A história do Spoleto: de dois restaurantes fechados no Leblon ao maior grupo de food service que a Domino’s já teve no Brasil
O Spoleto nasceu em 1999 de dois restaurantes que fecharam no Leblon e de uma viagem a Miami que inspirou o conceito de "monte seu prato". Hoje é a marca-mãe do Grupo Trigo, holding de R$ 2,43 bilhões que já administrou a Domino's Pizza no Brasil.

Atualizado em: 12 de setembro de 2026
Antes de virar a maior rede de comida italiana em formato self-service do Brasil, o Spoleto nasceu de dois restaurantes que fecharam as portas. A história de Eduardo Ourivio e Mário Chady começou com um fracasso comercial no Leblon — e um passeio de observação em Miami que mudou tudo.
1992-1998: dois restaurantes fechados antes do conceito certo
Em 1992, os amigos Eduardo Ourivio e Mário Chady abriram o Guilhermina Café, um restaurante de culinária contemporânea no Leblon, no Rio de Janeiro. Na sequência, tentaram outro projeto, o Estação Ipanema, um espaço gastronômico no mesmo bairro. Nenhum dos dois vingou como os sócios esperavam. Em 1998, decidiram abandonar as demais operações e concentrar todos os esforços numa ideia só — a que se tornaria o Spoleto.
1999: a viagem a Miami que criou o “monte seu prato”
Em 1997, Ourivio viajou a Miami e observou um formato de atendimento que ainda era raro no Brasil: balcões de omeletes e massas montados na hora, com o cliente escolhendo cada ingrediente diante do funcionário. A ideia virou o modelo de negócio do Spoleto — massas italianas personalizadas, com molhos e acompanhamentos escolhidos item a item pelo cliente, servidas em poucos minutos e a um preço mais baixo que o de um restaurante à la carte.
O nome é uma homenagem a Spoleto, cidade da região da Úmbria, na Itália — escolhido, segundo a própria empresa, pela sonoridade e pela ideia de descontração que remete à gastronomia italiana informal. A primeira loja abriu em 1999, no Rio de Janeiro, com o conceito que definiria a marca: personalização, ingredientes visíveis num balcão aberto e preço acessível.

2001-2013: franquia, expansão nacional e a aventura internacional
Em 2001, o Spoleto adotou o sistema de franquias — decisão motivada pelo interesse dos próprios frequentadores das primeiras lojas em replicar o negócio. A rede cresceu rápido nos anos seguintes, ocupando o espaço de praça de alimentação de shoppings por todo o país, um ambiente que combinava bem com o formato rápido e visualmente atraente do balcão de ingredientes.
A marca também tentou se internacionalizar. Em 2004, chegou ao México por meio de uma parceria com a operação local da Domino’s Pizza — coincidência que ganha sentido quando se olha para o histórico da própria holding por trás do Spoleto (mais abaixo). Depois vieram lojas na Espanha (2007), na Costa Rica (2012) e nos Estados Unidos (2013). Hoje a rede opera mais de 400 lojas, a grande maioria no Brasil, com uma presença menor e mais pontual fora do país.
O Grupo Trigo: de uma marca de massa a uma holding de restaurantes
Ourivio e Chady não pararam no Spoleto. A mesma estrutura empresarial fundada em 1999 se transformou, ao longo dos anos, no Grupo Trigo — hoje uma das maiores holdings de food service do Brasil. Entre 2004 e 2018, o grupo administrou a operação master da Domino’s Pizza no país, vendida em 2018 ao fundo de investimentos Vinci Partners. No caminho, a holding também criou ou comprou outras marcas: Koni Store (comida japonesa em formato rápido), Gurumê (culinária japonesa contemporânea) e LeBonton (padaria e gastronomia francesa).
Vale uma correção editorial aqui: apesar de aparecer com frequência associado ao Grupo Trigo em levantamentos superficiais, o Outback Steakhouse no Brasil não faz parte dessa holding — desde novembro de 2024, a operação brasileira da rede de churrasco é controlada pela gestora Vinci Partners (a mesma que já havia comprado a Domino’s Brasil do Grupo Trigo em 2018), com participação minoritária da americana Bloomin’ Brands.

2021-2025: China in Box, Casa do Pão de Queijo e a aposta na integração vertical
A diversificação do Grupo Trigo ganhou escala em outubro de 2021, com a compra da TrendFoods, dona das marcas China in Box e Gendai, numa operação que colocou o grupo na casa dos R$ 1,4 bilhão em vendas. Nos anos seguintes, a holding seguiu comprando: entraram no portfólio a Casa do Pão de Queijo, a rede de açaí Deep Purpl e a Lizzano.
O diferencial estratégico do grupo, segundo a própria liderança, não é só ter várias marcas — é controlar boa parte da cadeia de suprimentos: fábrica própria, distribuidora e importadora atendem a todas as marcas do portfólio ao mesmo tempo, reduzindo custo e dependência de terceiros, um modelo raro entre redes de franquia no Brasil.

2025-2026: recorde de faturamento e a 400ª loja
O Grupo Trigo fechou 2025 com R$ 2,43 bilhões em faturamento de ecossistema, alta de 11% sobre o ano anterior — resultado puxado por um crescimento que, segundo a própria liderança da empresa, veio tanto de receita quanto de número de pedidos na mesma base de lojas, num momento em que indicadores do setor de alimentação fora do lar mostravam recuo. Cerca de 70% das 81 novas lojas abertas no período vieram de franqueados que já operavam outras unidades da rede, não de estreantes no negócio — sinal de confiança de quem já conhece o modelo por dentro.
O Spoleto, especificamente, comemorou a inauguração da loja de número 400 e bateu recorde histórico na tradicional “Campanha de Pratos” de 2025, com 128.342 pratos vendidos em apenas 12 dias — alta de 90% sobre a edição anterior. Para 2026, os planos incluem a integração da tecnologia da recém-adquirida Casa do Pão de Queijo e uma tentativa renovada nos Estados Unidos, desta vez com lojas próprias em vez do modelo de franquia usado na primeira tentativa, em 2013.
Mais de duas décadas depois de dois restaurantes fecharem no Leblon, o balcão de ingredientes que Eduardo Ourivio viu em Miami segue sendo o motor de um grupo de alimentação bilionário — construído, item por item, do mesmo jeito que um cliente monta o próprio prato.
Para conhecer outras histórias do setor de fast-food e restaurantes no Brasil, vale ler também as trajetórias do Habib’s, do McDonald’s/Arcos Dourados, do Giraffas e do Burger King Brasil/Zamp.
