ele quem deu à empresa o nome que ela carrega até hoje: Vivara, inspirado numa pequena ilha vulcânica desabitada do golfo de Nápoles, próxima a Procida, na Itália. Não há vínculo familiar nem histórico com o lugar — a escolha foi puramente sonora, porque, segundo relatos da própria empresa, o nome “soava bem” combinado ao negócio de joias. É uma origem incomum entre marcas brasileiras de consumo: nenhuma homenagem a fundador, cidade natal ou tradição nacional, só uma palavra estrangeira que agradou ao ouvido de quem estava reformulando o negócio da família.

1992: a fábrica na Zona Franca de Manaus e a aposta na verticalização

O salto que transformaria a Vivara de joalheria de bairro em rede nacional veio com uma decisão estrutural: em 1992, a empresa inaugurou sua própria fábrica na Zona Franca de Manaus, passando a produzir internamente a esmagadora maioria do que vende — hoje, cerca de 80% dos produtos comercializados nas lojas saem dessa planta própria. Verticalizar a produção, em vez de comprar joias prontas de terceiros para revender, deu à Vivara um controle raro sobre custo, prazo e qualidade — vantagem competitiva que poucas redes de joalheria no Brasil conseguiram replicar na mesma escala. A fábrica de Manaus também abriu caminho para a diversificação: em 2003, a empresa lançou sua própria linha de relógios, ampliando o portfólio para além dos metais preciosos e pedras.

Anel de ouro 18 quilates cravejado com cinco diamantes, fotografado em estúdio sobre fundo refletido
Ouro 18k e diamantes: a combinação que David Kaufman lapidava à mão no ateliê original, décadas antes da fábrica própria em Manaus.

2010-2018: a terceira geração e a aposta numa marca para o público mais jovem

Em 2010, Marcio Kaufman, neto do fundador e representante da terceira geração da família, assumiu a presidência da companhia e deu início a um ciclo de expansão acelerada. A decisão mais significativa desse período veio em 2011, com o lançamento da Life by Vivara — uma marca irmã voltada a um público mais jovem, a partir dos 15 anos, com peças coloridas, colecionáveis e de preço mais acessível que as joias tradicionais da Vivara. A aposta em capturar clientes ainda na adolescência, na expectativa de fidelizá-los conforme cresciam e ganhavam poder de compra, se mostrou acertada: a Life ampliou o portfólio para produtos masculinos em 2016 e para uma linha voltada a pets em 2018, cobrindo praticamente todo o espectro de consumidor que uma joalheria pode atender.

2019: o IPO na B3 e a entrada no mercado de capitais

Depois de quase seis décadas sob controle inteiramente familiar, a Vivara deu um passo decisivo rumo à profissionalização da gestão: em outubro de 2019, a empresa estreou na B3 sob o ticker VIVA3, com ação a R$ 24 e uma oferta que movimentou mais de R$ 2 bilhões — a terceira abertura de capital da bolsa brasileira naquele ano. A companhia passou a integrar o Novo Mercado, segmento de listagem com as regras mais rígidas de governança corporativa da B3. A família Kaufman manteve participação relevante mesmo após a abertura de capital — Marcio Kaufman segue como um dos principais acionistas —, mas a gestão executiva do dia a dia passou a ser conduzida por profissionais de mercado, hoje sob o comando do CEO Paulo Kruglensky.

2022-2026: reconhecimento internacional e resultado recorde

Em 2022, a Vivara se tornou a única empresa brasileira de joalheria a figurar na lista anual da Deloitte com as 100 maiores varejistas de luxo do mundo — reconhecimento raro para uma companhia de um setor historicamente dominado por grifes europeias centenárias. A rede fechou aquele ano com 315 lojas e mais de 21 quiosques espalhados pelo país, e seguiu crescendo: em 2025, registrou lucro líquido de R$ 619,5 milhões (alta de 23% sobre o ano anterior) e receita bruta de R$ 3,8 bilhões, impulsionada por vendas em mesmas lojas de quase 12% e pela abertura de 42 novas unidades. A marca Life, pensada originalmente para captar clientes ainda adolescentes, hoje responde por parcela cada vez mais relevante do resultado — só no segundo trimestre de 2026, a receita da linha avançou 15,8% na comparação anual, com 45 novas lojas abertas em doze meses. Para 2026, a companhia projeta abrir entre 55 e 65 novas unidades, a maioria delas sob a bandeira que nasceu para atrair a geração que, seis décadas atrás, nem existia como público-alvo de joalheria.

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Fontes: Wikipédia (português e inglês) — Vivara; euqueroinvestir.com — “Vivara (VIVA3): conheça a história da joalheria”; InfoMoney, Exame, Seu Dinheiro e Money Times — cobertura do IPO de 2019; Nord Investimentos, Visno Invest e ADVFN — resultados financeiros de 2025 e 2026; B3 — dados de listagem e governança.

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