A história da Track & Field: dos caracóis que fugiram da gaiola à marca que inventou o “esporte-moda” no Brasil

Antes das camisetas de corrida, o primeiro negócio dos fundadores da Track & Field foi um criadouro de caracóis que fracassou. Da venda no intervalo das aulas ao IPO na B3 e à expansão para Nova York e Portugal, veja a história completa da marca.

A história da Track & Field: dos caracóis que fugiram da gaiola à marca que inventou o "esporte-moda" no Brasil

Atualizado em: 11 de setembro de 2026

Antes de virar sinônimo de camiseta de corrida e moletom de ginástica no Brasil, o primeiro negócio dos três fundadores da Track & Field foi vender caracóis. O empreendimento fracassou quando alguém esqueceu a gaiola aberta e os bichos fugiram — mas o instinto empreendedor dos amigos de escola não parou por aí. Da venda de camisetas no intervalo das aulas, em 1988, à marca que hoje soma quase 450 lojas em três países, a Track & Field percorreu um caminho que passa por uma pesquisa de mercado na Califórnia, um carro de edição especial da Volkswagen e a saída — e volta — do próprio fundador do comando da empresa.

1985-1988: do fiasco com os caracóis às camisetas do intervalo

Antes de fundar a marca, os adolescentes Fred Wagner, Alberto Azevedo e Ricardo Rosset, colegas do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, já tentavam ganhar dinheiro juntos. A primeira tentativa foi um criadouro de caracóis — o negócio não durou: alguém deixou a gaiola aberta e os animais fugiram. Longe de desanimar, o trio passou a vender camisetas nos intervalos das aulas, driblando uma frustração real que sentiam como praticantes de esporte: não encontravam roupa adequada para treinar no Brasil dos anos 1980. Na época, o mercado esportivo nacional era dominado por marcas internacionais concentradas quase só no futebol — não existia uma marca esportiva genuinamente brasileira, voltada a outras modalidades e ao uso do dia a dia.

1988-1990: a pesquisa na Califórnia e a primeira loja

Para transformar a venda informal de camisetas em negócio de verdade, os três sócios pegaram dinheiro emprestado e fizeram uma pesquisa de mercado na Califórnia — berço das marcas de streetwear e triatlo que inspirariam a identidade da nova marca, batizada Track & Field numa referência ao atletismo. A empresa nasceu formalmente em 1º de fevereiro de 1988, mas levou dois anos até abrir a primeira loja física: em 1990, no recém-inaugurado Shopping Jardim Sul, em São Paulo. Os primeiros anos foram duros — quase dois anos no vermelho antes de dar lucro —, mas o conceito pegou: roupa esportiva de qualidade, para múltiplas modalidades, com identidade própria, num mercado até então dividido entre multinacionais e lojas multimarcas sem personalidade.

2004-2009: corridas, um carro de edição especial e o salto para o digital

À medida que crescia, a marca passou a investir na cultura esportiva ao seu redor, não só na venda de roupa. Em 2004, lançou o T&F Run Series e passou a chancelar o Ironman Brasil, hoje descritos pela própria companhia como dois dos maiores eventos esportivos colaborativos da América Latina. Um ano depois veio uma parceria inusitada: a Volkswagen lançou uma versão especial do Parati batizada “Parati Track & Field”, mirando um público jovem associado a esportividade e vitalidade — o tipo de licenciamento que só existe quando uma marca já virou referência cultural, não só comercial. Em 2009, a empresa deu mais um passo à frente do mercado da época: lançou sua própria plataforma de e-commerce, ainda numa era em que boa parte do varejo brasileiro mal tinha percebido o potencial da venda online.

