A história do Bob’s: o campeão de Wimbledon que trocou o tênis por uma sorveteria e criou o primeiro fast-food do Brasil

Bob Falkenburg recusou um contrato de US$ 100 mil como tenista profissional para abrir uma sorveteria em Copacabana. Sete décadas depois, o Bob's é a maior rede de fast-food genuinamente brasileira.

A história do Bob's: o campeão de Wimbledon que trocou o tênis por uma sorveteria e criou o primeiro fast-food do Brasil

Antes de virar sinônimo de milk-shake e Big Bob, a marca começou como a aposta de um ex-tenista americano que largou uma carreira internacional para vender sorvete numa esquina do Rio de Janeiro. Bob Falkenburg, campeão de Wimbledon em 1948, abriu a primeira loja em Copacabana em 1952 — um ano antes de o McDonald’s sequer existir fora dos Estados Unidos. Passou por três donos diferentes, virou propriedade de uma multinacional americana, ressurgiu sob controle brasileiro e hoje soma mais de mil lojas pelo país, competindo de igual para igual com as gigantes internacionais que só chegaram ao Brasil décadas depois.

1948-1952: o tenista que recusou US$ 100 mil por ano para vender sorvete

Robert “Bob” Falkenburg nasceu em Manhattan em 1926 e construiu uma carreira sólida no tênis profissional: campeão de duplas no US Open em 1944, campeão de duplas em Wimbledon em 1947 e, no ano seguinte, campeão de simples no próprio Wimbledon — derrotou o australiano John Bromwich numa final de cinco sets, alcançando o 7º lugar do ranking mundial. Em 1947 ele havia se casado com a brasileira Lourdes Mayrink Veiga Machado, e em 1950 o casal se mudou para o Rio de Janeiro. Foi ali que Falkenburg tomou a decisão que definiria o resto da vida: recusou um contrato profissional de US$ 100 mil por ano — soma enorme para a época — para abrir, em 1951, uma pequena sorveteria chamada Falkenburg Sorvetes, vendendo apenas sorvete de baunilha feito com máquinas e receitas trazidas dos Estados Unidos. Animado pelo sucesso entre os frequentadores da praia, no ano seguinte ele transformou o negócio na primeira loja da marca Bob’s, na Rua Domingos Ferreira, em Copacabana.

1953-1974: de sorveteria a fast-food — e a primeira venda da marca

Pouco depois de abrir a sorveteria, Falkenburg ampliou o cardápio para hot dogs, hambúrgueres, sundaes e milk-shakes, criando o que é considerado o primeiro restaurante de fast-food da América do Sul — décadas antes de o McDonald’s abrir sua primeira loja no Brasil, em 1979. A marca cresceu ao longo dos anos 1950 e 1960, se espalhando por outros pontos do Rio. Mas em 1974, aos 48 anos e já com 12 lojas, Falkenburg vendeu o negócio para a Libby, McNeill & Libby, subsidiária controlada pela suíça Nestlé — encerrando o vínculo direto do fundador com a marca que criou. Ele nunca mais voltou a se envolver com o fast-food: viveu o resto da vida nos Estados Unidos e morreu em 2022, aos 95 anos, na Califórnia.

Faixa do letreiro de uma loja Bob's Sorvetes em Copacabana, com o logo do sorvete e o nome da marca
A loja da imagem é uma unidade atual — mas o formato remete direto à sorveteria original de Falkenburg, na mesma Copacabana de 1952.

1974-1996: a passagem por multinacionais e a chegada do controle atual

Depois da venda, o Bob’s passou por mais de uma mudança de controle sem grande alarde público — da Libby’s, ligada à Nestlé, o negócio foi repassado à holding holandesa Vendex International N.V. Só em 1984 a marca deu um passo decisivo para a expansão em escala: adotou um modelo estruturado de franquias, tornando-se, segundo a própria empresa, a primeira rede de alimentação genuinamente brasileira a franquear suas lojas. Em 1996, a operação brasileira foi adquirida pela BFFC — Brazil Fast Food Corporation, hoje Brazil Foodservice and Franchising Corporation —, que administra a marca pela subsidiária Venbo Comércio de Alimentos. A mesma holding, hoje comandada pelo CEO Ricardo Bomeny, também detém no Brasil a operação do KFC, comprou a maior franqueada da Pizza Hut no país e adquiriu fatia da IMC, dona do Frango Assado — um portfólio bem mais amplo do que o pequeno negócio de sorvete vendido por Falkenburg em 1974.

