A história da Centauro: de uma loja em Belo Horizonte à distribuidora exclusiva da Nike no Brasil

Sebastião Bomfim Filho abriu a primeira loja da Centauro em 1981, em Belo Horizonte. Quatro décadas depois, o grupo que leva suas iniciais (SBF) deixou de revender Nike para se tornar a distribuidora exclusiva da marca no país — negócio que preocupou até o CADE.

A história da Centauro: de uma loja em Belo Horizonte à distribuidora exclusiva da Nike no Brasil

Atualizado em: 11 de setembro de 2026

As iniciais “SBF”, que hoje nomeiam o grupo dono da maior rede de artigos esportivos do Brasil, não vêm de nenhum conceito de marketing sobre esporte ou bem-estar — são simplesmente as iniciais do fundador, Sebastião Bomfim Filho. Da primeira loja em Belo Horizonte, em 1981, ao acordo que transformou a Centauro na única porta de entrada da Nike no varejo brasileiro, a trajetória do grupo passa por uma virada pouco comum: deixar de vender produtos de um fornecedor para se tornar dona da própria operação desse fornecedor no país — negócio grande o suficiente para acender um alerta no órgão federal que fiscaliza a concorrência.

1981: a primeira loja em Belo Horizonte

Em abril de 1981, Sebastião Vicente Bomfim Filho abriu a primeira loja da Centauro em Belo Horizonte, com uma equipe de apenas quatro funcionários. O formato já nascia diferente do padrão de lojas de artigos esportivos da época: mais amplo, com um mix maior de marcas e categorias, pensado para atender tanto o consumidor casual quanto o praticante mais dedicado de esporte. Nos anos seguintes, a rede cresceu dentro de Minas Gerais antes de começar a se espalhar pelo resto do país, sempre mantendo a sede em BH — cidade que segue como base do grupo até hoje.

Fachada de uma loja Centauro em shopping center, com o logo da marca em vermelho e verde e vitrine de artigos esportivos
A fachada característica de uma loja Centauro: o mesmo formato de vitrine ampla que a rede já usava desde as primeiras lojas fora de Belo Horizonte.

Anos 1990 e 2000: megastores, digitalização e presença nacional

A virada de escala veio na entrada dos anos 2000, quando a Centauro chegou a São Paulo com um formato inovador para o setor: megastores, lojas bem maiores que o padrão da época, com sortimento amplo o bastante para funcionar quase como um shopping de artigos esportivos dentro de um único ponto de venda. Em 2003, a empresa deu um passo raro para o varejo físico brasileiro daquele momento — quase uma década antes de o e-commerce se popularizar no país — e lançou sua própria plataforma de vendas digitais. A expansão geográfica seguiu em ritmo constante: em julho de 2009, a rede abriu sua primeira loja no Amazonas, consolidando presença nas cinco regiões do Brasil. O grupo também testou outras frentes de negócio ao longo do caminho, como a rede de artigos de tênis By Tennis, que teve a maior parte de suas lojas fechada em 2015, dentro de um movimento de reestruturação voltado a reduzir despesas e melhorar margem. Em 2017, a Centauro deu início ao conceito de loja “G5” (“Geração 5”), integrando o ambiente físico e o digital numa mesma experiência de compra — um formato que se tornaria a base das lojas mais recentes da rede.

2019: a estreia na B3 como CNTO3

Em abril de 2019, a Centauro estreou na B3, sob o ticker CNTO3. A abertura de capital profissionalizou ainda mais a gestão do grupo e criou o instrumento financeiro que, no ano seguinte, permitiria ao SBF Group bancar o movimento mais ambicioso de sua história: comprar a própria operação da Nike no Brasil.

Balcão de atendimento de uma 'Mega Loja' Centauro, com sinalização da marca e prateleiras de produtos esportivos
O formato “Mega Loja”, lançado na virada dos anos 2000, ampliou o sortimento e o tamanho médio das lojas Centauro — parte da mesma expansão que, em 2019, levou o grupo à B3.

