A história dos Correios: da carta que ajudou a proclamar a Independência ao rombo bilionário de hoje

Fundados em 1663, os Correios são a empresa mais antiga do Brasil. A história completa: o selo Olho-de-Boi, o CEP, os barcos da Amazônia, a montanha-russa financeira e o debate sobre privatização.

A história dos Correios: da carta que ajudou a proclamar a Independência ao rombo bilionário de hoje

Atualizado em: 11 de setembro de 2026

Antes de existir Brasil independente, já existiam os Correios. A instituição nasceu em 1663, ainda sob o domínio português, mais de 150 anos antes de Dom Pedro I gritar às margens do Riacho do Ipiranga — e, segundo o relato mais difundido sobre aquele 7 de setembro de 1822, foi justamente um carteiro que entregou a carta que motivou o grito. Hoje, 363 anos depois de nascer como um punhado de “correios-mores” encarregados de levar cartas pelo litoral colonial, a estatal é ao mesmo tempo a empresa mais antiga em atividade no país, presente nos 5.570 municípios brasileiros, e uma companhia à beira de um dos maiores rombos financeiros da sua história recente. Entre o Olho-de-Boi — um dos selos mais raros do planeta — e o debate sobre privatização que atravessa três governos, a trajetória dos Correios é também, em boa medida, a própria história logística do Brasil.

1663: o Correio-Mor das Cartas do Mar nasce na colônia

A data oficial de fundação é 25 de janeiro de 1663, quando a Coroa portuguesa institucionalizou o serviço postal regular na colônia com a criação do cargo de Correio-Mor das Cartas do Mar. Bartolomeu Fragoso Cabral foi nomeado responsável pela Bahia, então centro administrativo da colônia, enquanto João Cavalheiro Cardoso assumiu a função no Rio de Janeiro. O trabalho, nessa fase, era rudimentar: cartas viajavam por embarcações entre os principais portos, sem rede terrestre organizada, sujeitas ao ritmo dos ventos e das marés — mais de um século antes de qualquer ideia de “correspondência doméstica” ou “entrega em domicílio” fazer sentido num território do tamanho do Brasil colonial.

A carta que ajudou a proclamar a Independência

Um dos episódios mais simbólicos da história brasileira passa, segundo o relato tradicional, direto pelas mãos de um carteiro. Em 7 de setembro de 1822, Paulo Emílio Bregaro — considerado o primeiro carteiro do país — entregou a Dom Pedro I, então às margens do Riacho do Ipiranga, em São Paulo, uma correspondência enviada pela Imperatriz Leopoldina. Ao tomar conhecimento do conteúdo da carta, Dom Pedro proclamou a Independência do Brasil ali mesmo. É um detalhe pouco lembrado nos livros de história escolar, que costumam centrar o episódio na figura do príncipe regente: a notícia que selou a ruptura com Portugal chegou até ele pelas mãos do serviço postal que, 159 anos antes, tinha começado como um punhado de nomeações régias para levar cartas entre portos.

Pintura Independência ou Morte, de Pedro Américo (1888), retratando Dom Pedro I às margens do Riacho do Ipiranga
“Independência ou Morte”, de Pedro Américo (1888): a carta que motivou o gesto de Dom Pedro I chegou às suas mãos pelo serviço postal.

1843: o Olho-de-Boi e o 2º selo postal nacional do mundo

Vinte e um anos depois da Independência, os Correios protagonizaram outro capítulo raro na história mundial das comunicações. Em 1º de agosto de 1843, entrou em circulação a primeira emissão postal brasileira: uma série de três selos, nos valores de 30, 60 e 90 réis, com um desenho circular que valeu o apelido popular de “Olho-de-Boi”. O Brasil se tornou, com isso, o segundo país do mundo a emitir selos postais de circulação nacional — atrás apenas do Reino Unido, que tinha lançado o histórico “Penny Black” em maio de 1840, com o perfil da rainha Vitória. Hoje, exemplares do Olho-de-Boi — sobretudo os usados, como o que ilustra este artigo, com a marca de carimbo postal da época — figuram entre os selos mais disputados e raros do mundo entre colecionadores e estão preservados em acervos como o do Museu Paulista, da USP.