2010-2011: a loja em Nova York e o início das franquias

Em 2010, a Track & Field deu um salto raro para uma marca de moda esportiva brasileira: abriu sua primeira loja fora do país, em Nova York. No mesmo ano vieram mais duas unidades nos Estados Unidos — loja própria em Los Angeles e franquia em Charlotte —, com planos, parte concretizados só anos depois, de expansão para o World Trade Center e para Miami. No Brasil, a virada de escala veio de outra frente: em 2011 começou o projeto de franquias, que fez a rede saltar de 4 unidades franqueadas para 233 lojas, próprias e franqueadas, em 24 estados até 2020. Em 2017 a marca criou o TF Sports, plataforma de inscrição e organização de eventos esportivos, e em 2018 abriu sua 200ª loja, já com uma reformulação de governança que preparava o próximo passo: a bolsa de valores.

Outubro de 2020: um IPO com desconto — mas sem perder o controle

A Track & Field estreou na B3 em 26 de outubro de 2020, sob o ticker TFCO4, numa onda de aberturas de capital no país. A oferta não saiu como esperado: a faixa indicativa ia de R$ 10,65 a R$ 14,65 por ação, mas o papel precisou ser precificado a R$ 9,25 — abaixo até do piso —, captando R$ 523 milhões. A ação fechou o primeiro pregão estável, no mesmo patamar da precificação, um desempenho que dividiu opiniões sobre o apetite dos investidores pela empresa. Apesar do desconto na estreia, o trio de fundadores manteve o controle: como a oferta envolveu só ações preferenciais — com dez vezes mais direito a dividendos que as ordinárias, mas o mesmo direito de voto —, o grupo fundador ficou com metade das ações em circulação, o dobro do usual nesse tipo de oferta. Em 2021, parte do capital captado bancou o TF LOG, centro de distribuição em Osasco que quadruplicou a capacidade logística da rede.

2023-2026: o fundador que saiu do comando (e voltou) — e o melhor momento da história

Em agosto de 2023, a empresa viveu uma mudança rara em negócios ainda comandados pelos fundadores: Fred Wagner deixou o cargo de CEO — não para se afastar, mas para liderar em tempo integral o TFSports, aposta da empresa em virar uma plataforma completa de bem-estar, não só uma marca de roupa. Fernando Tracanella, até então CFO e diretor de relações com investidores, assumiu o comando. A transição não foi definitiva: Wagner voltou ao posto de CEO tempos depois, retomando a condução do ciclo de transformação digital e expansão. O ciclo colheu resultados fortes: em 2025, lucro líquido de R$ 171,5 milhões (+36,5%), Ebitda de R$ 240,9 milhões (+36,3%) e 40 novas lojas abertas. O ritmo seguiu forte em 2026 — receita líquida de R$ 251 milhões no primeiro trimestre (+18%) e R$ 279,7 milhões no segundo (+15,5%) —, com a rede somando hoje cerca de 440 lojas no Brasil e presença internacional que já passa dos EUA: três lojas em Portugal, com mais duas franqueadas previstas. Quase quatro décadas depois do fiasco com os caracóis, a mesma inquietação que levou três adolescentes a abrir uma loja de camiseta segue movendo a empresa — só que agora negociada na bolsa e vendendo roupa esportiva em três continentes.

Retrato de Fred Wagner, CEO e cofundador da Track & Field, sorrindo em ambiente corporativo
Fred Wagner, um dos três fundadores da Track & Field em 1988: deixou o cargo de CEO em 2023 para liderar o TFSports e depois voltou ao comando da empresa.

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Fontes: Wikipédia (português e inglês) — Track&Field; tfco.com.br/en/timeline — linha do tempo institucional oficial; InfoMoney (“O negócio bilionário que surgiu de um hobby”) — origem dos fundadores e do criadouro de caracóis; Meio & Mensagem (“Track&Field se inspira na Califórnia”) — pesquisa de mercado e inspiração da marca; euqueroinvestir.com e InvestNews — detalhes do IPO de outubro de 2020; Seu Dinheiro (“Fundador da Track&Field deixa cargo de CEO…”) — transição de comando de 2023; InfoMoney, XP Investimentos, ADVFN, Seu Dinheiro — resultados financeiros de 2025 e 2026.

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