A história da Ultrafarma: do balconista de 9 anos ao “Rei das Velhinhas” preso numa investigação bilionária

Sidney Oliveira começou a trabalhar numa farmácia aos 9 anos e nunca pisou numa faculdade. Décadas depois, fundou a Ultrafarma explorando a chegada dos genéricos ao Brasil, virou patrocinador da seleção por 30 anos e, em 2025, foi preso numa investigação de fraude fiscal bilionária.

A história da Ultrafarma: do balconista de 9 anos ao "Rei das Velhinhas" preso numa investigação bilionária

Aparecido Sidney de Oliveira começou a trabalhar numa farmácia do interior do Paraná aos 9 anos de idade, o mais velho de onze irmãos, numa família que mal tinha o que comer. Nunca pisou numa faculdade — aprendeu a ler e escrever já adulto, pelo Mobral. Décadas depois, o mesmo homem fundou uma das maiores redes de farmácia por vendas digitais do Brasil, virou patrocinador oficial da seleção brasileira por 30 anos e, em agosto de 2025, foi parar na cadeia como investigado numa fraude fiscal bilionária.

Do balcão no Paraná à Drogavida, o primeiro fracasso em São Paulo

Nascido em 15 de novembro de 1953 em Nova Olímpia (PR), Sidney Oliveira entrou “definitivamente no mercado de medicamentos” ainda criança, como balconista. Nos anos seguintes passou a revender remédios pela região, comprou sua primeira farmácia e chegou a montar uma rede de doze lojas no Paraná — vendida ainda na década de 1980, quando se mudou para São Paulo e abriu uma farmácia própria na Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Em 1998 tentou de novo em maior escala, fundando a rede Drogavida — que não resistiu à concorrência de grupos já consolidados, como Farmais e Drogasil, e foi vendida pouco depois.

2000: a regulamentação dos genéricos e o nascimento da Ultrafarma

A virada veio no ano seguinte, quando o Brasil regulamentou os medicamentos genéricos. Sidney fundou a Ultrafarma apostando nesse mercado recém-criado, com uma fórmula que combinava preços agressivos, televendas, vendas pela internet e entrega em domicílio — décadas antes de “e-commerce farmacêutico” virar jargão de mercado. Na fase inicial, usou a própria imagem em campanhas publicitárias voltadas ao público idoso, o que lhe rendeu o apelido pelo qual ficou conhecido no varejo brasileiro: “Rei das Velhinhas”.

Retrato de Sidney Oliveira, fundador da Ultrafarma, em terno escuro sorrindo
Sidney Oliveira: de balconista aos 9 anos a fundador de uma das maiores farmácias digitais do país.

Do balcão da Saúde ao líder do e-commerce farmacêutico

A estratégia funcionou: cerca de 70% das vendas da Ultrafarma passaram a vir de canais digitais, com a empresa reivindicando hoje mais de 4 milhões de clientes ativos e mais de 15 mil produtos disponíveis — números que a credenciam como uma das líderes do comércio eletrônico farmacêutico no país, mesmo concorrendo com redes físicas muito maiores em número de lojas, como Raia Drogasil e o Grupo DPSP. A matriz, na Avenida Jabaquara, no bairro da Saúde em São Paulo, segue sendo o símbolo mais visível da marca. Ao redor do negócio principal, Sidney construiu um pequeno conglomerado: as Óticas Ultrafarma (mais de 40 unidades, com plano de abrir outras 20 em 2025), a farmácia de manipulação Ultrafórmulas, e até um canal de TV por satélite, a Ultrafarma TV, que existiu entre 2015 e 2017 e foi relançada em 2023 misturando conteúdo comercial com programação religiosa.

Fachada de uma loja Ultrafarma com o logo da marca e a caricatura do fundador Sidney Oliveira no letreiro
O próprio rosto do fundador estampa o letreiro das lojas — parte da identidade visual construída desde as primeiras campanhas publicitárias.

2019-2020: o licenciamento Ultrafarma Popular

Em 2019, a empresa passou a licenciar sua marca para farmácias já estabelecidas em outras cidades, sob a bandeira Ultrafarma Popular — modelo diferente de uma franquia clássica, mas que permitiu multiplicar a presença física da rede sem o investimento direto de abrir novas lojas próprias. Foi justamente esse contrato de licenciamento de marca, alguns anos depois, que acabaria no centro de uma disputa judicial envolvendo o próprio fundador (mais abaixo).

Fachada de loja com letreiro oval amarelo e preto escrito Ultrafarma Popular, em esquina de rua
A bandeira Ultrafarma Popular multiplicou a presença da marca sem depender só de lojas próprias.

