A história da Smart Fit: do acidente de esqui que virou a maior academia da América Latina
Um engenheiro que geria uma usina de açúcar, um joelho quebrado esquiando nos Estados Unidos e uma academia de R$ 59 por mês: a história de Edgard Corona e da rede que hoje vale bilhões na bolsa.

A maior rede de academias da América Latina nasceu de um acidente, não de um plano de negócios. Edgard Corona geria a usina de açúcar da própria família quando um joelho quebrado numa pista de esqui nos Estados Unidos o transformou, pela primeira vez na vida, em cliente frequente de academia. Trinta anos depois, a empresa que ele fundou reúne mais de 2 mil unidades em 16 países, vale bilhões na B3 e acabou de bater seu recorde histórico de receita.
1979-1995: o engenheiro da usina de açúcar e o acidente de esqui que mudou tudo
Antes de fundar qualquer academia, Edgard Corona passou 17 anos administrando um negócio bem diferente: a Usina Corona, empresa açucareira da própria família em Ribeirão Preto (SP). Formado engenheiro químico pela FAAP em 1979, ele modernizou a produção da usina até a família optar por profissionalizar a gestão e afastá-lo do comando do negócio. Foi um acidente, não uma decisão de carreira, que mudou o rumo de tudo: em dezembro de 1995, esquiando em Vermont, nos Estados Unidos, Corona rompeu os ligamentos do joelho. A recuperação exigiu duas cirurgias e seis meses de fisioterapia diária — período em que ele virou cliente assíduo de academia pela primeira vez na vida e passou a observar de perto como esse tipo de negócio funcionava por dentro. Foi ali, entre aparelhos de reabilitação e esteiras, que nasceu a ideia de abrir a própria academia.
1996: nasce a Bio Ritmo, com a futura esposa como sócia
Em 1996, aos 34 anos, Corona abriu a primeira unidade da Bio Ritmo, uma academia pequena na zona sul de São Paulo. O negócio cresceu rápido: ele contratou arquitetos renomados para desenhar os espaços, importou dos Estados Unidos uma metodologia de vendas baseada em quebra de objeção do cliente e abriu uma unidade na Avenida Paulista, dentro do Conjunto Nacional, que segue em operação até hoje — quase 30 anos depois. Soraya, jornalista que ele conheceu durante a fisioterapia do joelho e viria a se tornar sua esposa, entrou como sócia do negócio, cuidando da recepção, das finanças e da operação no dia a dia. A Bio Ritmo se consolidou como academia de padrão premium, mensalidade alta — um modelo bem diferente do que definiria a marca mais conhecida do grupo mais de uma década depois.

2008-2009: nasce a Smart Fit, inspirada numa academia americana de US$ 10 por mês
Em 2008, observando o mercado americano, Corona percebeu uma lacuna: nos Estados Unidos já existiam academias de mensalidade baixíssima, como a Planet Fitness, cobrando o equivalente a US$ 10 por mês — no Brasil, a oferta se dividia só entre academias caras e academias precárias, sem nada no meio do caminho. Nascia assim a Smart Fit, batizada com o modelo “High Value, Low Cost” (HVLC): espaços amplos, de mais de 2 mil metros quadrados, com equipamentos completos, mas mensalidade a partir de R$ 59 — uma fração do preço cobrado pela própria Bio Ritmo. A empresa abriu simultaneamente quatro unidades, em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre, e mais cinco ainda no primeiro ano. Em 2009 a gestora Pátria Investimentos comprou metade do negócio — até hoje, quase duas décadas depois, ainda dona de cerca de 14% da companhia —, dando à Smart Fit o capital necessário para uma expansão que, dali em diante, nunca mais desacelerou.
2011-2019: expansão pela América Latina e a entrada dos fundos soberanos
A partir de 2011 a Smart Fit deu o primeiro passo fora do Brasil, com a chegada ao México. Nos anos seguintes vieram Chile, Peru, Colômbia, Argentina, Equador, Honduras e Paraguai — hoje a rede está presente em praticamente toda a América Latina, com exceção de Bolívia, Venezuela, Nicarágua e as Guianas. O crescimento atraiu investidores de peso: em 2014 entrou o fundo soberano de Singapura GIC; em 2019, o fundo soberano Temasek (também de Singapura), o próprio GIC — ampliando a posição — e o fundo de pensão canadense CPPIB se juntaram numa rodada que captou cerca de R$ 500 milhões. Àquela altura a rede já somava 180 unidades, com planos de chegar a 210 — números que, alguns anos depois, pareceriam pequenos perto do que viria.

2020-2021: a pandemia fecha as academias, mas não trava o IPO
Em 15 de março de 2020, a Smart Fit fechou todas as suas academias por causa da pandemia de Covid-19 — um golpe direto no modelo de negócio inteiro, num dos setores mais afetados do mundo pelos fechamentos. Corona reavaliou os planos de abrir o capital da empresa na bolsa, mas decidiu seguir em frente mesmo assim. Ele comparou a decisão a carros de corrida parados na garagem: se a empresa já estivesse com “os motores ligados e o tanque cheio”, teria vantagem na largada assim que o mercado reabrisse. A aposta se confirmou: em julho de 2021 a Smart Fit estreou na B3 sob o ticker SMFT3, captando R$ 2,3 bilhões — a ação disparou 34% só no primeiro dia de negociação, e a empresa logo passou a integrar o Ibovespa.
2021-2026: multimarca, sucessão familiar e o trimestre recorde
Depois do IPO, a Smart Fit se tornou um grupo multimarca: além da Bio Ritmo original, hoje posicionada como academia premium, o portfólio passou a incluir a TotalPass (benefício corporativo de acesso a academias), a Queima Diária (aulas digitais, comprada em 2020) e, desde 2024, a Velocity, rede de estúdios de spinning adquirida por R$ 183 milhões. Marcas de nicho como Race Bootcamp, Tônus e Vidya ficaram sob responsabilidade de Carolina Corona, filha do fundador, que também liderou a expansão da empresa no México — enquanto o irmão Diogo assumiu o cargo de diretor de operações (COO). A rede também emplacou dois recordes do Guinness: em novembro de 2024, a maior corrida simultânea em esteiras do mundo, com 268 participantes; em janeiro de 2025, o maior número de academias abertas num único mês, 92 unidades só em dezembro de 2024. No primeiro trimestre de 2026, a Smart Fit bateu recorde histórico: receita líquida de R$ 2,1 bilhões — a primeira vez que a empresa supera a marca de R$ 2 bilhões num único trimestre —, alta de 25% sobre o mesmo período do ano anterior, lucro líquido recorrente de R$ 207 milhões (alta de 47%) e 2.113 academias em 16 países, depois de um ano recorde de expansão, com 354 novas unidades abertas em 12 meses. Ao anunciar os números, a ação da companhia subiu mais de 11% num único pregão — o mesmo mercado que, cinco anos antes, apostava contra a estreia de uma empresa que tinha acabado de fechar as portas por decreto.

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Fontes: Wikipédia (português e inglês) — Smart Fit; Forbes Brasil — “Como Edgard Corona transformou a Smart Fit na maior rede de academias da América Latina”; Suno — perfil de Edgard Corona; InfoMoney, EuQueroInvestir, Seu Dinheiro e Guia do Investidor — resultados do 1º trimestre de 2026 da Smart Fit (SMFT3).
