A história das Casas Pernambucanas: do imigrante sueco à briga de meio século entre herdeiros

Um imigrante sueco que fez fortuna com pólvora e tecido, uma loja batizada em homenagem a Pernambuco e uma briga entre herdeiros que a apagou do próprio estado por décadas. Conheça a história por trás do crediário mais famoso do varejo brasileiro.

A história das Casas Pernambucanas: do imigrante sueco à briga de meio século entre herdeiros

Poucas marcas carregam uma ironia tão grande quanto a Casas Pernambucanas: batizada em homenagem ao estado que a viu nascer, ela passou décadas sumida de lá. A rede nasceu em 1908 no Recife, virou a maior varejista do Brasil em 1970 e quase desapareceu por causa de uma briga entre herdeiros que só terminou, oficialmente, em 2024 — depois de mais de 50 anos.

1908: um imigrante sem dinheiro, uma fortuna feita com pólvora e tecido, e uma loja batizada em homenagem a Pernambuco

Herman Theodor Lundgren chegou ao Recife vindo da Suécia aos 55 anos, sem dinheiro, sem contatos e sem falar uma palavra de português. Trabalhou como despachante e representante consular até fazer sua primeira fortuna em 1866, com a fundação de uma fábrica de pólvora. Décadas depois, já rico, ele voltou a apostar em indústria: em 1904 comprou e reergueu a Companhia de Tecidos Paulista, criando um polo têxtil na cidade de Paulista, no litoral de Pernambuco. Lundgren morreu em 1907, um ano antes de ver o negócio se transformar em loja. Em 25 de setembro de 1908, os filhos Frederico e Arthur abriram no Recife a primeira unidade da rede — batizada de Casas Pernambucanas, em homenagem ao estado, para vender no varejo os próprios tecidos que a fábrica da família produzia.

1910-1970: o crediário que virou sinônimo da marca e a maior rede de lojas do Brasil

Em 1910 a rede chegou a São Paulo, com uma loja na Praça da Sé — a mesma esquina que aparece numa foto de 1915 já anunciando “filiais em todo o Brasil”. O motor do crescimento foi o crediário: um sistema de venda parcelada, com pouca burocracia, que virou tão sinônimo da marca que décadas depois ainda seria lembrado pela campanha “Crediário Tentação”. O auge veio em 1970, quando a Pernambucanas se tornou a maior rede varejista do país, com mais de 700 lojas — puxada ainda pela compra das Lojas Muricy, em 1976.

Fachada histórica das Casas Pernambucanas no Largo da Sé, em São Paulo, em 1915, com pedestres e automóveis de época em frente à loja
A loja da Praça da Sé, em São Paulo, fotografada em 1915: a faixa na fachada já anunciava “filiais em todo o Brasil”.

A briga entre herdeiros que apagou a marca do próprio estado que lhe dá nome

O auge não durou. Entre as décadas de 1970 e 1990, uma disputa entre ramos da família Lundgren dividiu o controle da empresa e comprometeu a operação: as lojas desapareceram do Nordeste — inclusive do próprio Pernambuco, estado que dá nome à marca — e o braço fluminense da rede foi à falência. Só a operação paulista, sob a holding Arthur Lundgren Tecidos, sobreviveu e prosperou, diversificando o negócio para além dos têxteis. A marca só voltaria a abrir lojas no Recife em 2021 — mais de quatro décadas depois de ter desaparecido de lá.

Retrato em preto e branco do comendador Arthur Herman Lundgren, um dos filhos do fundador das Casas Pernambucanas, por volta de 1940
Arthur Herman Lundgren, um dos filhos do fundador, retratado por volta de 1940 — a disputa que dividiria seus descendentes ainda levaria décadas para eclodir.

2024: o fim da “briga de meio século” e uma crise financeira que ainda não acabou

Em julho de 2024, um acordo encerrou o que a imprensa especializada chamou de “briga de meio século” entre seis blocos familiares e 35 acionistas pessoa física: a partir dali, cada bloco passou a ter o mesmo peso de voto nas decisões da empresa, independentemente do tamanho de sua participação, sob um novo conselho de administração liderado por executivos de fora da família. Resolver a governança, porém, não resolveu o caixa. Em 2025 a Pernambucanas faturou R$ 4,98 bilhões — alta de 3,1% —, mas acumulou o terceiro ano seguido de prejuízo, de R$ 464,9 milhões, e a auditoria da PwC citou “incerteza relevante” sobre a continuidade das operações. À frente da reestruturação está Ricardo Doebeli, ex-consultor da McKinsey, com um plano batizado “Back to Basics”, de mais de 400 iniciativas — da reposição de mercadoria à adoção de etiquetas RFID — para uma rede que, 118 anos depois de nascer numa esquina do Recife, ainda tenta provar que sabe vender.

Logotipo oficial das Casas Pernambucanas, em azul e amarelo
Após o acordo de 2024, a Pernambucanas tenta equilibrar as contas sob nova governança — sem deixar de ser, 118 anos depois, controlada pela mesma família.

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Fontes: Wikipédia (português) — Pernambucanas; USP, Pioneiros & Empreendedores — “Os Lundgren”; Brazil Journal — “Acionistas da Pernambucanas fecham acordo e encerram briga de meio século” e “O ‘back to basics’ e o ‘iceberg da transformação’ da Pernambucanas”; GBLJeans — balanço financeiro de 2025; Televendas & Cobrança — alerta de continuidade operacional da auditoria PwC.

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