2015: de rede regional a patrocinadora da seleção brasileira

Em 13 de julho de 2015, a Ultrafarma oficializou um contrato de patrocínio com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para estampar a marca nos materiais visuais da seleção brasileira — acordo com duração de 30 anos e revisão a cada cinco. Na época, o então presidente da CBF, Marco Polo del Nero, declarou que “a chegada da Ultrafarma reforça a credibilidade da seleção em um novo momento do futebol brasileiro”. Foi um salto e tanto para uma rede que, quinze anos antes, ainda tentava emplacar sua segunda tentativa de negócio em São Paulo.

Sonegação, blindagem patrimonial e uma prisão bilionária

A trajetória de sucesso comercial andou lado a lado com uma sequência de processos. Em 2007, a Ultrafarma foi acusada de sonegação fiscal pela Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. Em janeiro de 2019, a Justiça Federal apontou Sidney Oliveira por dívidas fiscais não pagas de cerca de R$ 3 milhões — episódio seguido, em abril daquele ano, pela suspensão das operações de televendas e atendimento ao cliente da empresa, com a demissão de cerca de 300 funcionários.

Mais recentemente, uma ação de cobrança de dívida movida pelo empresário Anthony Wang — que comprou o crédito de um fundo de investimento que processava outro empresário, Edson Sanches, desde 2020 — levou a Justiça de São Paulo a bloquear R$ 864 mil de Sidney Oliveira e da Ultrafarma. O juiz identificou indícios de uma manobra societária para blindar o patrimônio de Sanches e dificultar a ação de credores, envolvendo contratos de licenciamento de marca (o mesmo modelo do Ultrafarma Popular) e transferência de cotas societárias. Sidney nega irregularidades e afirma que a relação com Sanches se limitou a um contrato de licenciamento da marca, sem qualquer fusão ou união societária entre os negócios.

O capítulo mais grave veio em 12 de agosto de 2025, quando Sidney Oliveira foi preso na “Ação Ícaro”, investigação do Ministério Público de São Paulo (Gedec, Grupo de Atuação Especial de Repressão aos Delitos Econômicos) sobre um esquema de corrupção envolvendo auditores fiscais da Secretaria da Fazenda paulista, suspeitos de fraudar pedidos de ressarcimento de créditos de ICMS desde maio de 2021 — um esquema que teria rendido mais de R$ 1 bilhão em propina ao auditor apontado como líder do grupo. Também foram investigados o diretor da Fast Shop Mario Otávio Gomes e outros auditores e réus por lavagem de dinheiro. Sidney deixou a prisão após habeas corpus que evitou uma fiança de R$ 25 milhões; em 29 de agosto de 2025, a Justiça revogou as medidas cautelares contra ele por falta de denúncia formal do Ministério Público até aquele momento.

Hoje: entre o helicóptero e o processo

O faturamento do grupo Ultrafarma não é público, mas fontes do setor o avaliam perto de R$ 3 bilhões. Sidney Oliveira mora numa chácara em Santa Isabel (SP), desloca-se de helicóptero, coleciona relógios e é fã declarado de Bob Dylan; casou-se na Tailândia em 2024 e financia projetos religiosos e sociais, do Hospital de Amor a iniciativas ligadas ao Cristo Redentor. A Ultrafarma segue operando normalmente, com planos de expansão para as Óticas e a rede de licenciados — mesmo sem uma denúncia formal apresentada contra o fundador até o momento em que este texto foi apurado. Da farmácia de balcão em Nova Olímpia ao patrocínio da seleção brasileira, a trajetória de Sidney Oliveira segue sendo, ao mesmo tempo, uma das histórias de ascensão mais dramáticas do varejo farmacêutico brasileiro e um lembrete de que sucesso comercial e escrutínio judicial nem sempre andam em direções opostas.

Leia também: Raia Drogasil: a história da farmácia familiar que virou líder nacional, A história do Grupo DPSP: como Pacheco e Drogaria São Paulo criaram a rival que nunca abriu capital, A história da Bombril: da lã de aço à disputa que quase acabou com a marca e A história da Marisa: de “loja de mulher pra mulher” a mais de uma década de prejuízo.

Fontes: Wikipédia (Ultrafarma e Sidney Oliveira) — fundação em 2000, trajetória pessoal do fundador, modelo de negócio, dados de faturamento e expansão; Revista Oeste, InvestNews, InfoMoney, SaúdeBusiness, Blog do Adonis — biografia detalhada de Sidney Oliveira, origem no Paraná, Drogavida, apelido “Rei das Velhinhas”; Meio & Mensagem, Promoview, Coluna Italo — patrocínio da Ultrafarma à seleção brasileira em julho de 2015, duração de 30 anos; Metrópoles, Times Brasil/CNBC, CNN Brasil, Painel Político, Gazeta Mercantil — disputa judicial por suposta blindagem patrimonial (ação de Anthony Wang), prisão na Ação Ícaro em agosto de 2025, revogação de medidas cautelares; Wikimedia Commons — imagens (logo oficial, retrato de Sidney Oliveira, fachadas de lojas Ultrafarma e Ultrafarma Popular).

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