A história do GPA: duas famílias Diniz, sem nenhum parentesco, dividem o comando do Pão de Açúcar
O Pão de Açúcar nasceu de uma doceria de um imigrante português em 1948. Décadas depois de uma disputa pública entre a família Diniz e o grupo francês Casino, quem assumiu o controle do GPA foi outra família de sobrenome Diniz — sem nenhum parentesco com a primeira.

O Grupo Pão de Açúcar nasceu de uma doceria com nome de cartão-postal e, décadas depois de uma batalha societária pública contra um grupo francês, acabou nas mãos de uma família que também se chama Diniz — sem nenhum parentesco com os fundadores. Entre uma coisa e outra, a empresa perdeu o próprio Assaí, abriu mão da bandeira Extra e hoje negocia bilhões em dívida numa recuperação extrajudicial.
1948-1959: a doceria batizada em homenagem ao Rio de Janeiro
Valentim dos Santos Diniz chegou ao Brasil em 1929, imigrante português fascinado pela paisagem do Rio de Janeiro — em especial pelo Pão de Açúcar, o monumento natural que deu nome ao seu primeiro negócio. Em 1948, ele abriu em São Paulo a Doceira Pão de Açúcar. Onze anos depois, em 1959, já com a ajuda do filho Abilio Diniz, inaugurou no bairro Jardim Paulista o primeiro supermercado da marca. Em 1970 veio o Jumbo, um dos primeiros hipermercados do país — parte da expansão que transformaria o pequeno negócio de doces numa das maiores redes de varejo do Brasil.

1999: nasce o GPA — e chega o sócio francês
Em 1999, o Pão de Açúcar se fundiu com o Grupo Sendas, formando o GPA (Grupo Pão de Açúcar). No mesmo ano, a rede ganhou um sócio que mudaria sua história para sempre: o grupo francês Casino, então comandado por Jean-Charles Naouri, comprou 22% do capital da companhia por R$ 1,5 bilhão. Em 2005, um novo acordo de acionistas foi assinado — e ele continha uma cláusula que se tornaria decisiva: Naouri poderia assumir o controle do GPA em 2012, ano em que Abilio Diniz completaria 75 anos.
2011-2013: a fusão secreta que explodiu a sociedade
Às vésperas de perder o controle para o Casino, Abilio Diniz tentou uma manobra ousada: negociou em segredo uma fusão da operação brasileira do GPA com a do Carrefour — a maior rival do próprio Casino na França. O acordo vazou primeiro para a imprensa francesa, e Naouri soube da tentativa pelos jornais antes de qualquer conversa direta com o sócio brasileiro. A reação foi dura: o Casino usou o próprio acordo de acionistas de 2005 para consolidar o controle em 2012. Em 2013, Abilio Diniz deixou a empresa fundada por seu pai — e usou parte do dinheiro da saída para se tornar um dos principais acionistas do Carrefour, o mesmo grupo que ele havia tentado trazer para dentro do GPA.
2007-2021: o Assaí que cresceu maior que a própria controladora
Em 2007, ainda sob o comando de Abilio Diniz, o GPA comprou 60% do Assaí por R$ 175 milhões, assumindo o controle total dois anos depois. A aposta no atacarejo deu certo além do esperado: em 2020, ainda como subsidiária, o Assaí já faturava R$ 39,4 bilhões — mais que os R$ 30 bilhões da própria controladora, história já contada em detalhe neste site. Em 1º de março de 2021, a cisão formalizou o que os números já mostravam havia tempo: as duas empresas passaram a operar de forma independente, cada uma com ações próprias na B3.
2021-2022: a bandeira Extra vendida para o próprio ex-filho
Meses depois de perder o Assaí, o GPA decidiu abrir mão de outra frente: em outubro de 2021, vendeu 71 lojas da bandeira de hipermercados Extra ao próprio Assaí, por R$ 5,2 bilhões, com a conversão das unidades concluída em janeiro de 2022. A ironia não passou despercebida no mercado — a rede que o GPA perdera na cisão de 2021 se tornou, meses depois, compradora de parte do próprio patrimônio da ex-controladora. Com a saída do formato hipermercado, o grupo concentrou a operação nas bandeiras Pão de Açúcar (premium), Mercado Extra e Minuto Pão de Açúcar (proximidade).

