A história da Unimed: os médicos que viraram donos do próprio negócio para não trabalhar para ninguém

A Unimed nasceu em 1967, em Santos, como reação de um grupo de médicos à "medicina de grupo". Hoje é a maior cooperativa de saúde do mundo, mas o mesmo modelo descentralizado que a fez crescer também está na raiz de uma crise financeira sistêmica em 2024-2025.

A história da Unimed: os médicos que viraram donos do próprio negócio para não trabalhar para ninguém

Enquanto a maioria dos planos de saúde do Brasil pertence a bancos, seguradoras ou fundos de investimento, o maior deles pertence aos próprios médicos que atendem os pacientes. A Unimed nasceu em 1967 de uma ideia simples e radical para a época: em vez de trabalhar para empresas de saúde comandadas por não médicos, um grupo de profissionais decidiu virar dono do próprio negócio. Quase 60 anos depois, esse mesmo modelo cooperativo que a tornou a maior organização de saúde do gênero no mundo também é a origem da pior crise financeira que o sistema já enfrentou.

1967: a reação à “medicina de grupo” nasce em Santos

Em 18 de dezembro de 1967, na cidade litorânea de Santos, o ginecologista e obstetra Edmundo Castilho reuniu outros 22 médicos e fundou a primeira cooperativa de trabalho médico do Brasil. O nome escolhido resumia a proposta: Unimed, abreviação de “União dos Médicos”. A motivação era uma reação organizada ao avanço da chamada “medicina de grupo” — empresas fundadas por administradores e investidores, não por médicos, que vendiam planos de saúde e intermediavam o atendimento, ditando preços e condições de trabalho a profissionais que não tinham poder de decisão sobre o próprio negócio.

O modelo cooperativo invertia essa lógica: os médicos cooperados seriam, ao mesmo tempo, prestadores do serviço e donos da empresa, dividindo resultados e decisões em assembleia, sem intermediário controlando a relação entre consultório e paciente.

Retrato de Edmundo Castilho, fundador da Unimed, em traje social, ao lado de uma placa comemorativa da inauguração da sede própria da Unimed-Bauru em fevereiro de 1978
Edmundo Castilho, fundador da Unimed, fotografado em 2007 na inauguração da Unimed Bauru — quatro décadas depois de criar a cooperativa em Santos.

1968-1975: de Santos ao resto do Brasil, cooperativa por cooperativa

O modelo pegou rápido. Liderado por Castilho, o grupo original passou a viajar pelo interior de São Paulo e depois por outros estados, ajudando médicos locais a fundar suas próprias cooperativas — cada cidade ou região formando uma Unimed “singular” independente, com administração e capital próprios, mas operando sob a mesma marca e os mesmos princípios. Em 1977, já eram 60 cooperativas espalhadas pelo país. Para dar unidade institucional a esse crescimento descentralizado, os cooperados fundaram, em 28 de novembro de 1975, a Unimed do Brasil — uma confederação nacional que passou a reunir e representar as singulares e as federações regionais que iam surgindo entre elas.

Como funciona um sistema com mais de 300 “donos” diferentes

É esse desenho em camadas que torna a Unimed diferente de qualquer concorrente. Uma operadora de saúde verticalizada, como a Hapvida, é uma única empresa com hospitais e médicos próprios sob um comando central. Já a Unimed é uma federação de cooperativas: cada Unimed singular (hoje mais de 300 espalhadas pelo Brasil) é uma empresa autônoma, com sede, diretoria e balanço próprios, pertencente aos médicos daquela cidade ou região. Essas singulares se agrupam em 34 federações estaduais ou regionais, que por sua vez respondem, institucionalmente, à confederação nacional Unimed do Brasil. Na prática, não existe um único “dono” da Unimed — existem mais de 300, cada um responsável pela própria operação, o que explica tanto a força de capilaridade da marca quanto, como ficou claro em 2024 e 2025, a fragilidade de deixar cada unidade cuidar sozinha da própria saúde financeira.

Fachada de um prédio de tijolos e azulejos bege com uma placa verde escrito 'Laboratório de Análises Clínicas Unimed Vale do Aço' e 'Centro Médico', em Coronel Fabriciano, Minas Gerais
Cada cooperativa singular da Unimed, como a de Vale do Aço (MG), opera com sede, diretoria e finanças próprias.

