A história da Ford no Brasil: de uma das primeiras multinacionais do país ao fim de 101 anos de fábrica

A Ford chegou ao Brasil em 1919, uma das primeiras multinacionais a se instalar no país, e construiu um século de fábricas, marcas icônicas e aquisições. Em 2021, depois de mais de 100 anos, anunciou o fim da produção local — com um prejuízo de US$ 4,1 bilhões e o fechamento de três fábricas.

A história da Ford no Brasil: de uma das primeiras multinacionais do país ao fim de 101 anos de fábrica

A Ford foi uma das primeiras multinacionais a se instalar no Brasil — e, mais de um século depois, uma das primeiras grandes montadoras a abandonar por completo a fabricação de carros no país. Entre 1919 e 2021, a marca passou por quase todas as fases da indústria automotiva brasileira: da montagem artesanal do Ford T a fábricas modernas, de fusões estratégicas a um encerramento abrupto que surpreendeu funcionários e concessionárias. Esta é a história desse ciclo completo.

1919: a chegada ao Brasil e o Ford T

A Ford do Brasil foi fundada em 24 de abril de 1919, com um capital de US$ 25 mil transferido da operação argentina para um pequeno galpão na Rua Florêncio de Abreu, em São Paulo. Um ano depois, o então presidente Epitácio Pessoa autorizou formalmente as operações da empresa no país, e em 1921 a Ford inaugurou sua primeira fábrica de verdade, na Rua Solon, no Bom Retiro. Os primeiros veículos montados ali eram os icônicos Ford T — automóveis e as picapes TT —, e já em 1923 a fábrica produzia 4.700 carros e 360 tratores por ano, com apenas 124 funcionários. Era o início de uma presença que se estenderia por mais de um século.

Ford T histórico em museu de transporte em São Paulo
Um Ford T da década de 1920 preservado em museu de São Paulo — o modelo que abriu a produção da marca no Brasil.

1967: a fusão com a Willys e o nascimento do Corcel

Em 1967, a Ford deu um passo decisivo para se firmar no mercado brasileiro: adquiriu a Willys-Overland do Brasil, fabricante do Jeep e de outros modelos populares na época. A aquisição trouxe fábricas, engenharia e uma base de clientes já consolidada — e, em 1968, resultou no lançamento do Ford Corcel, um dos carros mais populares da história automotiva brasileira, vendido por décadas em diferentes gerações. Duas décadas depois, em 1987, a Ford uniu forças com a maior rival no país, a Volkswagen, formando a Autolatina — uma joint venture em que a VW detinha 51% e a Ford, 49%, com tecnologia de motores e transmissões compartilhada entre as duas marcas. A parceria durou até 1996, quando cada fabricante retomou operações independentes.

Ford Corcel recém-lançado em feira industrial de Sorocaba, 1969
O recém-lançado Ford Corcel exibido em feira industrial em Sorocaba, em 1969 — um dos carros mais populares já vendidos no Brasil.

2001-2007: Camaçari e a compra da Troller

Em 2001, a Ford inaugurou uma fábrica moderna em Camaçari, na Bahia, para produzir modelos como Courier, Fiesta, EcoSport e Ka — um investimento que reposicionou a marca no Nordeste e ampliou sua capacidade produtiva no país. Seis anos depois, em 2007, a Ford comprou a Troller, fabricante cearense de veículos off-road fundada em 1995 por Rogério Farias e expandida pelo empresário Mário Araripe, que recebeu entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões pela marca. Além do modelo T4, um jipe robusto que conquistou fãs fiéis no Brasil, a aquisição também interessava à Ford por outro motivo: os incentivos fiscais vinculados à Troller isentavam a fabricante de tributos sobre a produção de EcoSport e Ka em Camaçari. A fábrica de São Bernardo do Campo, uma das mais antigas da marca no país, encerrou suas atividades em fevereiro de 2019 — um sinal do que estava por vir.

Troller T4, veículo off-road fabricado pela Ford no Brasil
O Troller T4 se tornou um símbolo de nicho da indústria automotiva nacional sob controle da Ford.

2021: o fim de 101 anos de fábrica no Brasil

Em 11 de janeiro de 2021, a Ford anunciou o encerramento definitivo da produção de veículos no Brasil, fechando as fábricas de Taubaté (SP) e Camaçari (BA); a unidade da Troller, em Horizonte (CE), seguiu operando até o fim do ano. A decisão, atribuída pela empresa a uma “persistente capacidade ociosa da indústria”, gerou uma baixa contábil de US$ 4,1 bilhões — cerca de US$ 2,5 bilhões em 2020 e US$ 1,6 bilhão em 2021 — e o desligamento de mais de 5 mil funcionários, encerrando 101 anos de fabricação contínua no país. Desde então, a Ford Brasil opera exclusivamente com veículos importados, principalmente da China e da Argentina, e viu sua rede de concessionárias encolher de 283, em 2021, para cerca de 145 hoje. Em 2023, parte do terreno da antiga fábrica de Camaçari foi comprada pela BYD, fabricante chinesa de elétricos — fechando, de forma simbólica, o ciclo de mais de um século da Ford como montadora no Brasil.

Leia também: A história da BYD: do órfão que fabricava baterias ao investimento de Warren Buffett e à fábrica na antiga planta da Ford, A história da GOL: da aviação de baixo custo ao fechamento de capital, A história da Azul: do sonho de Neeleman à recuperação judicial que tirou o controle do fundador e A história do McDonald’s no Brasil: como um franqueado da Argentina virou dono de toda a América Latina.

Fontes: Wikipédia (português e inglês) — Ford do Brasil, Automotive Business — “Ford encerra produção no Brasil ao custo de US$ 4,1 bilhões e 5 mil demissões” e reportagens sobre a história da Troller (Autopapo, CNN Brasil, O Povo).

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