“Genuinamente brasileiro”: o Big Bob contra o Big Mac

Ao contrário de quase toda a concorrência direta — McDonald’s, Burger King, Subway —, o Bob’s constrói boa parte da sua identidade de marca em torno de ser uma rede nascida e criada no Brasil, mesmo tendo passado décadas sob controle de capital americano e holandês. O posicionamento de “fast-food genuinamente brasileiro” aparece de forma recorrente na comunicação da empresa, reforçado por sabores com tempero local — como hambúrgueres de picanha — e por um dos produtos mais simbólicos do cardápio, o Big Bob, criado como resposta direta ao Big Mac do McDonald’s. A rivalidade também aparece nos números: mesmo tendo perdido a liderança de mercado ao longo das décadas, o Bob’s é hoje a terceira maior rede de fast-food do Brasil e uma das maiores da América Latina, com lojas próprias e franqueadas em mais de 250 municípios e presença internacional no Chile e em Angola.

Logotipo oficial do Bob's, em vermelho sobre fundo branco
O logo atual do Bob’s, hoje presente em mais de mil pontos de venda no Brasil.

Anos 2020: prateleira de supermercado e uma expansão de olho em São Paulo

Nos últimos anos, o Bob’s tem investido em diversificar a receita para além do balcão da loja. A rede passou a vender produtos próprios em supermercados — como batata frita pré-congelada e, mais recentemente, um frango empanado batizado de Franlitos —, buscando presença no dia a dia do consumidor mesmo fora das mais de mil lojas físicas do país. Em paralelo, lançou o programa “Bob’s Conecta”, de reforma e modernização de lojas com formato mais compacto e voltado para drive-thru e autoatendimento, que já mostrou ganho médio de receita de 15% nas unidades reformadas. A aposta na modernização tem endereço certo: o plano “Potencializa São Paulo” prevê multiplicar por cinco a operação da marca no estado até 2027, reforçando um mercado que a empresa considera estratégico e ainda pouco explorado dentro do seu próprio território de origem.

Fachada moderna de uma loja Bob's Conecta à noite, com totem de drive-thru iluminado
O programa “Bob’s Conecta” reformou lojas em formato mais compacto — com ganho médio de 15% de receita nas unidades já modernizadas.

2025: a loja-vitrine de Ipanema e o braço robótico que virou fenômeno

Em julho de 2025, o Bob’s reinaugurou uma unidade em Ipanema — no mesmo endereço onde abriu a segunda loja da rede nos anos 1950 — como vitrine global da marca. O projeto, assinado pelo Estúdio Jacarandá, ganhou o Shop! Global Awards 2026, prêmio internacional de design de varejo disputado em Nova Orleans, e chamou atenção por um detalhe tecnológico: um braço robótico que prepara o milk-shake da marca à vista dos clientes, atrás de um balcão iluminado em formato de copo. O efeito viral foi imediato — só no primeiro mês, mais de 500 clientes marcaram o perfil da marca no Instagram, e vídeos de influenciadores somaram mais de 1 milhão de visualizações. Com a receita da unidade crescendo mais de 75% após a reforma, o Bob’s projeta faturar R$ 1,8 bilhão em 2026 — ante R$ 1,6 bilhão em 2025 — e abrir mais de 150 novas lojas, mesmo tratando o modelo de Ipanema como algo único, não como plano padrão de expansão.

Interior da loja-conceito do Bob's em Ipanema, com decoração de hambúrguer em neon e letreiro 'Bob's original Ipanema'
A reforma da loja de Ipanema, premiada em Nova Orleans, virou fenômeno viral nas redes sociais em 2025.

Leia também: A história do Habib’s: do médico que abriu uma padaria à maior rede de comida árabe do país, A história do McDonald’s no Brasil: como um franqueado da Argentina virou dono de toda a América Latina, A história da Starbucks Brasil: da SouthRock à venda para a Zamp e A história da Cacau Show: dos ovos de Páscoa feitos por um adolescente de 17 anos à compra do Playcenter.

Fontes: Wikipédia (português e inglês) — Bob’s e Bob Falkenburg; Exame — “Como a loja do Bob’s em Ipanema virou vitrine global da rede de R$ 1,8 bilhão” e cobertura de faturamento/expansão; InfoMoney — plano de expansão e faturamento; Meio & Mensagem — posicionamento de marca “genuinamente brasileira” e Big Bob; Brazil Journal — aquisição de participação na IMC (Frango Assado); Revista Cafeicultura — aquisição da maior franqueada da Pizza Hut.

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