Hoje: a maior cooperativa de saúde do mundo

Quase 60 anos depois da fundação em Santos, a Unimed se tornou, segundo o ranking da Aliança Cooperativista Internacional (ACI), a maior cooperativa de saúde do planeta. O sistema soma hoje mais de 20,9 milhões de beneficiários e 117 mil médicos cooperados, distribuídos entre as mais de 300 cooperativas singulares e 34 federações. A rede inclui 157 hospitais próprios e mais de 29 mil hospitais, clínicas e serviços credenciados — a maior rede privada de assistência médica do país. Em 2024, o conjunto das cooperativas Unimed movimentou R$ 115 bilhões, dos quais R$ 96 bilhões foram destinados diretamente ao custeio da assistência aos beneficiários — um volume de recursos que rivaliza com o orçamento de estados brasileiros inteiros.

2024-2025: quando o modelo descentralizado vira vulnerabilidade

O mesmo desenho que deu à Unimed sua capilaridade nacional também significa que uma cooperativa em dificuldade não conta automaticamente com o socorro financeiro das demais — e foi exatamente isso que aconteceu numa escala inédita entre 2024 e 2025. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), 109 cooperativas médicas do sistema reportaram prejuízo operacional entre janeiro e setembro de 2024, afetando cerca de 7 milhões de beneficiários.

O caso mais emblemático foi o da Unimed Nacional — a cooperativa do sistema voltada a planos empresariais com abrangência em todo o país, entidade distinta da confederação Unimed do Brasil. Para evitar uma intervenção da ANS, ela precisou receber um aporte de R$ 1 bilhão vindo de 300 cooperativas regionais do próprio sistema (10% das reservas técnicas de cada uma), cobrindo um prejuízo acumulado de quase R$ 1 bilhão entre 2023 e os nove primeiros meses de 2024. No Rio de Janeiro, a Unimed-Rio (Ferj) acumulou mais de R$ 2 bilhões em dívidas com hospitais e clínicas credenciadas, e só evitou um desfecho pior ao firmar, em dezembro de 2024, um acordo com a ANS para reequilibrar as contas em 14 meses, com prazo de regularização contábil completa até 31 de março de 2026. Duas cooperativas tiveram desfechos ainda mais graves: a Unimed Brasília entrou em liquidação extrajudicial em 2024 e encerrou as atividades depois de sucessivas tentativas de recuperação, e a Unimed Montes Claros teve, em setembro de 2025, a alienação compulsória de sua carteira de clientes e a suspensão de vendas determinadas pela própria ANS.

Fachada moderna de um prédio de dois andares com revestimento em mosaico geométrico branco, cinza e preto, cercado por grades e plantas, com o logo da Unimed visível no portão
Sede da Unimed Catanduva (SP): cada cooperativa singular administra a própria sede, patrimônio e resultado financeiro.

O contraste é o que torna a história da Unimed diferente de qualquer outra já contada aqui: o mesmo sistema que nasceu para tirar o poder de decisão das mãos de administradores não médicos e devolvê-lo aos profissionais de saúde é, hoje, cobrado a construir mecanismos de solidariedade financeira entre suas mais de 300 unidades independentes — sob pena de repetir, em outras cidades, o que já aconteceu em Brasília e Montes Claros. Fundada para proteger a autonomia de 23 médicos em Santos, a Unimed hoje precisa aprender a se proteger de si mesma.

Leia também: A história da Hapvida: fusão com a NotreDame Intermédica e a crise de sinistralidade, A história da Caixa Econômica Federal: de decreto de Dom Pedro II ao maior banco público da América Latina, A história da Porto Seguro: da seguradora criada pelo Bradesco ao banco digital chamado apenas Porto e A história da Ultrafarma: do balconista de 9 anos ao “Rei das Velhinhas”.

Fontes: Wikipédia (português e inglês), Sistema OCB, Unimed Institucional, Conexão Seguros Unimed, Memória de Valor Seguros Unimed — fundação em 1967 em Santos, Edmundo Castilho, expansão pelo interior de São Paulo e fundação da Unimed do Brasil em 1975; Unimed Institucional (IDSS 2025, página institucional Unimed do Brasil) — números atuais de beneficiários, médicos cooperados, cooperativas, hospitais próprios e movimentação financeira de 2024; Exame, Diário do Pará, Mix Vale — crise financeira e aporte de R$ 1 bilhão à Unimed Nacional em 2024-2025; O Fator, reportagens sobre a liquidação da Unimed Brasília e a alienação compulsória da carteira da Unimed Montes Claros pela ANS em 2025; Wikimedia Commons — imagens (logo oficial, retrato de Edmundo Castilho, hospital da Unimed Vale do Aço em Coronel Fabriciano/MG, sede da Unimed Catanduva/SP).

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