A história do Carrefour: da encruzilhada francesa ao hipermercado que fechou o capital no Brasil

O Carrefour inventou o hipermercado na França e trouxe o formato ao Brasil em 1975, décadas à frente dos rivais. Meio século depois, espremido pelo próprio atacarejo que ajudou a criar, o grupo fechou o capital da subsidiária brasileira — enquanto exportava o Atacadão de volta para a matriz francesa.

A história do Carrefour: da encruzilhada francesa ao hipermercado que fechou o capital no Brasil

O Carrefour nasceu batizado por um cruzamento de ruas e passou décadas na liderança do varejo brasileiro — até ser engolido pelo próprio formato que ajudou a criar. Pioneiro do hipermercado no Brasil desde 1975, o grupo francês fechou o capital de sua subsidiária brasileira em 2025, espremido pela concorrência do atacarejo. No mesmo período, ironicamente, levou o Atacadão — comprado no Brasil em 2007 — de volta para lojas na própria França.

1959: a “encruzilhada” francesa que inventou o hipermercado

A empresa nasceu em 2 de agosto de 1959, em Annecy, no sudeste da França, fundada por Marcel Fournier e os irmãos Denis e Jacques Defforey. O nome vem do local onde ficava a primeira loja: um cruzamento de duas avenidas — “carrefour” significa, literalmente, “encruzilhada” em francês. A mesma loja, ampliada em 1963 para incorporar alimentos, eletrodomésticos e bens duráveis sob o mesmo teto, é considerada o primeiro hipermercado do mundo, um formato que a companhia levaria depois a dezenas de países.

1975: o Carrefour chega ao Brasil e vira sinônimo de hipermercado

O grupo escolheu o Brasil para sua primeira loja fora da Europa: em 1975, abriu um hipermercado na Chácara Santo Antônio, às margens da Marginal Pinheiros, em São Paulo. No ano seguinte veio a segunda unidade, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Entre 1992 e 1999, a rede abriu 59 lojas pelo país, com um investimento de US$ 100 milhões — o Brasil se tornaria, com o tempo, o segundo mercado mais importante do grupo no mundo, atrás só da própria França.

Logotipo oficial do Atacadão, rede de atacarejo comprada pelo Carrefour em 2007
Comprado em 2007, o Atacadão viraria o principal motor de crescimento — e, décadas depois, um contraponto irônico à crise do próprio Carrefour.

2007-2020: a aposta no atacarejo, o IPO bilionário e um crime que expôs o lado mais sombrio da marca

Em 2007, o Carrefour comprou o Atacadão por R$ 2,2 bilhões — na época, uma rede de 34 lojas, a maioria em São Paulo. A aposta no formato de atacarejo se provaria decisiva: dez anos depois, em 20 de julho de 2017, o Grupo Carrefour Brasil estreou na B3 com um IPO de R$ 5,125 bilhões, o maior da bolsa brasileira em quatro anos. Mas a expansão comercial teve um contraste grave: em 19 de novembro de 2020, véspera do Dia da Consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, foi espancado e asfixiado até a morte por seguranças de uma loja do Carrefour em Porto Alegre — caso que gerou protestos em várias cidades e forçou mudanças reais na companhia: fim da terceirização da segurança, treinamento e uso de câmeras corporais pelos seguranças, um diretor negro à frente da nova política e compromissos públicos de qualificação profissional para jovens negros.

Vigília em frente a uma loja do Carrefour em Brasília em memória de João Alberto Silveira Freitas
Manifestantes em vigília pacífica em frente a uma loja do Carrefour em Brasília, uma semana após a morte de João Alberto Silveira Freitas.

2021-2025: a compra da rede BIG, a crise e o fechamento de capital — enquanto o Atacadão vira exportação para a própria França

Em março de 2021, o Carrefour anunciou a compra do Grupo BIG, operação do Walmart no Brasil, por R$ 7,5 bilhões — negócio concluído em 7 de junho de 2022, que tornou o grupo o maior empregador privado do país. O pico durou pouco: no primeiro trimestre de 2023, o Carrefour Brasil registrou prejuízo de R$ 375 milhões, o primeiro desde o IPO, com a margem Ebitda caindo de 4,4% para 2,1% sob pressão da inflação de alimentos e da concorrência cada vez mais forte do próprio atacarejo — com o Assaí, ex-subsidiária do GPA, na ponta. Em fevereiro de 2024, o grupo anunciou o fechamento de 123 lojas da bandeira Carrefour. Quatro meses depois, em 20 de junho de 2024, veio a ironia: o Carrefour abriu a primeira loja do Atacadão fora do Brasil — em Aulnay-sous-Bois, na periferia de Paris —, exportando para a própria matriz francesa o formato que salvara sua operação brasileira quase vinte anos antes. Em fevereiro de 2025, o grupo francês propôs fechar o capital da subsidiária brasileira por R$ 7,70 por ação; a assembleia aprovou a saída da B3 com 59% dos acionistas optando por R$ 8,50 por papel, encerrando o ciclo do Carrefour como companhia listada no Brasil.

Fachada da primeira loja do Atacadão na França, em Aulnay-sous-Bois, com faixa de boas-vindas em francês
Em junho de 2024, o Carrefour abriu a primeira loja do Atacadão na França — o formato nascido no Brasil, agora exportado para a terra da própria matriz.

Leia também: A história do Assaí: do jovem de 19 anos que revendia farinha à maior rede de atacarejo do Brasil, A história da Riachuelo: da loja de tecidos em Natal ao grupo que deu seu nome à própria holding, A história da Petz: da falência que virou pet shop 24 horas à fusão que criou a AUAU3 e A história da Hering: de tecelagem de imigrantes alemães em Blumenau ao fim de 140 anos de controle familiar.

Fontes: Wikipédia (português e inglês) — Carrefour e Grupo Carrefour Brasil; Exame e SuperVarejo — os 50 anos do Carrefour no Brasil; CNN Brasil, Investidor10 e Genial Investimentos — fechamento de capital do Carrefour Brasil em 2025; Terra e Poder360 — mudanças internas do Carrefour após o caso João Alberto Silveira Freitas; Exame e Portal da Propaganda — abertura da primeira loja do Atacadão na França em 2024.

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