Selo postal Olho-de-Boi de 30 réis, primeira emissão postal do Brasil em 1843, com marca de carimbo da época
Em 1843, o Brasil se tornou o 2º país do mundo a emitir selos postais de circulação nacional — atrás só do Reino Unido.

Do Império à fusão com os telégrafos: um século de reformas

Ao longo do século 19, o sistema postal foi ganhando estrutura de Estado. Em 1829, a “Nova Regulamentação dos Correios” padronizou os serviços nas províncias e criou a Diretoria-Geral dos Correios, formalizada em 1844 pelo Decreto nº 399. Em 1835, começou a entrega domiciliar de correspondência — até então, era comum o destinatário precisar buscar suas cartas pessoalmente numa agência. Em 1852, o telégrafo elétrico chegou ao país, abrindo caminho para décadas de convivência entre dois sistemas de comunicação que, décadas depois, se fundiriam numa única estrutura. Com a Proclamação da República, o Decreto nº 346, de 19 de abril de 1890, criou a Secretaria de Estado dos Negócios da Instrução Pública, Correios e Telégrafos — uma combinação hoje curiosa de educação e comunicações sob a mesma pasta. Durante a Primeira Guerra Mundial, depois de o Brasil declarar guerra em 1917, o país viveu um episódio pouco lembrado de censura postal: entre novembro de 1917 e janeiro de 1919, mais de quatro milhões de correspondências foram submetidas a exame oficial, e cerca de 154.237 delas chegaram a ser apreendidas. A fusão que definiria a identidade da instituição por décadas veio em 26 de dezembro de 1931, quando o Decreto nº 20.859 uniu a Diretoria-Geral dos Correios à Repartição Geral dos Telégrafos, criando o Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT), que passou a operar a partir de 1º de janeiro de 1932.

Fachada histórica de um antigo palácio dos Correios, com torre de relógio e arquitetura eclética do início do século 20
Prédios monumentais como este, erguidos entre o fim do século 19 e o início do 20, ainda marcam a paisagem de várias capitais brasileiras.

1969: nasce a ECT e chega o CEP

A estrutura que a maioria dos brasileiros reconhece hoje só nasceu em 20 de março de 1969, quando o Decreto-Lei nº 509 — editado durante o regime militar, um ano depois da criação do Ministério das Comunicações em 1967 — transformou o antigo departamento público na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), empresa pública com autonomia administrativa e financeira própria. A década seguinte trouxe uma das inovações mais duradouras da história da instituição: em 1971, entrou em vigor o Código de Endereçamento Postal, o CEP, que reorganizou a lógica de distribuição de correspondência em todo o território nacional e, décadas mais tarde, se tornaria peça-chave de praticamente todo sistema de logística e e-commerce do país — de aplicativos de entrega a cadastros de compras online. Em 6 de março de 1980, a inauguração de uma nova sede regional com centro de triagem moderno simbolizou o auge da modernização física da rede.

Caixa de coleta amarela dos Correios com instruções de preenchimento do CEP no envelope padronizado
O CEP, criado em 1971, virou peça central de qualquer entrega no Brasil — inclusive nas caixas de coleta tradicionais espalhadas pelo país.