2024-2025: o Casino sai, e chega outra família Diniz
Passada mais de uma década no comando, o Casino também deu início à sua própria saída. Em março de 2024, o grupo francês diluiu sua participação para 22,5%, deixando de exercer o controle do GPA — parte de um movimento mais amplo de desembarque do Casino da América Latina, que já havia vendido ativos no Uruguai, na Argentina e na Colômbia. Abilio Diniz não viveu para ver esse capítulo: morreu em 18 de fevereiro de 2024, aos 87 anos, poucas semanas antes de o Casino abrir mão do controle da empresa fundada por seu pai.
Quem ocupou o vácuo de poder foi uma surpresa para o mercado: a família Coelho Diniz, de Governador Valadares, em Minas Gerais — sem nenhum parentesco com Valentim ou Abilio Diniz, apesar do sobrenome idêntico. Donos de uma rede regional de supermercados com o próprio nome da família, fundada nos anos 1990 no leste mineiro, os irmãos Coelho Diniz consolidaram cerca de 24,6% do capital do GPA em 2025, superando o Casino e se tornando o maior bloco de acionistas da companhia — com André Luiz Coelho Diniz assumindo a presidência do conselho de administração.

2026: recuperação extrajudicial e o capítulo mais difícil
A companhia que um dia foi sinônimo de supermercado no Brasil hoje enfrenta uma crise financeira real. Em março de 2026, o GPA anunciou pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas financeiras — a Justiça aprovou o plano inicial, e em maio um novo acordo com credores ampliou a renegociação para R$ 4,6 bilhões, com prazo médio estendido para cerca de seis anos e redução superior a 50% no custo total da dívida ao longo do tempo. No mesmo período, a companhia interrompeu o plano de expansão que previa 300 novas lojas até 2026 (apenas 213 haviam sido abertas) e reportou prejuízo de R$ 572 milhões só no quarto trimestre de 2025 — 48,2% menor que o prejuízo do mesmo período do ano anterior, mas prejuízo ainda assim.
Da doceria com nome de cartão-postal à disputa societária que colocou pai e filho contra um grupo francês, passando pela perda do próprio Assaí e pela chegada de uma família de sobrenome coincidente, o GPA de hoje é uma empresa bem menor do que já foi — mas segue sendo, quase 80 anos depois, uma referência de como o varejo brasileiro se transforma.
Leia também: A história do Assaí: do jovem de 19 anos que revendia farinha à maior rede de atacarejo do Brasil, A história do Carrefour: da encruzilhada francesa ao hipermercado que fechou o capital no Brasil, Casas Bahia: da Kombi ao maior varejista do Brasil e A história da Marisa: da loja “de mulher pra mulher” a mais de uma década de prejuízo.
Fontes: Wikipédia (português e inglês), euqueroinvestir.com, Jornal de Brasília, SuperVarejo — fundação da Doceira Pão de Açúcar (1948), primeiro supermercado (1959) e fusão com o Grupo Sendas (1999); Exame, ISTOÉ Dinheiro, Jusbrasil — disputa entre Abilio Diniz e Jean-Charles Naouri (Casino), acordo de acionistas de 2005, tentativa de fusão com o Carrefour em 2011 e saída de Diniz em 2013; BM&C News, Diário do Comércio, Terra, Gazeta Digital — venda de 71 lojas Extra ao Assaí (2021-2022); ISTOÉ Dinheiro, Seu Dinheiro, InvestNews, Aceleravarejo — diluição do Casino em 2024 e ascensão da família Coelho Diniz em 2025; Poder360, CNN Brasil, Metrópoles — morte de Abilio Diniz em fevereiro de 2024; InvestNews, Exame, CNN Brasil, ADVFN, Times Brasil/CNBC — recuperação extrajudicial de 2026 e resultados financeiros recentes; Wikimedia Commons — imagens (logo GPA, logo Extra, fachada da rede Coelho Diniz).
