A história da Eletrobras: de estatal criada por Jânio Quadros à privatização com “pílula anti-Lula”

A Eletrobras nasceu em 1962 como estatal do setor elétrico e virou a maior empresa do setor na América Latina. Privatizada em 2022 com uma blindagem contra reestatização, segue no centro de uma disputa política até hoje.

A história da Eletrobras: de estatal criada por Jânio Quadros à privatização com "pílula anti-Lula"

A maior empresa do setor elétrico da América Latina nasceu como estatal, foi privatizada com uma blindagem contra qualquer tentativa futura de reestatização, e segue sendo alvo de disputa política mais de três anos depois. A história da Eletrobras passa pela criação sob Jânio Quadros e João Goulart, pela construção de Itaipu, pela privatização de 2022 com uma “pílula anti-Lula”, e pela batalha ainda em curso pelo controle da empresa. Veja como isso aconteceu.

Uma ideia de Vargas que virou estatal 12 anos depois

O projeto de criar uma empresa federal para coordenar o setor elétrico brasileiro nasceu ainda no governo Vargas, mas só saiu do papel em 25 de abril de 1961, quando o presidente Jânio Quadros promulgou a Lei nº 3.890-A, autorizando a criação da Eletrobras. A instalação oficial da empresa aconteceu em 11 de junho de 1962, em sessão solene no Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro, já sob o governo João Goulart. A criação do Ministério das Minas e Energia, em 1960, e a consolidação de estatais regionais como Chesf, Cemig e Furnas foram decisivas para viabilizar o projeto.

Itaipu e décadas como gigante do setor elétrico

Nas décadas seguintes, a Eletrobras e suas subsidiárias — Furnas, Chesf, Eletronorte e Eletronuclear — construíram e passaram a operar algumas das maiores usinas do país, com destaque para Itaipu, a hidrelétrica binacional Brasil-Paraguai inaugurada em 1984. Com o tempo, a companhia se consolidou como a maior empresa do setor elétrico da América Latina, respondendo por cerca de 28% de toda a geração de energia do Brasil e dona de mais de 73 mil km de linhas de transmissão — o equivalente a 40% do sistema de transmissão nacional.

Torres de transmissão de energia elétrica de alta tensão, ilustrando a rede que a Eletrobras controla no Brasil
Além da geração, a Eletrobras é dona de boa parte da rede de transmissão de energia do país.

A privatização de 2022 e a “pílula anti-Lula”

Em junho de 2021, o Senado aprovou a Medida Provisória 1031/2021, abrindo caminho para a privatização da Eletrobras. A operação foi concluída em junho de 2022 por meio de uma oferta de ações na bolsa — uma capitalização, não um leilão de controle —, que reduziu a participação do governo federal de cerca de 65% para cerca de 42%, arrecadando na casa de R$ 30 bilhões. O novo estatuto da empresa trouxe mecanismos de defesa contra qualquer tentativa de reconcentração de poder: nenhum acionista pode ter mais de 10% dos votos, e quem acumular 30% das ações ordinárias por mais de 120 dias é obrigado a fazer uma oferta pública para todos os demais acionistas, pagando um prêmio de 100% sobre a cotação mais alta dos últimos dois anos — prêmio que sobe para 200% acima de 50% de participação. O mercado batizou essas regras de “pílula anti-Lula”.

Logotipo oficial da Eletrobras
O novo estatuto pós-privatização blindou a Eletrobras contra qualquer tentativa de reconcentração de controle.

A batalha política pela reversão, ainda em curso

Já de volta à Presidência, Lula classificou a privatização como “o maior roubo da história desse país”, em discurso feito em maio de 2026. O governo chegou a questionar a validade da lei na Justiça por meio de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, mas a Advocacia-Geral da União desistiu da ação, mantendo intactos os artigos que limitam o poder de voto do governo na empresa. Enquanto a disputa política segue sem solução prática, os números da companhia continuam sólidos: no segundo trimestre de 2025, a Eletrobras registrou lucro ajustado de R$ 1,47 bilhão, alta de 43% sobre o ano anterior, e distribuiu R$ 4 bilhões em dividendos a cerca de 240 mil acionistas. A empresa que nasceu para ser o braço estatal da energia elétrica no Brasil hoje segue como a maior do setor no país — só que sem um dono só, e no centro de uma briga política que nenhum dos dois lados venceu até agora.

Vista do reservatório da usina de Furnas, uma das principais subsidiárias da Eletrobras, em Minas Gerais
Furnas é uma das subsidiárias históricas da Eletrobras, hoje uma empresa sem acionista majoritário definido.

Leia também: A história da Petrobras, Vale: de estatal de Vargas à maior mineradora das Américas, A história da CSN: a siderúrgica que disputou o controle com a Vale e A história da WEG: de oficina a 3ª maior empresa da B3.

Fontes: Memória da Eletricidade — A criação da Eletrobras (1950-1962), Money Times — As 3 armas contra quem tentar ser dono da Eletrobras após a privatização, Metrópoles — Os entraves para o governo Lula reverter a privatização da Eletrobras e InfoMoney — Eletrobras tem lucro ajustado de R$ 1,5 bi no 2º tri e anuncia R$ 4 bi em dividendos.

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