Carteiros de barco e avião: como os Correios conectam um país continental

Poucas empresas do mundo enfrentam o desafio logístico de operar num território do tamanho do Brasil — e a Amazônia é o exemplo mais extremo. Desde a década de 1930, quando o Correio Aéreo Militar (que décadas depois viraria o Correio Aéreo Nacional) chegou pela primeira vez à região em 1935, os Correios dependem de meios de transporte muito diferentes dos caminhões e vans que operam no Sudeste do país. Nos anos 1950, a frota de aviões anfíbios Catalina reforçou as rotas amazônicas, pousando tanto em pistas quanto em rios. A lógica persiste até hoje: no Amazonas, os 63 municípios do estado dependem de barcos e balsas, e 86% da carga não urgente do estado é transportada pelo modal fluvial — contra apenas 14% por rodovias —, aproveitando mais de 16 mil quilômetros de hidrovias que funcionam como a verdadeira malha rodoviária da região. Cargas urgentes viajam semanalmente por via aérea até cidades como Carauari, Eirunepé, Envira, Tabatinga e Tefé. Em média, embarcações fluviais transportam cerca de 70 toneladas de carga interna, contra pouco mais de cinco toneladas pela via aérea. É essa rede — parte rodovia, parte rio, parte pista de pouso improvisada — que sustenta, ainda hoje, serviços que vão muito além da carta tradicional: distribuição de livros didáticos do Programa Nacional do Livro Didático, logística de aplicação do Enem, entrega de vacinas e medicamentos a regiões remotas, e o Banco Postal, que segue sendo, em milhares de municípios sem agência bancária, a única porta de acesso a serviços financeiros básicos — incluindo a Carta Social, que cobra apenas R$ 0,01 de beneficiários do Bolsa Família para o envio de correspondência.

Fachada de uma agência dos Correios em Santarém, no Pará, região amazônica, com o logotipo oficial visível
Em cidades como Santarém, os Correios seguem sendo, para muitos moradores, o único elo formal com o resto do país.

Os anos de montanha-russa: do prejuízo recorrente ao lucro histórico

Fachada de uma agência dos Correios em Brasília, com o logotipo oficial da empresa
Milhares de agências como esta, espalhadas pelo país, sustentam uma rede física que hoje precisa disputar espaço com o comércio eletrônico.

Nas últimas duas décadas, os números da ECT contam uma história de oscilações bruscas — não de declínio linear. Entre 2013 e 2016, a estatal amargou quatro anos seguidos de prejuízo, num período em que a perda de correspondência tradicional se acelerou de forma dramática: o volume de cartas em queda avançou mais de 1.000% entre 2010 e 2016, num reflexo direto da migração para e-mail e aplicativos de mensagem. Prejuízos acumulados de cerca de R$ 4 bilhões entre 2016 e 2017, somados a denúncias de má gestão, uso político de cargos e corrupção, levaram a um pacote de ajuste: em 2017-2018, quase 300 agências foram fechadas; em maio de 2019, um Plano de Desligamento Voluntário mirou mais de 7 mil funcionários; em outubro daquele ano, produtos internacionais de baixo uso foram descontinuados. A reviravolta veio rápido: depois de retornar ao azul em 2017 (R$ 667 milhões de lucro) e manter resultado positivo em 2018 e 2019 (R$ 161 milhões e R$ 102,1 milhões, respectivamente), a pandemia de Covid-19 — que disparou o comércio eletrônico no Brasil — impulsionou um salto histórico: R$ 1,53 bilhão de lucro em 2020 e, em 2021, o melhor resultado em 22 anos, R$ 3,7 bilhões, 101% acima do ano anterior. A recuperação veio combinada com medidas de reestruturação — venda de 50 imóveis (R$ 41 milhões), alienação de veículos (R$ 80 milhões) e uma renegociação do Acordo Coletivo de Trabalho que gerou economia anual de R$ 500 milhões.