2020: de revendedora a dona da operação Nike no Brasil

Até então, a Centauro era só uma das lojas que revendiam produtos Nike no varejo brasileiro, como qualquer outra rede concorrente. Em 2020, o SBF Group deu a virada que redefiniria o negócio: comprou a Fisia, a empresa que detinha a operação da Nike no Brasil, por cerca de R$ 1 bilhão. Com o negócio, o grupo deixou de ser apenas um cliente da marca americana para se tornar sua distribuidora exclusiva no país, tanto no varejo físico quanto no digital, num acordo com exclusividade prevista para durar dez anos. A mudança de status ficou marcada até no ticker da empresa na bolsa: em março de 2021, o papel que era negociado como CNTO3 passou a se chamar SBFG3, refletindo a nova identidade do grupo — não mais “só a Centauro”, mas um conglomerado que reunia rede própria e a distribuição nacional de um dos maiores nomes do esporte mundial.

O alerta do CADE: quando o distribuidor também é o maior varejista

A concentração de poder nas mãos de uma única empresa não passou despercebida pelo órgão federal de defesa da concorrência. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) aprovou a aquisição da Fisia pela Centauro, mas com restrições: o negócio tornava o SBF Group, ao mesmo tempo, distribuidor exclusivo dos produtos Nike no Brasil e dono da maior rede de varejo esportivo do país — concorrente direta de quem também precisava comprar produtos Nike através dessa mesma distribuidora. Para evitar que a Centauro usasse essa posição para prejudicar rivais como Decathlon e outras redes, o CADE impôs um Acordo em Controle de Concentrações: as equipes comerciais da Nike Brasil e da Centauro passaram a operar separadas, com barreiras de confidencialidade entre times, um canal independente para denúncias de práticas discriminatórias e um monitor externo (trustee) reportando periodicamente o cumprimento das regras ao próprio CADE. As restrições valem por três anos a partir da aprovação, prorrogáveis por mais dois caso o órgão entenda necessário — um lembrete raro de que, no papel, a Centauro compete com lojas que dependem justamente da distribuidora que ela mesma controla.

Hoje: resultado recorde, Copa do Mundo e concorrência de Decathlon

Quatro décadas depois da loja de Belo Horizonte, o SBF Group vive um dos melhores momentos de sua história recente. No segundo trimestre de 2026, o grupo registrou receita líquida consolidada recorde de R$ 2,21 bilhões, alta de 22,1% sobre o mesmo período do ano anterior, com lucro líquido ajustado de R$ 141,8 milhões — salto de 62,7% na comparação anual. Em 2025, a receita consolidada somou R$ 7,7 bilhões, puxada tanto pela Centauro (R$ 4,1 bilhões, com a maior margem bruta já registrada pela marca) quanto pela Fisia (R$ 4,3 bilhões). Parte desse impulso recente vem da proximidade da Copa do Mundo de 2026: o interesse por camisas de seleção, chuteiras e artigos de torcida começa a aquecer as vendas antes mesmo de a bola rolar, um efeito que tende a se intensificar ao longo do ano. No dia a dia do negócio, a concorrência segue acirrada com a francesa Decathlon, que expandiu agressivamente no Brasil, e com redes como a Track & Field — mas nenhuma delas soma, ao mesmo tempo, a maior rede física de artigos esportivos do país e a distribuição exclusiva da marca mais valiosa do setor.

Interior de uma loja Centauro com pista de corrida vermelha no piso e amplo setor de bicicletas à venda
O piso em formato de pista de corrida é uma marca registrada das lojas físicas da Centauro — aqui, no setor de bicicletas de uma unidade da rede.

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Fontes: Wikipédia (português) — Grupo SBF; ri.gruposbf.com.br — histórico institucional oficial do grupo; ISTOÉ Dinheiro, InfoMoney, Meio & Mensagem — aquisição da Nike Brasil pela Centauro via Fisia; gov.br/cade — decisão de aprovação com restrições da aquisição da Fisia pela Centauro; Máquina do Esporte, InfoMoney, ADVFN — resultados financeiros do 1º e 2º trimestres de 2026 e do ano de 2025.

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