O debate da privatização que atravessa três governos

O auge financeiro de 2021 não encerrou, porém, uma discussão que já vinha de antes e que segue em aberto até hoje: o que fazer com uma estatal que ora dá lucro recorde, ora acumula rombos bilionários? Em abril de 2019, o então presidente Jair Bolsonaro anunciou pela primeira vez a intenção de privatizar os Correios. Em março de 2021, a estatal foi incluída no Programa Nacional de Privatizações (PND); o BNDES conduziu estudos de modelagem, e a Câmara dos Deputados chegou a aprovar um projeto de lei sobre o tema em agosto daquele ano. O processo, no entanto, nunca avançou até a venda efetiva. Em janeiro de 2023, já sob um novo governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva retirou os Correios do PND. Os argumentos dos dois lados do debate seguem os mesmos desde então: quem defende a privatização aponta o potencial de arrecadação estimado em R$ 4,4 bilhões por ano com a venda e ganhos de eficiência operacional; quem se opõe alerta para o risco de abandono de regiões remotas sem atrativo comercial, aumento de tarifas para o consumidor final e a perda de um papel estratégico que a estatal exerce em eleições, no Enem, na distribuição de vacinas e em outros serviços públicos essenciais — funções que, argumenta-se, dificilmente uma operadora privada assumiria pelo mesmo custo.

2022-2026: o novo rombo bilionário e a aposta no e-commerce

A montanha-russa financeira, no entanto, ainda não parou. Depois do lucro recorde de 2021, os Correios voltaram ao prejuízo em 2022 (R$ 808,8 milhões) e 2023 (R$ 596,6 milhões) — e a situação se agravou de forma acentuada dali em diante: R$ 2,59 bilhões de prejuízo em 2024 (ano em que a estatal também realizou seu primeiro concurso público em 13 anos, com 1,6 milhão de inscritos disputando apenas 3.511 vagas) e um rombo acumulado de R$ 8,45 bilhões em 2025 — o pior resultado da história recente da empresa. Para tentar reequilibrar as contas, os Correios contrataram um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos, com garantia do Tesouro Nacional, e chegaram a buscar uma linha adicional de até R$ 20 bilhões, com a meta declarada de voltar a dar lucro em 2027; em dezembro de 2025, um novo Plano de Desligamento Voluntário mirou 15 mil funcionários. No primeiro semestre de 2026, o prejuízo acumulado chegou a R$ 5,55 bilhões — 30,36% maior que o mesmo período de 2025 —, ainda que o resultado do segundo trimestre isoladamente (R$ 2,39 bilhões negativos) tenha mostrado uma desaceleração de 5,5% no ritmo de perdas na comparação anual, um sinal, ainda tímido, de que o pior talvez já tenha ficado para trás. Em meio à crise, a estatal também tentou se reinventar: em julho de 2025, lançou o “Mais Correios”, marketplace oficial em parceria com a Infracommerce, com a proposta de democratizar o acesso ao comércio eletrônico para pequenos e médios empreendedores — uma aposta direta para tentar competir no mesmo terreno que, décadas atrás, ajudou a esvaziar o volume de cartas físicas que sustentou a instituição por três séculos.

Caminhão do SEDEX dos Correios, serviço expresso de entregas, com a identidade visual oficial da empresa
O SEDEX e o novo marketplace “Mais Correios” são as apostas da estatal para não ficar de fora da era do e-commerce.

Leia também: A história da Eletrobras: de estatal a privatização com “pílula anti-Lula”, A história da Caixa: de decreto de Dom Pedro II ao maior banco público da América Latina, A história da LATAM: da TAM de Rolim Amaro à maior companhia aérea da América Latina e A história da Azul: do sonho de Neeleman à recuperação judicial.

Fontes: Wikipédia (português) — Correios e Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos; Assembleia Legislativa de São Paulo — “Olho-de-Boi, o primeiro selo do Brasil, completou 160 anos”; Wikipédia — Olho de Boi (selo); Blog dos Correios — releitura do Olho de Boi; Força Aérea Brasileira — história dos pioneiros do Correio Aéreo Nacional; Blog dos Correios — logística fluvial na região Norte; ND+ — prejuízo dos Correios no 1º semestre de 2026; Times Brasil/CNBC — rombo de R$ 8,5 bilhões e debate sobre privatização; Gazeta do Povo — crise financeira recente; Agência Brasil — plano de demissão voluntária.

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